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sábado, março 14, 2026

"Manda quem pode?"


Fazer uma comparação entre a invasão russa da Ucrânia e as pretensões norte-americanas sobre a Gronelândia pode revelar-se, à primeira vista, um exercício algo forçado. Nada parece aproximar a violência militar desencadeada por Moscovo da proposta, quase grotesca, de aquisição territorial aventada por Washington. E, no entanto, ambas as situações revelam um traço comum mais profundo: a crescente disponibilidade das grandes potências para assumirem, quase sem disfarce, a lógica das zonas de influência como aparente princípio orientador de uma nova ordem internacional que pretendem impor. 

Trata-se de uma lógica vetusta, responsável por alguns dos capítulos mais trágicos da história europeia e mundial, que regressa agora num contexto em que o poder destrutivo dos meios militares tornará qualquer eventual erro estratégico incomparavelmente mais letal, quiçá mesmo existencial. 

Durante a Guerra Fria, a Carta das Nações Unidas parecia consagrar, pelo menos no plano formal, um princípio de igualdade soberana dos Estados, num espaço de cooperação multilateral que se anunciava cada vez mais denso. Esse ideal coexistiu sempre, de forma tensa, com a prática concreta das duas superpotências. Estados Unidos e União Soviética disputaram incessantemente esferas de influência política, económica e militar, recorrendo a alianças assimétricas, conflitos por procuração e variados mecanismos de pressão indireta. O multilateralismo que ambos proclamavam era frequentemente “à la carte”: mobilizado quando coincidia com os seus interesses estratégicos, relativizado ou ignorado quando os contrariava. Ainda assim, a ONU preservava um papel simbólico central, como palco institucional do diálogo global, acolhendo a voz de dezenas de novos Estados resultantes dos processos de descolonização. 

Com o fim da Guerra Fria, instalou-se a ilusão de que a distensão Leste-Oeste teria sido mutuamente benéfica e que a lógica das zonas de influência se tornara obsoleta. Tal leitura revelou-se enganadora. O ocidente vitorioso não abdicou de expandir a sua influência política e institucional no Centro e Leste da Europa, à luz de um proselitismo democrático. Os sucessivos alargamentos da NATO e da União Europeia avançaram sobre espaços que durante décadas tinham integrado a órbita soviética, num tempo em que Moscovo parecia demasiado debilitado para conseguir reagir. 

Gradualmente, porém, o poder russo recuperou assertividade e fez a leitura de que essa aproximação às suas fronteiras não fora mero produto do acaso histórico, mas resultado de uma estratégia deliberada. A deriva autoritária interna do regime russo encontrou no ressentimento acumulado pela derrota na Guerra Fria um terreno fértil. A humilhação simbólica e material associada à implosão da URSS foi instrumentalizada na sociedade russa como uma narrativa mobilizadora. Dela emergiu uma doutrina explícita de reafirmação da legitimidade de uma zona de influência própria. A invasão da Ucrânia consagrou isso de forma clara. A mensagem subjacente era de que Moscovo considerava inaceitável que um Estado inscrito na sua esfera histórica pudesse escolher soberanamente um outro destino geopolítico. A humilhação pela "perda" dos países bálticos ficara bem marcada. 

Do outro lado, os Estados Unidos, que durante décadas se apresentaram como principais garantes de uma ordem internacional sob regras comummente aceites, permitem-se hoje gestos que revelam uma conceção de que a soberania dos Estados situados no seu espaço de auto-definida influência tem como limites os interesses americanos. A ideia de adquirir a Gronelândia, por mais irrealista que pareça, funciona como afirmação simbólica de que Washington continua a encarar o sistema internacional como um tabuleiro onde as grandes potências podem reivindicar espaços estratégicos quase sem constrangimento normativo. 

A vítima colateral deste regresso às zonas de influência poderá vir a ser a própria ONU. Durante a Guerra Fria, apesar dos bloqueios frequentes no Conselho de Segurança, as Nações Unidas preservavam uma função simultaneamente simbólica e prática: eram o lugar onde o mundo, mesmo dividido, se reconhecia. Hoje, para as grandes potências, esse modelo parece progressivamente desajustado aos seus interesses. Dispensada a retórica da igualdade formal dos Estados, americanos e russos exibem, sem artifícios, o primado dos seus interesses nacionais. 

A China observa esta dinâmica com uma prudência calculada, mas fá-lo alimentando a ambição de também vir a consolidar a sua própria esfera regional, preocupando vários países da zona do Indo-Pacífico, que durante décadas confiaram na proteção americana, ainda que sob a equívoca fórmula da “ambiguidade estratégica”. 

Resta a Europa. Portadora de uma vocação normativa fundada na primazia das regras, das instituições e do multilateralismo, vê-se confrontada com uma realidade que claramente a ultrapassa. A ordem internacional que lhe foi favorável fragmenta-se. As interrogações multiplicam-se, enquanto as respostas escasseiam. Deste desfasamento nasce um sentimento difuso, mas persistente, de desassossego e de insegurança que marca, de forma indelével, o nosso continente e a nossa geração histórica.

(Publicado na revista "Prémio", março de 2026)

"Manda quem pode?"

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