Quando emergiu para a grande política, era uma espécie de personagem “à americana”, num género que, depois de Kennedy e de Trudeau, seduzia muitos europeus. Tinha o vigor de uma nova geração, renovadora da V República, coveira assumida da IV. Falava bem (falava inglês, hélas!), com um discurso competente, ágil nas contas, sedutor na eficácia apregoada. Era, ao seu modo, um liberal, ideia mais velha do que antiga e que confere sempre um ar desempoeirado a quem, ciclicamente, a proclama. Mesmo em França, onde o liberalismo foi sempre um receita garantida para o insucesso político. Depois de o ter usado como degrau para as suas legítimas ambições, como ministro da Economia e Finanças, Giscard acabou por provocar um De Gaulle já em declínio, a quem deixou o seu, para sempre tido como oportunista, “oui, mais”. Após demarcar-se do gaullismo (o seu verdadeiro inimigo de estimação), mas conseguindo domesticá-lo por algum tempo em seu proveito, veio a derrotar, na primeira corrida à presidência, François Mitterrand, lançando-lhe, com genial precisão, o magnífico “vous n’avez pas le monopole du coeur”. Cavalgou, entretanto, a conhecida atitude francesa de tentar dominar o processo integrador querendo mostrar o país como mais europeísta do que os outros. Com Helmut Schmidt, com quem fez um dos “tandem” franco-alemão, foi o “inventor” do Conselho Europeu, nesse tempo uma estrutura ainda fora dos tratados. Giscard foi uma figura indiscutivelmente brilhante, uma estrela no firmamento político francês, mas parece também pacífico que era um homem deslumbrado consigo mesmo, ao mesmo tempo que projetava um modo aristocrático, quase monarquista, de afirmação política, um elitismo snobe e distante. A questão dos diamantes que lhe terão sido oferecidos pelo facínora centro-africano Bokassa perseguiu-o sempre e, de certo modo, contribuiu para acelerar o seu fim político. Teve um único mandato presidencial, somando, na derrota que Mitterrand lhe inflingiu em 1981, muitas culpas próprias, conjugadas com uma conjuntura internacional que lhe foi adversa. Manteve sempre o seu prestígio público e viria a ser recuperado para presidir à Convenção Europeia, em que desenhou o Tratado Constitucional, ideia que acabou por morrer na praia, mas que acabaria por ressurgir travestida daquilo que ficou conhecido como o Tratado de Lisboa. Giscard, recorde-se, foi contra o “timing” da abertura da Europa a Espanha e Portugal. Perdeu. Como, mais tarde, foi bastante culpado pelo modo agressivo como a Turquia se sentiu rejeitada na aproximação que pretendia ao projeto. Nesse caso, Giscard, mas não só, contribuiu para que perdêssemos todos. Escreveu, além obras estimáveis e bem construídas, um livro desagradável e desnecessário, a rescender a decadência pessoal, insinuando, numa ficção inconveniente, uma sua hipotética relação com a princesa Diana. Em Paris, Giscard era vizinho da nossa embaixada. Goste-se ou não dele, temos de reconhecer que foi uma grande figura da política francesa. E europeia. Morreu ontem. De Covid.
