quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Cilindrada diplomática


Era um homem simpático, já idoso, o motorista local daquela nossa embaixada, bem fora da Europa. Esforçava-se por falar português, mas com escasso sucesso. Dizia o básico.

Um dia, o novo embaixador, para alimentar conversa durante uma viagem, perguntou-lhe com quantos dos seus antecessores ele tinha trabalhado. Tinham sido vários e o motorista lembrava-se bem do nome de todos.

Por uma qualquer razão, veio à baila o automóvel pessoal do primeiro daqueles embaixadores: “Ah! Carro muito bom! Cadillac! Graaaande!”. Esse Cadillac tinha impressionado fortemente o homem.

Mas não se ficou por aí. Sem ser perguntado, resolveu continuar: “Depois, vem embaixador “Silva”. Lincoln! Carro graaaande!”. E prosseguiu: “E embaixador “Santos”. Mercedes! Graaaande!”. Os automóveis de grande porte dos seus embaixadores tinham-no marcado.

E o homem parou as evocações automobilísticas, sem, curiosamente, mencionar a viatura do imediato antecessor do seu atual chefe. Este, intrigado, perguntou: “E o Embaixador “Pinto”? Que carro tinha?“.

Nova pausa do motorista que, com uma entoação de voz bem menos entusiástica, finalmente disse: “Embaixador “Pinto”. Mercedes!” Fez um silêncio de alguns segundos e acrescentou: “... mas ‘piquinino’!”. E riu!

O embaixador, no banco de trás, estava divertido com aquele elenco de colegas e automóveis. E decidiu espicaçá-lo, lembrando-se do seu próprio carro: “E agora?”. O homem, lá à frente, tinha embatucado. Mas ele insistiu: “E agora? Diga lá!”

O velho motorista percebeu que não podia escapar e, sem se voltar para trás, em voz mais baixa, saída de entre os dentes bem brancos, a contrastar com a sua cara, usando um tom “declinante” que não iludia o que lhe ia na alma, lá comentou, imagina-se que com algum sorriso: “Agora? Agora é só Toyotta, embaixador...”

11 comentários:

António disse...

Mais um comentário para ser apagado, mas lá vai.
Há dias surgiu uma foto do senhor Galamba no seu carro oficial. Um BMW, série 5 ou 7. Um carro que eu não posso ter, mas ele pode - à minha conta, também. E com motorista. Goste ou não, caro embaixador, é um insulto.

Anónimo disse...

o senhor galamba nao e o senhor galamba e um alto representante de certa instituicao portuguesa, e por isso, e so por isso que o senhor galamba anda de bmw. queria vexa o que? que um secretario de estado andasse de fiat 600?

bem sei que na holanda o pm anda de bicicleta. tenho a impressao que vexa tb havia de zurzir se o dito galamba fosse trabalhar de bina.

Luís Lavoura disse...

Não entendo. Então o carro do embaixador muda consoante o embaixador? O carro não é pertença da embaixada, e todos os sucessivos embaixadores o usam? Cada embaixador tem direito a comprar um carro novo para si e deitar fora o do embaixador anterior?
Francisco, esclareça-me lá, por favor.

Anónimo disse...

Diplomatas cilindrados.

Anónimo disse...

É o que dá, algumas pessoas terem categoria para escreverem metáforas…
Sempre quero ver o Sr.Embaixador a explicar o andar de "Toyota" ultimamente. Sempre quero ver...

Francisco Seixas da Costa disse...

Será que as pessoas não leram que se tratava do “automóvel pessoal”? É claro que, esclarecido isto, alguém virá dizer: então os embaixadores tinham Cadillacs? É assim, o mundo das “indignações” das redes sociais...

Anónimo disse...

Sr.Embaixador,

Essa de "os embaixadores "TINHAM Cadillacs?" é muito boa.

Tal como o anónimo das 20.30 também "quero ver..."
O pessoal que não pertece à carreira, não entende o Toyota.

E é claríssimo, estamos a falar do "automóvel pessoal".

Anónimo disse...

Caro Francisco,

O motorista chamava-se Vasco e era um patriota dos quatro costados.

Um abraço

JPGarcia

Anónimo disse...

Mudando de género:

Era uma vez, uma Embaixadora de Portugal, num posto distante.

Constantemente chamada de Embaixatriz, exclamava algo irritada:

"Sou Embaixadora, dá mais trabalho".

Nunca percebi como podia fazer esta afirmação, só conhecia um dos lados..
Ficou em posto pouco tempo...

Anónimo disse...

Ora essa , então se o Embaixador estiver em posto nos Estados Unidos, o carro oficial não pode ser um Cadillac ? É de certeza muito mais barato do que um carro francês ou alemão ... além de que certamente terá feito centenas de quilómetros , antes dele chegar .

Anónimo disse...

Já o Toyota para carro pessoal deixa um pouco a desejar . Um Fiat , um BMW , um Peugeot ... sempre têm mais classe . Nunca um Mercedes , cheira a mestre de obras .