Há pouco mais de quinze anos, assumi funções como embaixador português no Brasil. Algumas semanas passadas sobre o início das minhas funções, fui recebido numa sessão solene, como sempre acontece a todos os embaixadores portugueses, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Fez as honras da casa o Dr. António Gomes da Costa, à época presidente daquela instituição.
O Real Gabinete é, muito provavelmente, a mais emblemática instituição da comunidade portuguesa e luso-brasileira. Outras importantes e prestigiadas estruturas com esta raiz existem no Brasil, mas o simbolismo do Real Gabinete é reconhecidamente único.
O Dr. António Gomes da Costa era um homem que eu sabia bastante conservador. Ele, aliás, não o escondia, nomeadamente nos artigos que regularmente publicava em “A Voz de Trás-os-Montes”, o jornal da minha terra.
Posso imaginar que alguma desconfiança sobre o novo embaixador pudesse pairar no seu espírito. De facto, eu afirmava com orgulho ter estado “implicado” no 25 de Abril, sabendo nós que em importantes setores da comunidade lusíada no Brasil essa continua a não ser uma data demasiado reverenciada, e estou a ser irónico.
Nas palavras que deixei nessa cerimónia, traduzindo exatamente o que pensava e sentia, afirmei, deliberadamente, estar ali como representante oficial do Estado - e não do governo de turno em Portugal -, logo, ao serviço de todos os portugueses residentes no Brasil, independentemente das respetivas ideias. Imagino que, para alguns ouvintes, o que disse tenha sido entendido como uma flor de retórica. Julgo que o saldo dos meus quatro anos no Brasil provou que estava a falar a sério.
Mas não é isso que hoje importa. No final da sessão, sob a sombra tutelar do busto de Salazar, que continua a decorar politicamente uma das salas do Real Gabinete, chamei o Dr. Gomes da Costa à parte e perguntei-lhe se ele sabia em que estado estava o túmulo do professor Marcelo Caetano. Notei a sua cara de surpresa. Mas continuei. Pretendia saber se estava cuidado, bem tratado, preservado. Sendo o lugar onde estavam os restos mortais de uma figura de Estado portuguesa, entendia que devia ser prestado um permanente cuidado ao local, pelo que lhe pedia o favor de tentar saber se isso estava assegurado. Se necessário, a embaixada tentaria providenciar meios para tal.
Recordo-me de António Gomes da Costa continuar um pouco espantado. A última coisa de que deveria estar à espera é que aquele diplomata, que ali havia chegado precedido de uma imagem de esquerda, mostrasse preocupação com o túmulo de um político que, com visível gosto, ajudara a derrubar. Mal ele sabia que eu, que não nutria a menor admiração política pela figura de Caetano, estava a ser muito sincero nos meus propósitos.
António Gomes da Costa disse-me ter conhecimento de que um grupo de nossos compatriotas residentes no Rio mantinha a sepultura a seu cargo. Mas que não deixaria de contactar-me, se acaso soubesse haver algum problema. Nunca me voltou a falar no assunto, pelo que presumi que a questão nunca se colocou.
Ao final da minha estada no Brasil, fiquei amigo de António Gomes da Costa. Trocámos cartas já depois desse período. Lamentei a sua morte, ocorrida há já algum tempo, num artigo publicado da imprensa portuguesa local. Era um patriota à sua maneira, que estava nos antípodas da minha, mas em quem reconheci a extrema dedicação que devotava ao Real Gabinete e às outras estruturas associativas a que estava ligado. Tenho por regra não medir as amizades pela bitola das ideias políticas. Este foi apenas mais um caso.
Neste que é o dia da morte de Marcelo Caetano, lembrei-me de contar este episódio.
