sábado, outubro 31, 2020

O génio e o caráter

A História regista vários casos de personalidades que, tendo revelado um mérito excecional nas áreas em que operam, com isso concitando a admiração e respeito da sociedade, praticaram, noutras dimensões da sua vida, atos graves de natureza cívica. A questão que se coloca é saber se a comunidade, ao querer reconhecer publicamente os méritos de uma atividade que todos aplaudem, o pode fazer sem levar em conta os restantes aspetos.

Esta questão veio à baila a propósito da atribuição do prémio Camões ao professor Vitor Aguiar e Silva, cuja empenhada partilha dos valores da ditadura fascista, com reconhecida militância política contra a liberdade de quem lutava pela democracia, suscita legítimas dúvidas sobre a oportunidade de um reconhecimento académico que iluda esses outros aspetos da sua vida.

Provavelmente não há uma resposta de sim ou não a esta questão, dividindo-se as opiniões, mas colocá-la, muito abertamente, é a expressão da dúvida que a muitos assalta. Como é o meu caso.

11 comentários:

  1. Não terá sido decerto por ignorância que, em 2006, Jorge Sampaio lhe atribuiu uma comenda. E, quanto a lutas académicas, esse PR tinha CV e pergaminhos bastantes.
    A questão é eterna e tem muitos protagonistas - Céline, por exemplo. Os puritanos e rigoristas condenam desde logo. Considerando que um Homem tem de ser peça única e coerente.
    Serei parte interessada? Talvez. Aprendo sempre com o seu ensaísmo fundamentado e sério, e tive-o como assistente competente, de A. J. da Costa Pimpão, nos meus tempos de Coimbra.
    Que as virgens atirem os calhaus politicamente correctos.

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  2. Anónimo13:00

    De facto no que li até aqui sobre esse indivíduo omite-se cuidadosamente o seu Curriculum político. Porquê? Pode merecer o prémio, mas por que não falar dos seus feitos sem omissões? Eu estava em Coimbra em 1969 e lembro-me bem dele.

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  3. alvaro silva13:52

    Mas o que está em causa é o passado do homem? Ou o seu valor literário? este tipo de atitude fazem-me lembrar as que foram tomadas contra o Aquilino Ribeiro ou Jaime Cortesão ou indo mais atrás contra o José Relvas ou Brito Camacho ou recuando mais atrás ao António da Silva o "judeu". Deve ser pêcha dos lusitanos.
    Razão tinha o D.Filipe I de Portugal ao escrever para a sua filha que estava em Madrid como regente.
    -Que raio de povo são os portugueses que "Sofrem mais com a ventura alheia do que com a miséria própria" Não aprendemos nada! A inveja corroi-nos!

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  4. Anónimo14:15

    Senhor Álvaro:
    Não é isso. Pergunto somente porque é que o Curriculum dele, pelo menos em vários sítios onde li sobre o prémio, não é completo. Ou os seus feitos no campo político não interessam? Porquê? Não ponho em dúvida os méritos dele em matéria de literatura. Quando se estuda um literato ou um pensador é costume estudá-lo em toda a sua dimensão. Porquê omitir uma parte? Só isto.

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  5. Anónimo14:19

    Sim o que está em causa é o passado. Foi pelo passado que mereceu o prémio e não pelo que vai fazer no futuro. Esse (o futuro) só será premiado quando se tornar passado. É simples.

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  6. O prémio reconhece o génio e o trabalho, não o carácter, muito embora fique a pergunta se uma pessoa que tivesse sido condenada por um crime gozaria da mesma tolerância pela parte do júri que goza alguém que se limitou a apoiar um regime opressivo como o do Estado Novo. Eu entendo que deveria gozar.

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  7. João Cabral15:06

    Pensei que este tipo de questões já tinha sido ultrapassado. Ou será que é conforme a pessoa, lembrando-me assim de repente de Adriano Moreira? Haja pachorra.

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  8. Anónimo16:23

    Eu de Adriano Moreira diria o mesmo. A par dos seus méritos, quando um dia se fizer história, e da sua capacidade intelectual tem de se referir, nos estudos que se fizerem, que fez parte de um Governo que mantinha a censura e a Pide e também que ele assinou uma portaria sobre o Tarrafal. Ou deve omitir-se isso? Não é uma questão de pachorra, é uma questão de rigor e honestidade. E do Marquês de Pombal? Deve-se falar das reformas importantes que promoveu e omitir o caso dos Távoras? Em investigações de História não se trata de pachorra. Já em questões de propaganda política ou luta partidária é outra coisa: omite-se o ue nos prejudica. Exemplo: quem nega on holocausto está a fazer História ou simplesmente propaganda política (pró nazi, diga-se). Nada está ultrapassado deste ponto de vista.

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  9. se o Saramago, que defendeu as piores ditaduras, podia, porque não há-de poder Aguiar e Silva?

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  10. Anónimo08:15

    Eis FSC dando-nos um bom exemplo da "cultura de cancelamento".

    Saramago, não só era comunista, como também defendia o iberismo (quando é que isto começa a ser considerado crime, já agora?). Mas... nada a apontar.

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  11. João Cabral18:04

    Excelente resposta:

    «Ao Sol, o professor Aguiar e Silva disse desconhecer o charivari mas sempre foi adiantando que “haverá aqui confusões tremendas entre valores estético-literários e valores ideológicos. Há pessoas que põem acima de quaisquer valores, o valor de um partido ou de uma ideologia, o que comigo nunca aconteceu.”»
    https://sol.sapo.pt/artigo/713727

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