quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Tratar do jardim


Para o mundo, George Schultz era a imagem sorridente da diplomacia dura dos Estados Unidos, no tempo de Ronald Reagan. Tendo substituído o erro de “casting” que tinha sido a escolha de Alexander Haig para o Departamento de Estado, Shultz revelou-se um pragmático inteligente.

Conseguiu o raro “milagre” de ter boas relações com o Conselheiro de Segurança Nacional, Colin Powell, e entendeu-se, às mil maravilhas, com Reagan, cujos instintos soube aproveitar muito bem e cujas gafes foi procurando evitar.

Coube-lhe desenhar, com reconhecido mérito, um tempo de aproximação tática com uma União Soviética que acelerava a sua decrepitude, a qual acabaria por redundar na sua implosão, resultante histórica para a qual, diga-se, os Estados Unidos muito trabalharam.

Schultz, de quem o mundo há muito não ouvia falar, morreu agora, com 100 anos.

Creio ter sido nas suas memórias que Schultz crismou a ideia de que fazer diplomacia era, basicamente, como tratar de um jardim: era necessário dar atenção constante aos diversos canteiros, em especial evitando que as ervas daninhas acabassem por arruinar o espaço. Peço perdão, se a metáfora não era exatamente assim, mas cito de cor.

Não sendo uma coisa muito sofisticada, a ideia tem os seus méritos práticos. Manter um mínimo de atenção em relação a cada uma das vertentes daquilo que constitui um quadro de relações externas, não deixando que um excesso de concentração em algumas temáticas, conjunturalmente mais relevantes, obscureça as outras dimensões e as deixe degradar, parece uma linha política saudável.

Os Estados são como as pessoas e, às vezes, também ocorre os espaços políticos serem amigos entre si. E os amigos cultivam-se, frequentam-se. Deixar cair, por desleixo diplomático, algumas dimensões nas relações internacionais é uma péssima prática. Não é prudente, nem sábio.

Vem isto, uma vez mais, a propósito da União Europeia e da sua afirmação externa. Pode ser que alguns achem errada esta perceção, entendendo que ela não corresponde à realidade dos factos. Mas, em política, como diria o outro, o que parece é.

E a mim parece-me muito evidente que, obcecada com o errático parceiro transatlântico, irritada com Moscovo, atrapalhada com a China, a União não presta a devida atenção à dimensão mediterrânica de onde emanam tantos problemas, tem uma retórica rotineira para a África, vive apenas a sua vocação comercial com a América Latina.

Se Bruxelas esquece isso, há que lembrar-lhe. E as presidências também servem para tal.

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