Ao ouvir hoje, num debate, Catarina Albuquerque, uma especialista portuguesa que se tem destacado mundo multilateral que se ocupa da questão vital da água, falar-nos, com o seu convincente entusiasmo, da tragédia - porque é de uma tragédia que se trata - que envolve a gestão global desse recurso escasso, lembrei-me de um episódio passado comigo há cerca de 15 anos.
Foi numa travessia do Usebequistão, na Ásia Central, numa carrinha da OSCE. O calor exterior, nessa viagem pelas montanhas, era imenso e nós ali íamos, bem instalados, muito confortáveis, numa espécie de “oásis” em movimento.
Era uma estrada de montanha, sem localidades visíveis, com uns casebres à distância, de quando em quando. Em um ou dois locais do percurso, reparei que havia umas crianças que nos estendiam garrafas de água, que traziam na mão. Por curiosidade, perguntei à funcionária local da organização, que nos acompanhava, se elas estavam a vender água.
A jovem, funcionária local da OSCE, riu-se: “Não. Eles estão a pedir água a quem passa. São mandadas pelos pais, das casas lá em baixo, para pedirem um pouco de água para beberem, em especial nesta altura de grande calor”.
Fiquei siderado com a revelação. As pessoas que me acompanhavam, quatro embaixadores junto da OSCE em Viena, ficaram incomodados pela firme recusa do motorista e da guia de voltarmos atrás, para darmos aos miúdos algumas garrafas das muitas que, bem geladas, nos abasteciam a carrinha. Isso atrasaria o nosso programa, disseram-nos. Verdade seja que não íamos resolver nada de essencial, apenas apaziguar a nossa consciência. Mas sempre seria melhor do que não fazer nada.
Não existe ainda entre nós uma consciência da importância política do tema da água, que é central nas questões de sustentabilidade com que o mundo se confronta. E que isto é já, nos dias de hoje, um problema já com um potencial de conflito muito sério em certas regiões do mundo.
