O telefonema de um jornalista, esta tarde, foi correto e profissional. A questão era “simples”: o que é que eu tinha a dizer perante o facto, que havia chegado ao seu conhecimento, de que, num processo que envolve a empresa brasileira Odebrecht, o meu nome terá surgido, ao que parece entre outros, como suspeito, nem percebi precisamente de quê, numas inquirições feitas entre as autoridades judiciais portuguesas e brasileiras. “A Odebrecht?”, reagi. Por curiosidade, a Odebrecht é talvez das grandes empresas brasileiras a única com a qual, ao tempo em que fui embaixador naquele país, nunca tive o menor contacto. Não conheço ninguém da Odebrecht! Nunca, pelas minhas mãos, passou algum assunto que tivesse a ver com essa empresa. E sou acusado exatamente de quê? Alguém da Justiça me chamou, alguma vez, para me perguntar fosse do que fosse? Envolve-se o nome de um cidadão num “processo” e deixa-se que, com uns títulos, se crie a ideia do “não há fumo sem fogo”. Para gozo da rapaziada das caixas de comentários? E, depois, haverá alguém, responsável e disponível, no dia em que este tipo de insinuações cair no ridículo, em que obviamente cairão, para vir apresentar um pedido de desculpas? E irá isso ainda a tempo de desfazer os preconceitos entretanto criados ou o objetivo, afinal, era esse mesmo?: tentar enlamear o nome da pessoa, antes mesmo que ela tivesse possibilidade de fazer um mínimo de contraditório. É que isto tem precedentes. Há tempos, correu por aí, tentando envolver-me, um alarido sobre a barragem de Foz-Tua. Uma questão muito fácil de explicar, mas só se alguém quiser ouvir. Tive então direito a fotografias na imprensa, peças nas televisões, à esperada especulação pelos caluniadores profissionais. Fiquei, naturalmente, à espera de que alguém me chamasse. É que a questão é simples: há uma investigação ou não há? Se há, o meu nome está envolvido ou não? E, se sim, em quê? Ninguém me diz nada? É tudo em segredo? A senhora Procuradora-Geral da República nada tem a dizer, publicamente, sobre esta forma de atuar dos seus serviços? Já vale tudo? Por mim, com a total serenidade de quem nada tem a temer, apenas gostava que quem tem a mínima das dúvidas - qualquer, por menor que seja! - me chamasse a esclarecê-la. Querem o meu endereço? “Não digas nada! Só vais agravar as coisas!” dizem-me as vozes amigas e da prudência. Mas vou agravar o quê? O que é que posso agravar, se não me foi colocada a menor questão, se não sei sequer do que estão a falar? Tenho de reler Franz Kafka.
Senhor embaixador
ResponderEliminarSou leitor assíduo do que aqui vai escrevendo.
(Declaração de interesses: só sigo dois "blogs": este e o "Avenida da Salúquia", ambos pela sua qualidade.
Às vezes não estou muito de acordo com o que escreve e, então, não me coíbo de fazer algum comentário, cuidando, sempre, de não ser inconveniente, mas dizendo o que me vai na alma sobre o assunto. Nem sempre, percebo, o senhor embaixador aprecia o que escrevo - e fico sempre a congeminar por que razão (quando isso acontece) o senhor embaixador "faz censura ", não mostrando os meus comentários. Dois exemplos (para que o senhor embaixador vá rever, se a tanto isto que agora escrevo o "incomodar"...): o meu comentário ao seu "post" denominado "Guerras" e outro ao "Vergonha própria" ( aqui falo sobre Tancos).
Dito isto, eu que o não conheço pessoalmente, creia que, seguindo eu com alguma atenção a vida política nacional e quem nela se movimenta - e, ao que tenho por certo, não partilhando a mesma área político-ideológica que o senhor embaixador - estou, neste caso, completamente solidário com a sua atitude, por me parecer das vozes mais claras e límpidas da nossa cena política.
Quero, pois, transmitir-lhe a minha solidariedade e felicitar esta sua atitude de total frontalidade e transparência. Coisa tão escassa e de que tanto precisamos na nossa vida política.
Cumprimentos.
MB
Desejo que as instituições judiciais e mediáticas não apliquem ao Sr. embaixador a mesma metodologia torpe utilizada com José Sócrates e com Lula da Silva, sobre a qual me foi penoso não ver neste espaço vigorosa denúncia e desconforto. Estou convencido que depois dessa brecha no Estado de Direito, a quem tanta gente inteligente e responsável fechou os olhos, em Portugal e no Brasil, muitos canalhas se sentiram à vontade para prosseguir.
ResponderEliminarParece-me que essa atroada " quem não deve não teme" devia ser revista e depressa. Se "quem não deve" não realizar rapidamente que a politica do " à justiça o que é da justiça,..." anda a minar os fundamentos do Estado de Direito, quem sobrará para o defender? E repare, Seixas da Costa: vc tem voz. Qualquer jornal lhe dará espaço para explanar o que entender por bem. Então e quem não tem, como se defende?
ResponderEliminarMR
É normal, Francisco. O Ministério Público português é o sucessor da Inquisição. E, tal como na Inquisição, o seu objetivo não é tanto condenar as pessoas, como sobretudo mantê-las em suspenso e denegrir a sua reputação. Trata-se de uma associação de malfeitores, que atua em colaboração cúmplice com os jornalistas (que são outra associação de malfeitores, basta ver o papel que têm tido na epidemia de covid-19).
ResponderEliminarBoa sorte.
Concordo plenamente com NG.
ResponderEliminarCaro Sr. Embaixador.
ResponderEliminarLamento, sinceramente, essa situação em que o querem envolver. Infelizmente, digo-o há muito, Portugal é demasiado pequeno, paroquial, falta-lhe a complexidade sistémica que Niklas Luhmann identificava como condição do manutenção cogente e progresso das sociedades.
Nada conta, pelo contrário, tudo a favor do chamado "quarto poder". Bem e lealmente utilizado é um outro elemento de controlo dos outros três poderes soberanos e desempenhava (como magistralmente Luhmann, mais uma vez, explicava. A pena é que eu tenha que escrever esta palavra no passado) o importante papel de criar uma realidade comum partilhada, parcialmente ilusória que fosse mas, ainda assim, essencial para a cogência do tecido social.
O problema português é que a debilidade económica dos grupos de comunicação social obriga-os a serem serventuários de certos stackeholders muitas vezes escondidos, por um lado e, por outro, a usarem o escândalo, a pura maledicência, para agarrar os leitores. Quanto pior, mais sangrento ou provador de indignação, for o noticiado, tanto melhor.
Outro problema português é que a característica paroquial do pais, quer em dimensão quer sobretudo, nas relações entre os subsistemas soberanos entre si interdependentes mas, do ponto de vista do dever-ser, também entre si bem separados e autónomos.
Inexistem as necessárias distâncias pessoais e institucionais, as vedações constitucionais são demasiado permeáveis.
E isso reflecte-se, também, nas relações entre aquelas e o "quarto poder". Podia dar-lhe exemplos concretos, mas o meu dever de reserva impede-me. O que ele não me impede é de dar esta opinião enquanto cidadão.
Está, parece-me, a ser vítima, como já outros foram, do que descrevi.
Só uma pequena questão: Será que "isto" não é já consequência da limpeza que resolveu fazer aqui no blog?
ResponderEliminarCaro Embaixador, tem a minha solidariedade e louvo-o pela sua frontalidade e transparência.
ResponderEliminarFTavares
Anda muita gentinha, em particular, muita da comunicação social, obsessivamente à procura de sangue. Uma reles tristeza. Sr. Embaixador.
ResponderEliminarMeu Caro Francisco ,um forte abraço .
ResponderEliminarDos fracos não reza a História...!!!!!!!!!!!!!
ResponderEliminarSenhor embaixador, se pensa que "quem não deve não teme", precisa efectivamente de reler Kafka, que mostra muito bem que mesmo quem não deve tem boas razões para temer...
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