quarta-feira, outubro 21, 2020

Conversas à esquerda


António Costa quer que este Orçamento, a exemplo do que tem vindo a passar-se desde 2016, seja viabilizado à esquerda. Se a entronização do governo minoritário do PS foi garantida pelos partidos à sua esquerda, parece natural, em principio, que os diplomas de receitas e gastos do Estado sigam a mesma lógica.

Recorde-se que foram os partidos que suportaram a Geringonça, no primeiro mandato, que recusaram renovar o compromisso escrito na base da qual o PS governou. Presume-se que o terão feito por forma a ensaiarem um novo caminho, depois do saldo da anterior experiência, não obstante ter contribuído para manter a direita fora do poder, ter sido maioritariamente "faturado" pelo PS.

A necessidade do PCP e do Bloco sublinharem ao eleitorado que as medidas mais progressistas decididas pelo governo PS (porque o governo continua a ser PS, convém não esquecer) se devem à sua barganha negocial converte os orçamentos num "happening" anual. Além de que esses partidos não rivalizam apenas com os socialistas: disputam também entre si, o que os obriga a uma esforçada coreografia verbal e mediática.

Para António Costa, o processo deve ser muito difícil de gerir, o que faz com que, por vezes, lhe escapem frases de alguma irritação, onde se nota uma maior contemporização com o PCP e uma menor paciência com o Bloco. Em abono da verdade, tem alguma razão, neste sublinhar de diferenças: o PCP é reconhecidamente mais fiável.

Passados estes anos de cooptação dos partidos mais à esquerda para a esfera da influência na governação, parece evidente haver dois efeitos.

O primeiro tem a ver com a própria matriz funcional do regime. Ao trazer a esquerda da esquerda para um diálogo com consequências nas políticas de Estado, mantendo sempre bem firmes os compromissos essenciais no plano europeu - este ano conjunturalmente flexibilizados pelas decisões tomadas durante a pandemia - pode dizer-se que se processou uma subliminar aculturação desse setor a uma prática de compromisso e de realismo, arrancando-o da postura de reivindicação inconsequente que marcava o seu discurso. E a esse efeito nos partidos corresponderá uma evolução nos próprios eleitorados. 

O próprio PS, contudo, não ficou imune a essa prática. Ao tomar como suas medidas a que a pressão dos parceiros à esquerda o foi conduzindo, o PS consumou um processo de evolução programática interna, assim acalmando, até ver, um seu setor que sempre viveu mal com derivas "centristas", como as que a liderança de Seguro parecia preconizar.

3 comentários:

  1. Anónimo00:35

    O Costa tem cinco contras para este OE: o BE, que o Costa humilhou (convém lembrar), para ver se tinha a maioria absoluta; uma direita meia morta, que não assusta o BE; o PR que irrita o BE: e a bazuca que não convence o BE em relação a quaisquer contenções. Sempre o BE para os chatear, diga-se de passagem, muito justamente.

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  2. António Costa iniciou enviesadamente o processo de discussão orçamental ao recusar, irrefutavelmente, a "ajuda" do PSD, ainda para mais quando este partido vinha iniciando um caminho que o desmarcava dos anos da obcecada austeridade. Foi, portanto, sobranceiro, não só com Rui Rio, como também com os partidos da bem aventurada engenhoca parlamentar. Para além disso, a recusa de um acordo com o PSD - o partido mais próximo do PS no quadro parlamentar - custa mais a entender quando se avizinham milhões e milhões de euros para, digamos, criar uma espécie de refundação da pátria, ao nível, principalmente, do escrutínio dos gastos públicos e das apostas estruturais futuras.
    António Costa pensava que tinha o Bloco e o PCP na mão (ou no bolso). Apostou mal. Haverá, é certo, sempre os populistas como, por exemplo, o partido dos animais e outros afins para o ajudar neste seu poiso ministerial. E, dentro deste populismo mais ou menos patenteado, convém, igualmente, não esquecer o próprio Bloco de Esquerda.

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  3. Anónimo19:29

    Ao contrario do que parece, António Costa não está nada chateado com o BE ou o PCP, porque sabe que eles fogem a sete-pés de eleições no meio de uma situação como a que vivemos de incertezas, e com incertezas, ganha sempre quem tem o poder.

    As exigências, e vestes rasgadas dos BE e PCP, é só para preparar junto do seu eleitorado o voto de abstenção ao OE. Mais nada, o resto, é o folclore para marcar agenda mediática, só.

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