quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O mal de Joacine


Ninguém suspeitaria, há uns meses, que a eleição de Joacine Katar Moreira para o parlamento português pudesse dar origem a uma controvérsia como aquela que entretanto se gerou em seu torno. Acho, aliás, que a questão da gaguez da deputada foi, neste contexto, um mero fator de diversão para algo mais essencial.

Joacine Katar Moreira é negra, feminista e, com frequência, tem deixado claro que pretende vir a utilizar aquela tribuna para abordar, numa perspetiva radical, algumas temáticas menos consensuais, tal como para fazer uma leitura, muito marcada pela sua experiência pessoal, sobre o fenómeno da exclusão rácica em Portugal, com as decorrências que daí advêm para a revisitação do colonialismo português e das suas sequelas contemporâneas. Recordo, a propósito, como o surgimento de uma bandeira da Guiné-Bissau, na noite da sua eleição, logo provocou uma patética histeria nacionalista e xenófoba, atitude contra a qual, aliás, me insurgi publicamente.

Mas, afinal, perguntar-se-á o leitor, a que propósito vem o título deste artigo? Qual é o “mal” de Joacine? Vou ser muito claro: temo que o radicalismo recorrente do discurso da deputada, a sistemática colagem do sensível tema racial a uma postura confrontacional e divisiva, que por muita gente, mesmo aquela que se considera moderada, pode vir a ser lida como estimuladora de um anti-portuguesismo no seio das comunidades imigradas de outras etnias, acabe por ser um adubo fácil para a doença que é o nacionalismo primário, cuja face política ela encontrará do outro lado do hemiciclo onde se senta. 

Ao olhar as redes sociais e alguma imprensa, noto que a postura de Joacine Katar Moreira deu azo à emergência de algum racismo alarve que vivia escondido em certas catacumbas da nossa sociedade, até aqui travado na sua expressão pública por um mínimo de vergonha, o que já era um considerável ganho civilizacional. Vejo, contudo, que alguns iluminados entendem que o “outing” desse primarismo miserável acaba, no fundo, por ser clarificador e separador das águas. A mim, que não me apetece viver num Portugal transformado num “ringue” de tensões sociais e de ódios, de “vendettas” históricas e de ajustes de contas intelectuais com o passado, isso parece-me péssimo. 

Joacine Katar Moreira, hoje deputada com toda a legitimidade, tem, é claro, o direito de pensar de forma diferente. Espero, com sinceridade, que, a prazo, não venha a arrepender-se por poder vir a ser a responsável por ter soltado por aí alguns perigosos demónios.

12 comentários:

Anónimo disse...

muitas pessoas apregoam o que não querem que aconteça, e acabam de contribuir para isso
e outras pensam que vêm descobrir a pólvora!
lamentável

António disse...

Ela precisa desses demónios, vai fazer tudo para os soltar. Pouco mais terá para oferecer à política nacional do que esse combate. Do outro lado é o mesmo, e chegámos a isto. Nada de novo, nada de bom.

João Cabral disse...

Faltou dizer: no essencial, Joacine Katar Moreira tem a mesma atitude imputada a muitos racistas. E não, esse episódio da bandeira não foi apenas um pormenor. Repare-se que não havia uma única bandeira portuguesa presente naquela sala. Além da da Guiné-Bissau, só a da União Europeia (justificadamente).

Anónimo disse...

Acho que esta preocupação do embaixador é precisamente o ponto quente da questão. E é grave.
João Vieira

Anónimo disse...

Não concordo. Não creio que as tensões raciais fiquem mais exacerbadas. Só se for em Lisboa, multicolor, mas aí é tudo intelectual de esquerda. Há outras tensões sociais, económicas e políticas na sociedade portuguesa, essas sim, bem mais perigosas. E os políticos acomodados que se cuidem.

Anónimo disse...

Tendo a concordar com a totalidade do texto do senhor embaixador mas, a senhora de que fala tem exteriorizado com arrogância o ódio e o racismo de forma injustificada e muito perigosa!

Anónimo disse...

Totalmente de acordo senhor embaixador, Joacine transmite ódio pelo parlamento onde, por agora, atua!

Anónimo disse...

Porque se referem à mulher como "a Joacine" ou "a deputada Joacine"? Alguém diz "a Catarina" ou "a deputada Catarina"? É só porque tem um nome invulgar? Não haverá outros no parlamento com igual azar? Vejam lá se ainda são acusados de racismo...

Seixas da Costa faz o seu cada vez mais habitual jogo de rins: por um lado condena a deputada por ter um discurso radical, divisivo e proporciador de anti-portuguesismo; por outro lado, diz que o problem do discurso radical não é sê-lo mas sim poder despertar outros radicais.

Entendamo-nos: que a mulher seja racista, que a mulher seja tonta na forma como aborda a História (lembrem-se do já famoso caso das pinturas no Parlamento), que a mulher queira importar para Portugal uma conflitualidade suja e destruidora da paz social, isso não é tanto o problema porque, o radicalismo da Esquerda é... folclórico (como todos sabemos - sai cantiga de intervenção). Já que, do "outro lado", haja gente que se "alevante" e grite contra este radicalismo racista e sectário, isso sim, é grave!

No fundo, no fundo, isto é uma forma de ter saudades do tempo em que o respeitinho era muito bonito e apenas uns podiam falar.

Casa Muzambike disse...

Há nesta opinião, do Sr. Embaixador, bom senso e clarividência. O discurso "racialista" que agora ganha espaço parlamentar é um sinal do tempo. Se por um lado mostra que ao parlamento chegam "outras" vozes, para além do politicamente correto, é em si bom. Contudo, como nota o embaixador, abre a tal caixa de Pandora (sobre o qual se construiu o consenso pós-colonial português). Se não há bela sem senão, espera-se que a questão possa ser resolvida politicamente no parlamento, com as armas da palavra e do livre debate.
Mas os "sinais de fogo" não nos deixam acalmar as angustias. Trump, Boris Jonhson, O nacionalismo espanhol, húngaro, ou polaco aí estão entre nos ( a ocidente). A leste na Rússia ou a Turquia no Médio Oriente assutam. Na América do Sul e na África do Sul extremam-se posições. Ou seja para além da arena política a questão já está na arena social.
A a questão será como ultrapassar as diferenças. Quem sabe ...

Cardeal disse...

Votei no Livre pela primeira vez e estou preocupado. O livre não era isto...

Anónimo disse...

Joacine Moreira destila ódio ... ambicionava protagonismo e conseguiu . Não é só o seu discurso raivoso , é a maneira como aparece , acompanhada por um personagem que faz do Parlamento uma festa de carnaval . Respeitar as diferenças é a obrigação de todos nós , expô-las de forma acintosa é provocação ... E sim é verdade , não havia uma única bandeira portuguesa , o que é uma forma de racismo, estamos em Portugal , o País que a acolheu e lhe permitiu subir ao pódio ...
O anónimo das 11, 34 tem tem razão : saudades do tempo em que o respeitinho era muito bonito . Ora o respeitinho também pode e deve existir em democracia ...

Anónimo disse...

Olha, eis que temos mais uma polémica com a deputada Moreira (sim, eu sou o gajo que acha mal a "confiança" de lhe chamarem Joacine para aqui e para ali). A mulher não para!