terça-feira, 30 de novembro de 2010

Soares e a Europa

Ontem, o Centro Cultural Gulbenkian, em Paris, encheu para ouvir Mário Soares falar da Europa, das suas desilusões com o estado do projeto integrador e, muito em especial, da história de Portugal nessa mesma aventura, da qual foi um dos principais atores.

Numa introdução, o presidente da Gulbenkian, Rui Vilar, um europeísta, antecipou a leitura crítica do conferencista. Depois, António Coimbra Martins - académico, antigo embaixador em Paris e ministro da Cultura num governo de Soares - traçou um percurso muito interessante do seu amigo. Lembrou, a certo passo, que, quando Mário Soares foi deportado pela ditadura de Salazar para S. Tomé, em 1968, Jean-Jacques Servan-Schreiber escreveu no "L'Express" que "deportar Soares para S. Tomé é como se a França deportasse Miterrrand para as ilhas Kerguelem".

Na conferência de cerca de uma hora, Mário Soares foi igual a si próprio, na sua fé europeísta, na sua denúncia dos desregulações que desigualizam o mundo, nos seus elogios a Obama, por contraste com a cegueira de tantos outros. Traçou um retrato do Portugal do século XX, com vivacidade, testemunhos pessoais e muita graça.

No período das perguntas, coloquei-lhe uma questão "simples": "amanhã, dia 1 de Dezembro, fará precisamente um ano que entrou em vigor o Tratado de Lisboa. Devemos comemorar?" Màrio Soares respondeu-me que esse Tratado, que tem apenas um ano, é já hoje, em função da realidade que lhe sucedeu, um tratado "velho".

Leslie Nielsen (1926-2010)

Muitas vezes o humor era um tanto primário, os "gags" eram algo forçados, o conjunto de situações era frequentemente previsível. Houve um pouco de tudo, de bom e de mau, na imensidão de comédias "assim-assim" que protagonizou. Porém, num mundo cinzento como o que temos, será que não devemos uma singela homenagem a quem, durante tantos anos, nos fez dar umas saudáveis gargalhadas e nos alegrou por muitas horas?

Neste tempo propício a dívidas, quero declarar que tenho uma dívida de gratidão para com Leslie Nielsen. Deixo-a aqui expressa, na hora em que morreu. De riso, espero eu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coscuvilhices

A prática da diplomacia tem como um dos seus pilares a garantia da confidencialidade naquilo que os profissionais dizem aos seus governos, e vice-versa. Na guerra como na paz, os serviços de “cifra” procuram assegurar a possibilidade de transmitir, com total franqueza e discrição, a apreciação de perfis de personalidades, a avaliação crítica de factos ou o desenho de cenários, tidos por relevantes para os interesses dos respetivos Estados. Não é por acaso que este tipo de comunicações só costuma ficar oficialmente disponível para escrutínio público algumas décadas depois.

A questão suscitada pela divulgação de centenas de milhares de documentos pela “WikiLeaks” configura uma quebra grave nesta relação de confiança. Ela coloca políticos e profissionais em elevado risco, nalguns casos com potenciais consequências funestas, podendo também induzir um ambiente de gratuita tensão entre Estados.

Com exceções muito raras, a diplomacia portuguesa não sofreu, até hoje, problemas desta natureza. Isso não significa que o que agora ocorreu não possa, subliminarmente, vir a retrair-nos no modo como, de futuro, venhamos a atuar.

O “voyeurisme” pateta de alguns setores sente-se deliciado com o acesso àquilo que deveria permanecer num registo discreto. É um belo teste de caráter, idêntico ao que qualifica quem revela conversas ouvidas nos locais públicos ou promove a divulgação de escutas telefónicas de natureza privada. Que se há-de fazer? São os novos “bufos”, as modernas comadres da eterna coscuvilhice.

(Texto de um artigo que hoje publico no "Diário Económico")

Blake & Mortimer

Este é um post "geracional". Saiu hoje o novo e esperado álbum da série "Blake et Mortimer", inspirado nas obras de Edgar P. Jacobs (1904-1987), agora desenhado por Jean Van Hamme e Antoine Aubin. Trata-se do 2º volume do "La malediction des trente deniers".

Para quem tem a coleção completa da obra de Jacobs e dos desenhadores que foram seus seguidores - como é o caso de quem escreve este post - é um exercício interessante apreciar a evolução do estilo e das personagens, sejam elas centrais ou conjunturais. Pergunto-me, contudo, o que poderá representar para as novas gerações um estilo de desenho e de escrita como o da "escola belga", que está muito ligado à segunda metade do século XX, se bem que com temáticas próximas dos dias de hoje.

Três notas, entre muitas outras, se podem fazer. Uma maior presença de figuras femininas é um facto evidente nos albuns mais contemporâneos. Por outro lado, a manutenção do cachimbo nos desenhos de Mortimer e de outras figuras demonstra uma saudável resistência ao "politicamente correto". Finalmente, alguém consegue explicar por que razão o "mau-da-fita", Olrik, se mantém, desde há anos, com a patente de "Coronel"? Não há promoções por lá?

domingo, 28 de novembro de 2010

Orwell & Kafka, SA

No mês de agosto, os confrades blogueiros do Delito de Opinião convidaram-me para publicar naquela prestigiosa coluna informática um texto. Nele contei uma história verídica, passada com um amigo estrangeiro, que atravessou algumas inesperadas agruras. Esse amigo veio, este fim-de-semana, visitar-me a Paris. Achei que era o momento para reproduzir aqui essa historieta. Ela aqui fica:

"Esta é uma história verdadeira.

Um amigo meu, estrangeiro, funcionário superior de uma organização internacional, notou que o seu passaporte era regularmente retido, nos controlos de fronteira, um pouco mais de tempo do que seria razoável. De início, achou estranho mas não se importou excessivamente. Porém, quando essa espera afetava as filas onde se colocava, levando a movimentos de impaciência dos restantes utentes, começou a ficar irritado e, simultaneamente, preocupado. Das vezes em que inquiriu dos controladores dos passaportes sobre a razão da demora, recebeu respostas vagas e nada esclarecedoras.

Um dia, à chegada aos EUA com a mulher, a situação tornou-se caricata: foi mandado esperar isolado numa sala, foi sujeito a um interrogatório estranho e só foi libertado ao final de mais de uma hora de conversa.

Viajar para o estrangeiro estava, assim, a tornar-se um pequeno pesadelo. O meu amigo lembrou-se então que tinha um conhecimento nos serviços de “intelligence” do seu país. Procurou-o e explicou o seu embaraço. O homem ficou de estudar o assunto. Chamou-o, semanas depois.

E foi então que esse meu amigo ficou a saber o que se passava, ou melhor, recebeu disso algumas ideias. Aparentemente, ele havia estado, por mais de uma vez, no lugar errado no momento errado ou, se tal não acontecera, havia indícios de tal poder ter acontecido. Não podendo ser mais específico, o contacto desse meu amigo deu alguns exemplos: uma foto de multidão, numa manifestação violenta por ocasião de uma reunião do G8, trazia uma cara que podia ser a sua; ele havia pernoitado num determinado hotel, na véspera de uma bomba ter explodido nessa cidade; por duas vezes, viajara num avião que também levava pessoas sobre as quais recaíam fortes suspeitas de ligações radicais, eventualmente de apoio ao terrorismo; etc, etc. Tratava-se de cerca de uma dezena de “infelizes coincidências”.

O meu amigo estava siderado! Todas essas circunstâncias eram facilmente “desconstruíveis”, desde a primeira, em que provaria, com facilidade, que estava noutro lugar, até às restantes, em que as suas deslocações haviam sido feitas por decisões e motivos oficiais a que era alheio. Ao mesmo tempo, sentiu-se aliviado. Tudo era esclarecível. Com quem poderia falar para explicar cada um dos factos, com vista a anular as suspeitas?

O seu conhecido das “secretas” desiludiu-o: não podia falar com ninguém, não havia interlocutor algum com quem ele pudesse discutir o circunstancialismo que lhe afetava a imagem, nem sequer estava autorizado a utilizar publicamente a informação agora recebida. Os dados a seu respeito provinham de “serviços de informação” variados, estavam já cruzados numa rede comum, acessível a muita gente, embora grande parte dos utilizadores apenas tivesse, como nota relevante, a noção de que havia “algo de errado” em torno da pessoa em causa. Não era suspeito de nada, não era acusado de nada, pelo que não havia nada a fazer. Ou melhor: apenas havia que esperar que novos dados “comprometedores” não aparecessem, que pudessem “agravar” a sua situação.

Nos últimos meses, não tenho falado com este meu amigo. Só espero que não tenha ido passar férias à Rússia, por ocasião dos incêndios…" 

Porto

As Éditions Autrement há muito que nos habituaram a olhares diferentes sobre realidades comuns, que julgamos conhecer bem, mas sobre as quais, com surpresa, acabamos por vir a aprender coisas novas e perspetivas inesperadas.

Há semanas, tinham-me falado deste "Porto, poètes et bâtisseurs", um trabalho muito cuidado de Édouard Pons, com belas fotografias de Antonin Pons Braley. O autor é um antigo diretor da Agence France-Presse e já havia sido responsável pela obra "Lisbonne, terre de rencontres".

Este livro sobre o Porto, integrado numa coleção sobre cidades do mundo, é uma viagem feita através da voz de várias e, algumas inesperadas, figuras que nos ajudam - mesmo a nós, portugueses - a entender melhor o que há de particular numa cidade que, talvez melhor que qualquer outra em Portugal, destila um orgulho na sua intimidade, ao mesmo tempo aristocrática e regional, com tudo o que isso tem, simultaneamente, de notável e limitativo.

O Porto contemporâneo é uma realidade complexa, que - desculpem lá! - combina frequentemente algumas frustrações de afirmação nacional com dimensões de uma riqueza única no espaço português. Às vezes, o Porto aparece provinciano, no simplismo de um discurso através do qual auto-limita as suas fronteiras. Outras vezes, se se for mais ao seu fundo, a "capital do norte" dá-nos lições de modernidade e de inesperado cosmopolitismo. Talvez por isso, há imensa gente em Portugal que acha o Porto uma cidade e uma sociedade "estranha". De certo modo, não deixam de ter razão, mas eu entendo que isso é um involuntário elogio.

É este retrato múltiplo que este livro surpreendente nos traz. Por ele passam testemunhos de renomadas figuras da cultura, misturadas com pessoas simples, mas representativas, do dia-a-dia portuese. Não está lá tudo, mas está lá muito e, melhor!, está o suficiente para o que é importante: seduzir um leitor francês a interessar-se por essa realidade metropolitana ímpar que, em Portugal, é o Porto. Pena é que muitos portugueses teimem em não conhecer o Porto.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

25 de novembro

Para alguns, será talvez um pouco estranho estar a escrever sobre uma data, dois dias depois da passagem da mesma. Mas, a pedido "de várias famílias" (como se dizia, noutro tempo, noutra imprensa), aqui fica a minha memória breve do 25 de novembro de 1975, já 35 anos depois dessa data.

O chamado "25 de novembro" configura uma espécie de resultante  final de toda a grande confrontação político-militar que se viveu ao longo do ano de 1975, em especial entre Março e Novembro, mas que tinha tido já afloramentos conflituais na questão da lei da "unicidade sindical" e nas discussões em torno do plano económico coordenado por Melo Antunes.

No "11 de março" desse ano, um setor ultra-conservador português, liderado pelo general António de Spínola, havia caído na "ratoeira" de tentar um golpe de Estado, sem preparação, o qual, de certo modo, havia sido antecipado pela chamada "esquerda militar", que então dominava as Forças Armadas. Recordo-me bem da frase proferida pelo almirante Rosa Coutinho, durante a assembleia do Movimento das Forças Armadas, nessa célebre noite: "Sabíamos que estavam a preparar qualquer coisa, assustaram-se e nós ficámos à espera que saltassem. E eles saltaram". Na sequência desse frustrado movimento, a Revolução portuguesa acelerou-se, foram decretadas nacionalizações e foi criado o Conselho da Revolução.

Já no "25 de novembro", seria o desespero de certos setores militares de extrema-esquerda, aliados à ambição irrealista de algumas estruturas civis, que levou a que viessem a cometer um erro simétrico: tentar um golpe militar, sem para tal terem criado um mínimo de condições para o seu sucesso. Neste caso, acabou mesmo por ser a esquerda militar moderada, pela voz de Melo Antunes, que impediu que alguns setores conservadores mais radicais, e outros conjunturalmente radicalizados, viessem a "explorar o sucesso" e, em especial, a promover a ilegalização do Partido Comunista - objetivo que chegou a ser encarado - ao afirmar que "a participação do PCP na construção do socialismo é indispensável".

Entre o "11 de março" e o "25 de novembro", muita água correu sob as pontes políticas da vida portuguesa. Após a forte viragem à esquerda provocada pela derrota do golpe conservador de Março, tiveram lugar eleições para a Assembleia Constituinte, o resultado das quais mostrou, à evidência, que a opinião votante do país estava, esmagadoramente, num registo bem mais moderado do que aquele que prevalecia na respetiva gestão política. A legitimidade revolucionária era, pela primeira vez, posta em causa pela legitimidade eleitoral e esse confronto não deixaria de ter consequências. Fruto da agudização das tensões, o Partido Socialista e o então Partido Popular Democrático (hoje PSD) viriam a abandonar, sucessivamente, o IV governo provisório.

O primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves, cujo isolamento dentro das Forças Armadas se tornara crescente - e que era considerado como muito dependente do Partido Comunista Português (PCP) - decidiu então formar um novo governo (o V governo provisório) com uma representação política muito limitada, formado pelo PCP e por personalidades, civis e militares, os quais, na prática, eram seus "compagnons de route". Essa fórmula fracassou e, por essa altura, um conjunto moderado de militares - "o grupo dos nove" - afirmou-se como uma crescente alternativa à chamada "esquerda militar" (ligada ao PCP).

Vasco Gonçalves foi afastado e um conjunto diverso de circunstâncias (algumas com caráter bem caricato) acabou por colocar à frente de um novo governo pluripartidário o almirante Pinheiro de Azevedo. Os bloqueios político-sociais prolongaram-se por alguns meses, até que a já referida insensata aventura de alguns militares de extrema-esquerda, com a cumplicidade mais ou menos explícita de setores político-partidários, acabou por provocar uma confrontação, para a qual os setores moderados e conservadores das Forças Armada se haviam, entretanto, preparado. O contra-golpe vitorioso deu-lhes o poder militar e a solução pluripartidária de governo pôde prosseguir até às eleições legislativas de abril do ano seguinte.

O "25 de novembro" terá sido a derrota do "25 de abril", como alguns teimam em dizer? O "25 de novembro" abriu caminho a um desequilíbrio nas Forças Armadas que acabou por vitimar, política e militarmente, os setores moderados que foram responsáveis pelo seu êxito? Ou o "25 de Novembro" representou, no fundo, o "25 de Abril" possível na Europa de então?

Neste retrato, alguns podem dizer que falta a questão colonial e os jogos táticos que, no parecer de muitos, estiveram por detrás de certos "timings" desse fantástico "verão quente". Essa seria uma longa história, na qual seria talvez interessante fazer intervir também os interesses de Moscovo, de Washington e de certas capitais europeias. Mas, mais importante do que revisitar todas as teorias da conspiração - que existiu, vinda de vários setores -, talvez devamos convir em que a história do 25 de novembro acabou bastante bem. Essa é hoje, pelo menos, a minha opinião.

Geografias

Ontem, num jornal alemão, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin (que aqui em França se escreve sempre Putine), diz preconizar uma "comunidade harmonizada de economias, de Lisboa a Vladivostoque". A ideia é teoricamente apelativa e, se vista na perspetiva de uma zona de comércio livre, pode haver algumas condições para ser explorada. Isso implicaria, no entanto, a prévia adesão da Rússia à Organização Mundial de Comércio (OMC) e um conjunto de outros entendimentos que tivessem em conta as relações especiais que Moscovo tem com alguns Estados do seu "near abroad". Verdade seja que, em matéria de entendimentos entre a Rússia e o seu ocidente, já estivemos muito mais longe.

A expressão "de Lisboa a Vladivostoque" não deixa de lembrar, numa perspetiva mais moderada, a consagrada fórmula geopolítica utilizada pelo general de Gaulle, ao falar numa "Europa do Atlântico aos Urais". E, por graça, vem-me logo à memória a snobeira de um amigo, residente na linha do Estoril, que entendia que o conceito gaullista podia ser aperfeiçoado e se deveria falar na "Europa de Cascais aos Urais"...

A cada um a sua geografia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Memória

Bruno Le Maire é uma figura em ascensão na vida política francesa. Com 41 anos, é ministro da Agricultura, depois de ter sido secretário de Estado dos Assuntos Europeus e trabalhado de muito perto com Dominique de Villepin.

Dando curso a uma tradição comum a muitos homens de Estado franceses, Le Maire escreve. E escreve muito bem. Publicou já três livros, dois deles ligados a memórias do trabalho político ("Le Ministre" e "Des Hommes d'Etat") e, mais recentemente, um outro, de diferente natureza, intitulado "Sans mémoire, le présent se vide". Li os dois primeiros (citei aqui um) e estou a ler o terceiro.

O aspeto curioso deste livro é que, ao longo de todo o texto, surgem frequentes referências à obra de José Cardoso Pires "De Profundis, Valsa Lenta". O tema da memória, como sustentáculo indispensável para a vida, é tratado por Le Maire de uma forma muito interessante, indo buscar à experiência trágica revelada na admirável obra de Cardoso Pires a inspiração para algumas ideias que desenvolve.

Em Portugal, com muito honrosas e raras exceções, os nossos políticos escrevem muito pouco. E é pena.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Hoje

Hoje, vão-me permitir que este seja o meu único post.

Rede diplomática

Paulo Gorjão é diretor do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS) e, desde há anos, mantém grande atenção sobre a política externa portuguesa, para além de ter estudos sobre outros aspetos das relações internacionais.

Hoje, no jornal "i", Paulo Gorjão faz uma reflexão sobre a rede diplomática do nosso país e as eventuais mudanças a que pode ser sujeita. É um texto que, a meu ver, merece ser ponderado, sem prejuízo de, num ou noutro ponto, eu discordar das soluções que adianta. Mas a seriedade deste exercício, levado a cabo por quem não é da profissão, merece ser sublinhada.

Leiam aqui.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Cartões

Não lhes digo o nome do país de origem daquele divertido diplomata. Ele olhava para a profissão com uma visão lúdica, atitude pela qual pagara já alguma coisa, em termos de promoções e de postos - porque a justiça divina às vezes funciona. Era sempre um momento garantido de boa disposição encontrá-lo em cocktails ou jantares, ouvir as suas anedotas ou historietas de férias fantásticas, que se gabava de conseguir prolongar bem para além dos dias a que tinha direito. Tudo menos falar de "serviço", de política local (salvo os mexericos, claro!) ou internacional, de coisas mais sérias: nunca estava a par de nada, achava-nos, uns "chatos workaholics", uma versão diplomática dos "stakhanovistas". Quando provocado, repetia a frase clássica de Talleyrand - "surtout pas trop de zèle" -, expressão que os diplomatas calões (e ignorantes do significado real da mesma) às vezes utilizam, para bem merecerem o seu lema, corruptela do do infante dom Henrique: "talent de rien faire".

Como em qualquer outra profissão, também há, em todas as carreiras diplomáticas do mundo, uma minoria que ainda é assim: pouco dispostos ao trabalho, ligando o mínimo àquilo que lhes compete fazer, sem iniciativas, fugindo aos empresários, puxando "de arma" a quem lhes fala de cultura, olhando com sobranceria os seus nacionais residentes no país onde estão acreditados. São os que chegam tarde, que partem cedo, que fazem longas horas de almoço, que desaparecem os fins-de-semana, que desligam os telefones fora do serviço mas passam o tempo agarrados a eles lá dentro, que inventam pretextos para nada fazer depois do "from-nine-to-five" (ou melhor, "from ten-thirty..."),  que ficam fulos quando têm de ir a um aeroporto receber alguém a horas tardias ou matutinas. Alguns não fazem qualquer "representação" ou confundem-na com a sua própria vida social, permanecem vidrados no culto exacerbado de um estilo e, invariavelmente, identificam a carreira com os seus sinais exteriores. Escrevem pouco e ainda lêem menos. Quando se lhes pergunta alguma coisa, "vão ver", nunca sabem nada à primeira.

Muitas vezes - diga-se! - acabam por ser gente ótima para o convívio e para a amizade. Era o caso desse nosso amigo, cidadão de um país simpático, embora, pelos vistos, uma pátria pouco exigente com os seus servidores públicos.

Um dia, à saída de uma receção, vi-o numa conversa, às gargalhadas, com outro colega, também estrangeiro. Perguntei a razão da graça: era uma história de cartões de visita. O nosso homem explicou-me então, pedindo-me segredo, a brincadeira a que tradicionalmente se dedicava nessas ocasiões.

No bolso direito do casaco, trazia os seus próprios cartões de visita. Quando trocava cartões com alguém, ia colocando os que recebia no bolso esquerdo. Durante uma receção, se alguém lhe entregava o um cartão, esse meu colega optava: se era uma pessoa que tinha eventual interesse em rever, tirava do bolso direito um seu cartão pessoal e entregava-lho. Porém, se era alguém desinteressante, que não pretendia voltar a ver, ia ao bolso esquerdo e dava-lhe... um dos cartões que antes tinha recebido de outra pessoa! Se acaso o seu interlocutor notava o erro, pedia desculpa e dizia ter sido confusão.

Continua a haver este estilo de diplomatas. São já muito poucos, até porque o grau de exigência profissional não permite facilmente o "bluff". Mas, por vezes, ainda os encontro por aí... 

Literatura de guerra

Toda a guerra suscita compreensíveis emoções. As guerras colonais que Portugal disputou em Angola (a partir de 1961), em Moçambique e na Guiné (estas últimas depois de 1964) representaram um período muito importante da história portuguesa, estando na génese do próprio movimento de 25 de abril de 1974. As guerras mudaram o país e, de uma forma muito nítida, mudaram também os portugueses que nelas intervieram. Mortos, feridos, deficientes e traumas de guerra marcaram uma geração de sacrifício, a qual inclui quantos tiveram de procurar no estrangeiro acolhimento para fugir a participar num conflito que nada lhes dizia ou à penúria de um país que se arruinava nessa aventura insensata.

A Revolução de abril como que procurou exorcizar essa tragédia, pela indução no país de um movimento coletivo de esperança num futuro melhor. Mas os sentimentos dos "retornados" e dos soldados que sofreram esse período ainda estão presentes em muitos setores da sociedade portuguesa, por muito que mais de três décadas nos distanciem do momento em que ele terminou. A guerra só acaba, dentro das pessoas, muito depois do cessar-fogo.

Não há muita literatura, em língua portuguesa, sobre as guerras coloniais portuguesas da segunda metade do século XX (outras houve, no passado). Ontem, a Fundação Gulbenkian, em articulação com universidades francesas onde a cultura portuguesa se investiga e estuda, trouxe a Paris João de Melo e Carlos Vale Ferraz, dois escritores portugueses que colocaram em vários romances a sua vivência pessoal como militares nesse período - "atores e autores da História". Julgo que foi importante ouvi-los, embora seja mais importante lê-los, se possível em contraponto com os testemunhos de escritores oriundos das guerrilhas independentistas das antigas colónias, aqueles que nos dão a visão "do outro lado". Como é "dos livros", só nos percebemos completamente quando nos reconhecemos no olhar dos outros sobre nós.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NATO

Não é fácil proceder à transformação de uma organização de defesa e segurança coletiva, com membros mais recentes que para ela carreiam outra cultura estratégica, no quadro de um cenário mundial em rápida mutação de ameaças. Particularmente num tempo em que se procura restaurar a confiança num parceiro exterior originário de uma entidade internacional que, não há muito, era a preocupação maior da própria organização.

Em Lisboa, no passado fim de semana, a NATO deu uma prova de uma maturidade que, há alguns anos, muitos duvidassem que ainda pudesse vir a ter, balcanizada que estava por tensões que a paralisavam e aparentando uma mera reatividade. Com esta cimeira, com a aprovação de um novo e mais concreto "conceito estratégico", a NATO provou que conseguiu ultrapassar o período de alguma indecisão de objetivos que marcou o percurso percorrido desde a "guerra fria".

Tudo isto foi possível - diga-se -, em grande parte, graças aos Estados Unidos e à liderança do presidente Obama, que teve a coragem de pôr termo a fórmulas datadas da administração Bush e conseguiram desenhar com Moscovo um modelo onde a generalidade dos Estados da Aliança se podem sentir confortáveis. Da Rússia espera-se, agora, uma atitude aberta de colaboração, geradora de confiança.

As núvens não desapareceram por completo do horizonte da NATO, até porque a incógnita afegã se prolonga e os meios para suportar a estrutura atual da organização, ainda que redefinida, são escassos para as finalidades e com aspetos importantes ainda por discutir. Mas o que parece ter ficado claro é que, não obstante as reticências de alguns e as suspeições residuais de outros, começa a definir-se um novo terreno de segurança cooperativa que federa as nossas comuns debilidades perante o quadro de ameaças potenciais. É irónico dizê-lo, mas, às vezes, somos levados a concluir que o temor é uma ajuda à congregação de vontades.

Portugal esteve, uma vez mais, à altura do desafio que a si mesmo se impôs, de realizar uma das mais importantes cimeiras da história da organização e, nesse contexto, conseguir preservar o essencial dos interesses que nela tem afirmado, alguns desde a sua fundação. A diplomacia portuguesa provou, uma vez mais, a sua capacidade de levar a bom porto um projeto bem complexo e exigente. A quem não consegue ver isto não vale a pena explicar nada.

domingo, 21 de novembro de 2010

Aeroporto

- O embaixador vem? Ó diabo! Então temos carro, telhas ou contínuo!

Não percebi logo a observação irritada do governante português, que eu acompanhava, em resposta à indicação, dada pelo seu chefe de gabinete, de que o nosso embaixador naquela capital europeia, onde mudaríamos de avião, iria aparecer na "sala vip", durante a escala de cerca de duas horas que aí faríamos, vindos sei lá de onde, a caminho de Lisboa. O nosso avião estava prestes a aterrar, pelo que o governante das Necessidades, ao ver a perplexidade que a sua observação provocara em mim, explicou:

- É que os seus colegas, sempre que me apanham de passagem por algum país, fazem de mim uma espécie de "muro das lamentações", trazendo-me os problemas que não conseguem resolver diretamente com os serviços, lá em Lisboa. Como se eu pudesse andar a despachar pelo caminho! É o carro que é velho, é o contínuo que falta, é o orçamento para as obras no telhado! Começo a estar farto!

Nessa como em outras ocasiões, eu notara já que os governantes perdem a paciência, com frequência, quando são "apanhados" para questões de "intendência", no decurso de uma viagem. Muitas vezes cansados, sem nenhumas respostas à mão, reagem mal a terem de tomar conta do pedido ou chamar os membros dos gabinetes que os acompanham para apontar a questão. Muitos anos mais tarde, eu fui vítima desse assédio. Talvez por isso, aprendi: hoje, como embaixador, gabo-me de nunca ter incorrido nesse pecadilho, precisamente porque sei bem "do que a casa gasta"...

Assim, nessa madrugada, à saída do avião, a cara com que o nosso governante olhou para o pobre do meu colega, que se havia tirado dos seus cuidados e dos seus lençóis àquela indigesta hora matutina, estava longe de ser a mais simpática. Seguimos para a "sala vip". Um boa meia-hora depois, vejo o embaixador debruçado sobre o ouvido do governante, que continuava com um ar de poucos amigos.

Regressados ao avião, não me contive:

- Desculpe a minha curiosidade, se calhar não devia estar a perguntar isto. Mas, afinal, o que queria este embaixador? Vi-os numa longa conversa...

O governante sorriu:

- Queria apenas outro posto. E nem pediu "muito". Sempre é melhor que querer reforço do orçamento, do pessoal ou um carro novo. É que quem manda em tudo isso são as Finanças.

Sábias palavras!

sábado, 20 de novembro de 2010

Trópicos

Escândalo! Leitor/a atento/a do "Diário da República", um/a  anónima profissional de um jornal "de referência" indignava-se ontem com o facto de Portugal ter acabado de designar um "experiente embaixador de topo" para "a representação diplomática portuguesa em Samoa", um pequeno país do Pacífico. 

O/a jornalista, qual escrutinador zeloso do Tribunal de Contas, mostra a sua indignação e diz que o facto "está a ser visto" (por quem?) como "um degredo ou um ato de despesismo puro e duro", "em tempos de contenção e numa altura em que se fala de fecho de embaixadas e consulados".

Será por falta de tempo ou será por outras razões que o/a jornalista não cuidou em informar-se, junto do MNE ou da Presidência da República, sobre a razão dessa "bizarra" nomeação? Se o tivesse feito, saberia que Portugal não tem, naturalmente, nenhuma "representação diplomática" na Samoa e que o credenciado embaixador é o nosso representante diplomático na Austrália, onde reside. A ele cabe, por inerência de funções, ser acreditado junto de todos os restantes Estados independentes existentes no Pacífico, nos quais, como é óbvio, não existe qualquer representação portuguesa, mas com que o nosso país mantém relações diplomáticas. Relações essas - diga-se - que nos garantiram um significativo voto dos Estados do Pacífico na nossa recente eleição para o Conselho de Segurança na ONU.

Eu e os leitores deste blogue vamos esperar sentados para ver o/a jornalista, com destaque idêntico ao dado a esta escandalosa e "despesista" nomeação, fazer o seu mea culpa e pedir desculpa pelo erro em que induziu os seus leitores.

Lusofonia

Acabo de ter conhecimento do blogue Estudos Lusófonos, criado por professores da Sorbonne.

Bela iniciativa, à qual desejo muita sorte.

Sono

Um das boas cabeças diplomáticas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que bem nos tem representado em Timor-Leste, tombou ligeiramente de sono durante uma cerimónia pública. A foto do "acontecimento", bem como a graça do presidente Ramos Horta ter aproveitado para registar também o instante na sua máquina, andam a correr o nosso mundo, da blogosfera ao jornalismo.

Esta é talvez a ocasião de dizer que vale mais o embaixador Barreira de Sousa a dormir do que muitas pomposas e ridículas figuras, que agora o podem criticar, bem acordadas.

Há anos, uma grande personalidade política, cujo nome agora não me ocorre, e que estava ao meu lado num painel, pediu-me que a despertasse, se acaso viesse a cochilar durante a intervenção do orador seguinte. Foi "tiro e queda": segundos depois, tive mesmo de desligar discretamente o microfone que tinha em frente, porque já ressonava baixinho...

25 de abril no Monaco

Divertiu-me imenso, ontem, à chegada formal dos embaixadores ao palácio do Príncipe monegasco, nas cerimónias nacionais anuais, sermos recebidos por uma banda musical que tocava o "A life on the ocean wave" - a marcha militar britânica* que, entre nós, ficou ligada ao 25 de abril.

Os meus colegas estrangeiros não percebiam a minha boa disposição!


*Um atento leitor esclareceu-me que a marcha não é americana, mas sim britânica, o que explica as horas que eu perdi em Nova Iorque a tentar descobri-la nos hinos americanos... E o nome exato é como agora figura. Estamos sempre a aprender e o seu é devido a seu dono.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Caixa

Faz hoje 39 anos, dia por dia, que entrei para a função pública. Para a Caixa Geral de Depósitos, que tinha então a sua sede no majestoso edifício do Calhariz, onde eu passei a trabalhar no "serviço de títulos".

As regras eram à antiga. Entrava-se às 9.30. Às 9.35, o senhor Marques, chefe da secção, recolhia o livro de ponto. Para o assinar depois, era necessário justificar o atraso e penitenciar-se pelo mesmo. A hora de saída, para almoço e à tarde, era, também, sagrada. Cinco minutos antes do encerramento do expediente, o Serra, na secretária ao meu lado, sacava invariavelmente de um pano de feltro para limpar os sapatos que, logo depois, apontavam para a porta, para onde disparava quando o ponteiro do relógio tremia nas 17.30.  Ah! e trabalhava-se nas manhãs de sábado!

Ao almoço, espalhavamo-nos pelas tascas da zona, em grupos variáveis. Se o sol aparecia, escostavamo-nos, antes do regresso ao trabalho, pelos passeios em frente, apreciando o "pequename" que passava. Eu aprendia a vida com quem a vivia com dificuldades bem maiores do que as do episódico colega que eu era, futuro licenciado, olhado como figura passageira pelos colegas, entre os quais fiz - diga-se - sólidos amigos.

O meu curso universitário prosseguia entretanto, como "estudante voluntário". No primeiro ano, para fazer as "frequências", tive de pedir autorização excecional para as escassas ausências. Mais tarde, foi necessário utilizar os dias de férias, para poder  estar presente a esses exames. Dispensa para aulas ou exames era, então, uma miragem.

No concurso público de entrada, algum domínio da escrita terá compensado falhas na área da contabilidade. Antes de ser admitido, li e assinei, sob o olhar atento de um antigo ministro de Salazar, uma declaração onde atestava o meu "ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas". No meu bolso, recordo-me bem, levava um livro de Engels, das Éditions Sociales. 

O trabalho era sereno, burocrático, sem surpresas. Nem muito exigente, nem deixando tempo para "calaceirices". Essas ficavam para colegas antigos, "primeiros oficiais", com mais "ronha", alguns eternamente parados nas suas secretárias ou saltitando em conversas, sempre sob o olhar crítico do senhor Marques, que prescutava as várias áreas do imenso "open space" por onde nos distribuíamos. 

Os contínuos, o Rui e o Abrantes, forneciam-nos, regularmente, uma caneta Bic. Quando a respetiva carga acabava, trocavamo-la por outra igual, devolvendo a velha, claro está! Nas horas vagas, tentavam impingir-nos relógios Cauny, com preços "de favor".

Às segundas-feiras, dominava o futebol. Não se falava muito de política, salvo com  o Aldeia e com o Murta, amigos com quem essa maior intimidade entretanto se criara. Dois ou três sabiam que a minha eleição não tinha sido "homologada", por duas vezes, como dirigente associativo universitário, e que isso me tinha criado "problemas", sobre os quais nunca elaborei muito Com eles, mantinha alguma cumplicidade, pela comunhão de que "isto" tinha de mudar, mais cedo ou mais tarde. As vigorosas manifestações do sindicato dos bancários, do qual não podíamos ser associados por sermos funcionários públicos, eram comentadas com todo o cuidado, porque as paredes tinham ouvidos. As paredes e alguns "fachos" que nos rondavam, que pressentíamos poderem ser perigosos.

Pela véspera de Natal, o chefe de repartição, o senhor Trancoso, que durante todo o ano assomava uma meia dúzia de vezes à nossa sala, quase sem nos olhar, colocava-se junto à saída para um excecional  aperto de mão anual de favor. E, de 26 até 31 de Dezembro, lá estávamos nós, em horas extraordinárias (não pagas aos novatos), para tentar garantir os "acertos" para as contas do ano ficarem exatas.

Era assim a vida de um bancário público, nos tempos do Estado Novo. Nostalgia? Nenhuma, podem crer. Mas, hoje, lembrei-me.

Manias

Tive um amigo, infelizmente já desaparecido, que colecionava daquelas papeletas de "Não incomodar", para pendurar nas portas dos quartos de hotéis. Numa altura em que a minha vida me fez viajante frequente, implorava-me que lhe arranjasse novos modelos e, de tempos a tempos, queixava-se se eu o não fornecia de novo material. Tendo-lhe feito a vontade algumas vezes, cansei-me, a certa altura, da vergonha que já sentia em surrupiar esses anúncios. Nunca soube o que aconteceu à sua, seguramente apreciável, coleção.

Vem isto a propósito de um outro conhecido, diplomata estrangeiro, que um dia visitei na capital do seu país. Depois de um magnífico jantar que me ofereceu, quis que fôsse beber um copo lá a casa. A certo passo, ao fazer o "tour du propriétaire", mostrando-me o belo apartamento, disse-me, com ar misterioso:

- Quero que vejas aqui um espaço especial.

Era uma espécie de arrecadação. De início, pensei tratar-se de uma zona "proibida", alguma videoteca de vícios escondidos, coisa só "para homens". Mas não. Eram livros. Algumas centenas. Ao fundo da divisão, havia uma parede inteira de estantes, quase completamente preenchida, com volumes quase todos de tons sombrios. Pensei: "vêm por aí os clássicos anónimos do século XIX, Sacher-Masoch, Sade, Miller, Louys, Bataille ou Anais Nin".

- Sabes o que tenho aqui? Bíblias! Todas "sacadas" de hotéis, em várias línguas, nas minhas viagens pelo mundo. Quase 500. Não achas que é uma bela coleção?

Eu achava, claro! Cada um tem a sua mania...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dores

Eu sei que o jogo era amigável, que não contava para nenhuma competição. Mas ganhar desta forma à poderosa equipa de Espanha, campeã do mundo e da Europa, com justiça e brilho, é um estímulo de grande importância para um grupo de jogadores que tinha sido levado à debilidade anímica ao tempo da gestão do senhor Queirós.

Ao ver o andamento do resultado, não consegui, contudo, deixar de lembrar os 9-0 por que perdemos em 1934.

Apenas me interrogo sobre que raio de diferença haverá entre o joelho de Pepe (belo jogo!) e o meu, tratados pela mesma equipa médica com efeitos tão contrastantes...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Maria João

Já a não ouvia, ao vivo, há muito tempo. Ontem, numa manifestação dos centros culturais estrangeiros em Paris, em que o nosso Instituto Camões participa, Maria João e grupo Ogre deram-nos quase duas horas de uma sonoridade por onde perpassou jazz, música brasileira, sons africanos e, acima de tudo, uma das grandes vozes portuguesas. Um espetáculo muito prestigiante para a imagem de Portugal.

Deixo-lhes a canção com que o espetáculo encerrou: a "Torrente".

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Da ironia e do humor

Um bom amigo, pessoa que sofre as coisas da vida com uma seriedade asceta, dizia-me há dias que eu deveria refletir sobre se não haveria uma excessiva "leveza" humorística na escolha de algumas coisas que aqui publico e no estilo com que as trato, porventura pouco consentâneos com a gravidade dos tempos por que passamos. Assim, no parecer desse meu leitor, afetivamente atento, eu deveria cultivar um estilo mais sóbrio - ele não disse, mas eu presumi-o, mais "embaixadorial" - e seco, quiçá devendo optar para, por este intermédio, fazer chegar à Pátria o sumo destilado do que vou aprendendo por este posto, tido por privilegiado, de observação.

Descanse o amigo. Sirvo diariamente à Pátria as reflexões que creio poderem ser úteis a quem a gere. Isso é feito pelas vias adequadas, embora eu próprio me interrogue sempre sobre a real utilidade daquilo que remeto a Lisboa - com desvelo informativo, zelo burocrático e o mínimo possível de erros de ortografia.

Mas este blogue, volto a repeti-lo, não tem grandes pretensões. Ou melhor: tem - isso sim! - nos seus objetivos escondidos (gosto mais do termo britânico "hidden agenda") a finalidade de ajudar quem o escreve e quem o lê a suportar a quase endémica acidez dos espíritos que a digestão da dura realidade quotidiana a todos provoca. A vida já é o que é. Valerá a pena torná-la mais sombria, retratando-a a  tons negro e cinza? Ou não será preferível servir algumas pílulas de ironia e humor qb, por forma a que algumas das nossas rugas passem a ser devidas a sorrisos, em vez de resultarem das preocupações? Estou consciente de que não consigo controlar todos os efeitos secundários do que por aqui sirvo. Mas, como rezam todas as bulas, eles variarão sempre de pessoa para pessoa...

Fado

Um comité intergovernamental da Unesco acaba de qualificar o "repas gastronomique des Français" como "património imaterial da Humanidade". 

Para o ano, o fado vai entrar nesta compita. Estou confiante. Em matéria de imaterialidade patrimonial, o nosso fado dificilmente será batível em 2011. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Castanhas amargas

Aquela portuguesa de Trás-os-Montes que se me dirigiu na noite de sexta-feira, depois de uma conferência que proferi sobre a República, nos arredores de Paris, disse-me algo que me surpreendeu: pediu-me para ser melhor tratada em Portugal.

De início, pensei que se estava a referir aos nossos serviços públicos. Não -  esclareceu -, estava a sublinhar o facto de pessoas como ela, nascidas em Portugal e residentes em França já há algumas décadas, serem acolhidas com alguma displicência, em especial em serviços comerciais, aquando das suas deslocações ao nosso país, pelo facto da língua portuguesa que falam não ser tão correta como aquela que é praticada pelos portugueses de lá. Com tristeza, referiu-me que esse é o sentimento comum a muitos emigrantes que visitam Portugal, onde, logo que identificada a sua origem, ocorre serem recebidos com alguma má-vontade. Esta atitude já terá sido pior no passado, mas continua a persistir em certas vilas e cidades.

Como transmontano, recordo-me de casos, anos atrás, em que teria havido algumas situações de tensão, envolvendo emigrantes em férias de verão. Pensava, porém, que se tratava de coisas passadas, de ocorrências meramente pontuais, sem grande relevância ou frequência. Devo confessar que fiquei chocado com o genuíno sentimento de tristeza desta portuguesa, a qual, pelos vistos, continua a sentir-se regularmente "agredida" por alguns dos seus e nossos compatriotas.

Neste tempo em que todos por aqui procuramos mobilizar o interesse dos luso-descendentes, de segunda ou terceira geração, por Portugal, mesmo que apenas falem francês, acho de uma inaudita estupidez que haja quem receba com desdém quem, pelo culto que tem ao seu país, procura visitá-lo e estimular para ele o interesse dos seus filhos.

Esta surpreendente conversa com a minha conterrânea transmontana, nessa noite de S. Martinho, foi acompanhada de água-pé e castanhas que, desta vez, me pareceram mais amargas.

Dívidas e dúvidas

Ao ler comentários em certa imprensa e em alguns blogues, fico por vezes na dúvida sobre o lugar onde os devo colocar, nesse triângulo das Bermudas onde toda a racionalidade desaparece e que é delimitado pela estupidez, pela ignorância e pela má fé.

Vem isto a propósito de declarações de responsáveis políticos estrangeiros que se pronunciaram - uns a favor, outros contra - sobre a aquisição de títulos de dívida portuguesa, colocados no mercado internacional.

Perante as manifestações de interesse ou desinteresse nesses títulos, há por aí "especialistas" que enveredam por análises marcadas por considerações de natureza política, afetiva e até ideológica, como se alguém estivesse disposto a sacrificar o interesse do seu país apenas para nos ser simpático. Comprar ou não comprar títulos de dívida portuguesa é uma opção que se baseia, como não podia deixar de ser, exclusivamente, nas vantagens decorrentes do nível dos juros que pagamos por essa dívida.

Com tanto economista por aí à solta, a mandar "bitaites" em debates e colunas, não há ninguém que lhes explique isto, de uma vez por todas?

Diplomatas, embaixadas & orçamento

Por estes dias, o tema da possível redução do número de representações diplomáticas portuguesas pelo mundo, no contexto orçamental restritivo que se vive, voltou à baila pública. E, nessa discussão, as condições em que os diplomatas portugueses operam tornam-se também objeto de alguma atenção.

Este é um tema que surge de tempos a tempos. A sua abordagem, as mais das vezes, é feita com alguma ligeireza naif, porque é relativamente fácil falar do que se conhece mal ou daquilo sobre que se tem uma visão apenas parcelar.

Não tenho nem pedi mandato a ninguém, mas entendi não dever furtar-me a responder a algumas questões que me foram colocadas pelo "Diário de Noticias". O que eu disse nessa curta entrevista, que hoje o jornal publica, compromete-me apenas a mim, mas posso crer que muitos colegas de profissão poderão talvez sentir-se representados em algumas das minhas respostas, as quais, para quem quiser, podem ser lidas aqui.

domingo, 14 de novembro de 2010

Governos

Ao acompanhar, durante o dia de ontem, os últimos episódios ligados à remodelação governamental que teve lugar em França, veio-me à lembrança uma historieta brasileira clássica, ao que se diz passada com Tancredo Neves, ao tempo em que era governador do poderoso Estado de Minas Gerais. Um Estado, diga-se, com uma área maior que a França...

Segundo se diz, Tancredo terá, um dia, anunciado que ia remodelar o governo do seu Estado. Naturalmente, algumas figuras posicionaram-se, de imediato, para se sujeitarem ao "sacrifício" de entrar no executivo. A certeza de uma dessas personalidades era tanta que havia já posto a correr que a sua participação no futuro governo estava, em absoluto, garantida. Porque o convite tardava em chegar, essa pessoa foi então falar pessoalmente com o governador, expressando mesmo o seu interesse especial por uma determinada pasta. 

Tancredo tê-lo-á desiludido: não tencionava fazê-lo entrar para qualquer cargo do seu governo. O homem caiu das nuvens! Já havia anunciado à família e ao amigos que iria ser governante,  a imprensa já falara no seu nome, a sua não entrada do governo ia ser uma humilhação pública. O que poderia agora fazer?

Tancredo manteve-se firme na sua decisão, mas disse-lhe que tinha uma solução:

- Há uma forma de resolver este assunto, aliás de um modo bem honroso para si. Ao sair daqui, você vai dizer, publicamente, que eu o convidei para entrar no governo. E vai acrescentar que, por razões pessoais, decidiu não aceitar esse meu convite. De imediato, eu confirmarei isso mesmo aos jornais.

E assim foi.

"G vain"?

A reunião do G-20 (parece que, na prática, já são 30 e tal, à volta da mesa...) de Seul traduziu-se por um acordo de mínimos, com escassos compromissos e muita "langue de bois". Daí que, em França, alguns lhe chamem "G vain". 

Nada que não fosse espectável, num quadro internacional em que, depois do "susto" financeiro de  2008/9, cada um parece estar a "fazer pela vida" e começam a esfumar-se as boas intenções no sentido de provocar uma reforma global no sistema internacional. 

O G20 tem várias limitações, a começar pelo caráter discutível da sua composição e a acabar pela dificuldade em consensualizar medidas que afetariam de forma diferenciada os seus componentes. Pelo meio, fica a incomodidade de alguns integrantes do G8/G9 em partilharem responsabilidades com alguns Estados cujo estatuto internacional tem, por vezes, um sentido mais simbólico que real.

Para um país como Portugal, que está naturalmente ausente deste mecanismo de cooptação privilegiada, o trabalho de uma instância desta natureza tem o mérito de provocar uma possível aproximação de políticas e o risco de se arrogar como um "diretório" de poderes fácticos à escala global, que, pela sua proeminência, pode por em causa a preeminência das instituições internacionais onde repousa a legitimidade última na ordem internacional. Não nos opomos à revisão desta e sempre demos mostras de estarmos empenhados em revisitá-la em termos de melhoria da sua eficácia, mas sempre considerámos não ser saudável fazer repousar os termos institucionais de referência do sistema internacional em estruturas de composição "ad hoc", geradas e formatadas por agendas de circunstância.

A França terá, a partir de agora e pelo prazo de um ano, a presidência do G20 (como também herdará a presidência do G8). Esperamos que o pragmatismo e a  influência franceses possam ser suficientes para desenhar um espaço de trabalho útil, com objetivos muito claros, que possam ir para além dos meros remendos de conjuntura.

sábado, 13 de novembro de 2010

Sharon

Ontem, surgiu a notícia de que Ariel Sharon, o antigo primeiro-ministro de Israel, há cerca de quatro anos nuna situação comatosa, regressou a sua casa. 

O mundo quase se havia esquecido dessa figura intransigente da direita israelita, celebrada pela arrojada travessia militar do canal do Suez, na guerra do Yon Kippur, em 1973, e, mais tarde, por fortes responsabilidades no massacre de Saabra e Chatila, no Líbano, em 1982. Deve-se ainda a Sharon, no entender de muitos observadores, a deliberada "provocação" que deu origem à segunda Intifada, após a sua ostensiva visita à esplanada das mesquitas, em 2000.

Ao ver ontem, na televisão, a ambulância que transportava Sharon chegar à sua residência, recordei os dias em que, em 1978, acompanhando o então ministro da Agricultura e Pescas português, Luis Saias, visitei o seu "bunker" na propriedade familiar que tinha no deserto do Negev. Sharon era, então, ministro da Agricultura do seu país. Guardo fotografias desse momento.

Sharon era uma figura rotunda, com um ar um tanto "patronizing" mas com alguma cordialidade, de onde transparecia uma autoridade natural que advinha, sem dúvida, dos seus tempos militares. Na lógica tradicional da composição dos governos israelitas, cujo sistema eleitoral "balcaniza" o executivo por uma imensidão de partidos, a Sharon calhara a Agricultura, como mais tarde iria caber a Habitação. A importante dimensão político-estratégica destes cargos ia, porém, muito para além da tecnicidade do lugar, pelo que as conversas com o seu homólogo português - cuja especialização era, aliás, também limitada - não passaram de vagas generalidades.

A visita correu bem, com demonstrações de simpatia pessoal de parte a parte, com alguns projetos de cooperação técnica assinados. No seu termo, Luis Saias informou-me que decidira convidar aquele seu homólogo a visitar Portugal. A seu ver, a amabilidade com que este o recebera tinha de ser recompensada. Expliquei então ao nosso ministro que, como diplomata e representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros na delegação, desaconselhava vivamente que convidasse Sharon a ir a Lisboa. A posição portuguesa no delicado equilíbrio da questão do Médio Oriente era muito cautelosa e o MNE nunca viria a aceitar dar "luz verde", naquela conjuntura, à concretização do convite.

(Antes da nossa partida para Israel, como já relatei aqui há tempos, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sá Machado, havia-me transmitido pessoalmente as linhas "limite" de enquadramento desta visita técnico-política. Um convite para uma visita de Sharon a Lisboa ia, claramente, muito para além dessas instruções).

Luis Saias não teve minimamente em conta as minhas objeções e, na conferência de imprensa final (em que eu tive de traduzir o que disse...), deixou expresso o convite para Ariel Sharon visitar Portugal.

Saias deixaria de ser ministro tempos depois, com o fim do governo PS-CDS. Para a História, Sharon não foi a Portugal.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Grande Guerra

A comemoração do Armistício, que, nos dias 11 de Novembro de cada ano, celebra o final da primeira Guerra Mundial, é uma data bem viva no imaginário histórico da França. No ano passado, como aqui sublinhei, Ângela Merkel esteve ao lado de Nicolas Sarkozy no Arco do Triunfo, num ato cujo simbolismo ultrapassou em muito o gesto protocolar.

Este ano, a "Mairie" do 14eme "arrondissement", presidida por Pascal Cherki, decidiu, num gesto inédito e que considerei altamente tocante, homenagear os mortos portugueses nesse primeiro conflito mundial. Esta homenagem é tanto mais interessante quanto, em regra, muito raramente se fala, em terras francesas, da presença de tropas portuguesas nessa guerra.

Por detrás desta iniciativa esteve o conselheiro eleito por Paris, Hermano Sanches-Ruivo, um lusodescendente. Por este facto se prova a importância de haver cidadãos de origem portuguesa a ocupar cargos eletivos em França, podendo ajudar a sublinhar a memória portuguesa neste país.

Num ambiente de intempérie, algumas centenas de pessoas, tendo à frente veteranos da Segunda Guerra Mundial e crianças de escolas (que leram extratos de cartas de combatentes), estiveram presentes, muitos à chuva e ao vento, nessa tocante cerimónia, durante a qual Pascal Cherki proferiu uma intervenção de grande profundidade, onde recordou e detalhou, não apenas a nossa participação do primeiro conflito, mas igualmente fez um relato circunstanciado do relacionamento entre Portugal e a França. Não tenho (pelo menos, por ora) esse texto em condições para fazer um link, pelo que me limito a dar acesso aqui à minha intervenção na cerimónia.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Adeus

A quem quereria dizer adeus o homem que dizia adeus?

Quase todas as noites, na área do Saldanha, em Lisboa, essa figura insólita, de óculos escuros e cabelo branco, acenava ao carros que passavam. Dizem que um trauma familiar terá estado na razão desse estranho comportamento.

Agora, segundo as notícias, chegou a hora de dizermos adeus ao homem que dizia adeus.

Batalha naval

Esta velha história de Viana do Castelo surgiu ontem, numa conversa ao almoço, com um recém-descoberto novo amigo vianense, ele proprio filho de um grande amigo do meu pai.

Estava-se durante a segunda guerra mundial. Portugal vivia dividido entre os apoiantes dos Aliados e os defensores da Alemanha e do Eixo. Na juventude vianense da época, a afetividade pendia mais para o lado dos Aliados, mas alguns germanófilos sobreviviam. Um destes últimos era uma figura um tanto caricata, tradicionalmente alvo de algumas "partidas", por via de uma credulidade que se somava a um inultrapassável défice cultural.

Um dia, os "aliadófilos" chegam junto desse seu amigo próximo do Eixo, mostrando-se escandalizados:

- Vocês não têm vergonha?! Acaba de ser anunciado que a Alemanha abateu, em alto mar, um contra-torpedeiro suíço. Ao que chegámos! Berlim nem sequer respeita os países neutrais!

O amigo germanófilo, cujos conhecimentos geográficos escasseavam, deu como óbvia a perca do navio daquela que seria a "poderosa" marinha suíça e, pragmático, respondeu, já desafiador:

- O que é que vocês querem?! Guerra é guerra!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Remodelação

Os períodos que antecedem uma remodelação governamental - como é o caso atual, em que estão iminentes mudanças no governo francês - são sempre de grande agitação nos "mentideros" diplomáticos. A imprensa, com notícias diárias sobre nomes falados para tal ou tal cargo, é fautora de muitas dessas hipóteses e, grande parte das vezes, toma por boas o que não passa de meras conjeturas das respetivas fontes.

No seio dos diplomatas - e isto é válido para todos os postos onde servi - há vários estilos de atitude. Alguns orientam-se exclusivamente pelos jornais e, dada a profusão contraditória de nomes que deles emergem, imagino que devam criar alguma confusão nas suas capitais - onde, muitas vezes, muitos nomes aventados são totalmente desconhecidos. Outros têm confiança em fontes políticas, da alta administração ou de meios económicos, às vezes não contando com o facto destas poderem, elas próprias, ser objeto de "desinformação" ou de uma distorção de perspetiva, decorrente de uma excessiva proximidade - ou, por vezes, de excessiva hostilidade ou interesse próprio - face ao poder. Outros, ainda, tentam a desejada síntese entre todas estas origens de notícias, orientando-se pela experiência criada e procurando selecionar hipóteses que se quadrem com as perspetivas que acham mais credíveis. Estes últimos, devo dizer, enganam-se tanto como os outros.

A regra prudencial a seguir deveria ser não ter a tentação de transmitir à sua capital senão as hipóteses que um conjunto variado de fontes coincidisse em confirmar. E, mesmo assim... Porém, ninguém faz isso e, não conhecendo eu os relatórios que os meus colegas enviam às suas autoridades, imagino que, em especial ao longo das últimas semanas, tenham inundado as suas capitais com nomes possíveis para certos cargos, com o cuidadoso "especula-se em certos meios que" ou "alguns analistas apontam para que" ou ainda, num tom mais intimista, "X disse-me estar convicto de que". Em caso de erro, o verdadeiro sujeito da oração é sempre um terceiro. Em caso de ter acertado, então o texto que anunciar a remodelação dirá: "Tal como eu referi na minha comunicação nº...".

Perguntar-se-á se isto é importante, se uma remodelação num sentido ou noutro, com umas ou outras pessoas, terá um impacto que possa interessar aos países estrangeiros aqui representados. Sim e não. 

A escolha de certas personalidades pode indicar algumas opções políticas, com expressão nas relações externas (em especial, europeias) ou em políticas públicas locais relevantes para os Estado estrangeiros. Algumas figuras poderão ser nossas conhecidas - e neste "nossas" incluem-se os embaixadores ou os políticos dos nossos países. Às vezes, há importantes interesses dos nossos países que ficariam melhor ou pior servidos, em termos potenciais, se a escolha for num ou noutro sentido. Porém, atendendo a que a grandes opções governamentais relevam de uma linha política que raramente depende exclusivamente da entrada de uma personalidade para a chefia de um determinado ministério, o impacto de um nome ou de outro acaba por não ser grande.

Mas, nem por isso, a próxima remodelação governamental deixa de ser o assunto do momento, no seio da comunidade diplomática parisiense. 

A América, a Indonésia e Timor

Ter memória torna-nos algo cruéis. Ontem, ao ver o presidente Barack Obama na Indonésia, confraternizando com o seu homólogo local, não pude deixar de lembrar-me de uma triste visita de um seu antecessor ao mesmo país. 

Estávamos em 6 de Dezembro de 1975. Gerald Ford, acompanhado pelo seu chefe da diplomacia, Henry Kissinger, visitava Jacarta, onde se encontrou com o então presidente Suharto. Durante este encontro, como hoje o revelam detalhadamente documentos depositados no "National Security Archive", da "George Washington University", o presidente indonésio recebeu "luz verde" de Gerald Ford para avançar na invasão de Timor, naquela que iria ser uma mortífera operação, cujas consequências se prolongaram por quase um quarto de século. O presidente americano apenas disse que "it would be better if it were done after we returned". Suharto cumpriu. O ataque iniciou-se no dia 7 de Dezembro. 

A América de hoje é diferente. A Indonésia também. Mas, "for the record", não fica mal um exercício de memória.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Alfredo Margarido

Não éramos muitos, mas fomos em número suficiente, ao final da tarde da passada segunda-feira, para homenagear a figura do intelectual português Alfredo Margarido, que o "Centre de Recherches Interdisciplinaires sur les Mondes Ibériques Contemporains", da Sorbonne (Paris IV), levou a cabo, sob a organização de Maria Graciete Besse.

Durante duas horas e meia, vários intervenientes deram-nos um retrato da intervenção académica e política de Alfredo Margarido, complementado por interessantes testemunhos de amigos e familiares.

Como alguém disse, foi bem adequado que esta homenagem tivesse tido lugar na mesma rue Gay-Lussac onde Margarido foi ativo participante no maio de 1968.

De Gaulle

Faz hoje 40 anos que morreu Charles de Gaulle. Com ele, desaparecia então "une certaine idée de la France", que soube cultivar desde muito cedo - em especial, desde que reagiu contra Vichy, desde que se impôs em Londres, desde que confrontou Roosevelt, desde que personalizou a libertação. Com a França, de Gaulle iria ter um "affaire" histórico bastante complexo. Descrente da IV República, acabaria por aparecer no topo da vaga de fundo que a fez naufragar. Soube entender que a Alemanha era incontornável, que uma certa Europa era indispensável, que era importante marcar as distâncias face aos EUA, nomeadamente no seio da NATO. Percebeu a onda descolonizadora, soube utilizá-la em favor dos interesses do seu país e teve a coragem de reverter a atitude francesa face à Argélia. Venceu politicamente em maio de 1968, mas acabou por perder a sua ligação com uma sociedade que mudara profundamente e que se cansara de um certo estilo de governação.

De Gaulle, que hoje o presidente Sarkozy saudou como uma figura identitária da França contemporânea, em Colombey-les-deux-églises, faz parte de uma França muito diferente. Como acontece com as figuras históricas, com o tempo diluiram-se bastante as críticas a seu respeito, emergindo com visibilidade valores de que se tornou titular.

Não sendo francês, sinto a tentação de dizer que o franceses têm a felicidade de ter um homem como Charles de Gaulle na sua história.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O vizinho

O jantar era numa capital europeia. Aquela portuguesa, filha de um diplomata, caíra nele um pouco por acaso, à última hora, levada por amigos. As dezenas de convidados acomodavam-se nas várias mesas redondas, num ambiente solto e bastante informal. Ao dar-se conta que um dos seus vizinhos do lado era brasileiro, a portuguesa, seguindo o óbvio tropismo nacional, passou a concentrar nele a sua atenção. O vizinho era, além do mais, uma pessoa com graça, interessante e com "mundo".

A certa altura, trocaram-se nomes e o vizinho disse chamar-se Paulo. O apelido, como ele também referiu, não podia ser mais português: Coelho. A nossa jovem perguntou então ao seu vizinho se, sendo brasileiro, a coincidência de ter um nome igual ao prolífico escritor não causara já equívocos. E acrescentou: "Eu detesto os livros de Paulo Coelho. É uma escrita banal, medíocre. Não consigo entender a razão do seu êxito. Tenho muitos amigos brasileiros que pensam o mesmo. O que é que você acha?".

O vizinho, homónimo do escritor, sorriu e disse: "Eu não desgosto desses livros. Caso contrário, não os teria escrito..."

Nunca cheguei a perguntar à Inês como saiu desta. Como sei que ela, às vezes, lê este blogue, talvez me possa esclarecer.

domingo, 7 de novembro de 2010

Rouen

A atenção que, nas últimas semanas, tem vindo a ser concedida aos políticos "centristas" na vida política francesa, por virtude da "contabilidade" da sua importância potencial no caminho para as eleições presidenciais de 2012, levou-me a recordar, numa visita de trabalho que fiz a Rouen, na passada sexta-feira, a figura de Jean Lecanuet (na foto), que foi "maire" da cidade durante um quarto de século. Lecanuet morreu em 1993.

Lecanuet foi uma figura importante na vida política francesa, em especial nas tentativas, quase sempre frustradas a prazo, de criar em França uma dinâmica centrista que pudesse abalar decisivamente a bipolarização esquerda-direita. Nesse esforço, logo no pós-guerra, desempenhou um papel relevante no democrata-cristão MRP (Mouvement Républicain Populaire), tendo obtido, como candidato presidencial, mais de 15% nas eleições de 1965, obrigando de Gaulle a uma segunda volta contra François Mittérrand. Aliás, este último político disse um dia (e cito de cor) que "o centro, em França, ou está à direita, ou está...à direita". Verdade seja que, com certas escassas exceções históricas (algumas das quais o beneficiariam), o líder socialista teve, as mais das vezes, razão nesta sua avaliação. Lecanuet fundou depois o Centre Democrate e, mais tarde, ajudou Giscard d'Estaing a chegar ao poder, tendo presidido à UDF (Union pour la Démocracie Française) que apoiava a ação presidencial. Foi ainda ministro, senador e deputado.

Nos contactos locais que tive, tentei perceber o que resta da memória de Lecanuet no imaginário de Rouen. Acabei por ser apresentado a um seu antigo colaborador que, emocionado, me disse que Lecanuet está para Rouen como Chaban-Delmas estava para Bordeaux.  Deve ter razão, embora as figuras não possam ser comparáveis, na sua respetiva dimensão nacional.

No almoço que tive com a dinâmica "maire" da cidade, Valérie Fourneyron, num restaurante dirigido por um chefe português com grande expressão na região (o coimbrão José Rato, do restaurante "Reverbère"), ouvi - como sempre - palavras de grande apreço pela Comunidade portuguesa, da qual  encontrei uma dezenas de pessoas mais tarde, num convívio organizado pelo nosso Cônsul Honorário local. Na região normanda de Rouen temos vários empresários de sucesso e algumas associações bastante ativas. Prometi interessar-me pelo ensino de português na Universidade local e colocar a AICEP na rota comercial da região, com cuja Câmara do Comércio também reuni.

Uma das angústias com que, muitas vezes, saio deste tipo de visitas é a dificuldade em conseguir dar uma sequência operativa eficaz a coisas promissoras que "ficam no ar". Não chegamos para tudo...

Porto-Benfica

Que pensa um sportinguista ao ver o Porto ganhar 5-0 ao Benfica, reforçando ainda mais a sua liderança?

Só às paredes confesso.

Jill Clayburgh

Jill Clayburgh não era uma atriz de topo, mas era uma figura do cinema que eu apreciava bastante. A isso não seria indiferente o facto de, em algumas das suas personagens, ela combinar um perfil de elegância discreta com um olhar de onde, muitas vezes, transparecia uma tristeza trágica, às vezes presente no próprio sorriso. E isso, sei lá porquê!, dizia-me alguma coisa.

Que seria dos artistas se não os "lêssemos" cada um ao nosso modo?

Jill Clayburg acaba de morrer aos 66 anos, vítima de leucemia.

sábado, 6 de novembro de 2010

Sá Carneiro

Há quase um ano, falou-se aqui da figura de Francisco de Sá Carneiro. Dentro de dias, em 4 de Dezembro, passarão 30 anos sobre a sua trágica morte, uma daquelas escassas datas em que todos nos lembramos onde estávamos no momento da notícia.

Há dias, ouvi dizer que tinha saído uma biografia de Sá Carneiro, da autoria de Miguel Pinheiro. Consegui comprá-la no aeroporto, antes do regresso a Paris. Em 48 horas, devorei as suas quase 800 páginas, escritas num estilo quase "fílmico", com um ritmo jornalístico e um excecional rigor investigativo. Ao que parece, Miguel Pinheiro demorou cinco anos a recolher os dados para este trabalho. Mas valeu a pena.

Com algumas escassas, embora valiosas, exceções, o género biográfico não tem, entre nós, grandes cultores. A tendência para a hagiografia das personagens sobrepõe-se. muitas vezes, à desejável independência na avaliação dos factos e das interpretações. Noutros casos, a vaidade intelectual dos autores torna o tratamento das figuras escolhidas um mero pretexto para a defesa de uma tese pessoal. Finalmente, numa terceira categoria, aparecem obras de uma qualidade de investigação e/ou escrita lamentável.

Este trabalho de Miguel Pinheiro revela-o um autor de mérito e traz-nos dados novos sobre uma das personalidades mais marcantes do imaginário político da democracia portuguesa. Para quem, como eu, tem o "vício" de procurar ler tudo quanto pode sobre a contemporaneidade política doméstica, este livro revelou muitas coisas novas, confirmando também muitas outras.

O mais interessante neste trabalho - para além de dados curiosíssimos sobre a génese da "ala liberal" do marcelismo e sobre as tensões no seio do então PPD - é talvez a luz nova que se projeta sobre a personalidade de Francisco de Sá Carneiro, vista à lupa naquilo que são as suas fraquezas, a sua determinação, o seu carisma e a sua propensão para a rutura, no plano político mas também pessoal. 

O autor privilegia a "cedência" dos factos ao leitor em detrimento de uma versão predominantemente interpretativa - o que pode desagradar a alguns críticos -, concedendo-nos uma maior liberdade na leitura. Esta pode, aliás, levar a duas conclusões contraditórias, o que não deixa de ser uma grande qualidade, abonatória da honestidade do trabalho executado.

Para os que admiram Sá Carneiro, o livro confirmará os traços de inconformismo que o tornaram popular e que conduziram à saudade de um certo tipo de liderança, frontal e arrojada, sem receio de colocar na ação executiva medidas corajosas, ao serviço de um ideário de denúncia aberta do que entendia serem as distorções que um radicalismo esquerdista introduzira no Portugal pós-abril.

Quem não aprecia a personagem encontrará no livro argumentos para reforçar a sua visão de um político egocêntrico e vaidoso, com tiques autoritários e populistas, com uma agenda de confronto feita de teorias conspirativas, que induziram tensões eventualmente gratuitas, por ausência de um espírito de compromisso e por uma dificuldade de relacionamento pessoal com os adversários..

Este é um livro que, francamente, recomendo e que deve ser lido por quem tem interesse em perceber melhor o Portugal contemporâneo.

Sucesso português

Ontem, numa conversa a propósito da nomeação de António Horta Osório para a chefia do Lloyds Bank, depois do sucesso que teve no Santander britânico, alguém me dizia: "Não percebo por que é que, só pelo facto de alguém ser português, temos necessariamente de ficar contentes com a subida desse alguém na cena internacional".

Eu não conheço pessoalmente Horta Osório mas, devo confessar, sinto sempre uma grande satisfação quando o adjetivo "português" se liga ao nome de alguém com sucesso, à escala mundial. Portugal é um país conhecido pela sua história (somos um dos países mais antigos do mundo), mas não somos reconhecidos pelos outros como um país "produtor" de vencedores. E o prestígio subliminar de um país no imaginário coletivo constrói-se também, para além de muitos outros fatores, pela visibilidade positiva das personalidades que dele emergem. Seja Horta Osório, seja Oliveira, seja Saramago, seja Siza Vieira, seja Mourinho...

Church's

Um anúncio no "Le Figaro" de ontem trazia uma fotografia de uns sapatos "Church's", aquela clássica marca inglesa que tem a fama de ser eterna (não é, posso garanti-lo). Em Paris, há três lojas da marca. Hoje, investiguei o preço do produto anunciado: proibitivo! Não pude, assim, levar à prática aquela asserção do precetor austríaco do rei dom Manuel, que andava sempre equipado com os mais caros produtos de vestuário e calçado, explicando: "Não sou suficientemente rico para poder comprar coisas baratas".

Um dia, nos anos 90, em Londres, tive a jantar em casa uma colega - hoje embaixadora - e o seu pai, uma figura encantadora que, como a muitos aconteceu, recorreu aos médicos britânicos como última esperança para uma doença cancerígena que o minava. Infelizmente com razão a curto prazo, o parecer médico não deixou espaço para nenhumas ilusões. Ficou-me na memória afetiva, para sempre, a ironia triste, mas com admirável "panache", com que o pai dessa minha amiga, no final do jantar, me disse que, nessa tarde, comprara uns Church's: "Sabe, dizem-me que duram 20 anos. É tempo suficiente..."

Informação

Neste mundo de informação instantânea - onde o mais difícil é "vermo-nos livres" da informação a mais e ter acesso apenas àquela que nos é essencial - esta fotografia da delegação do jornal "O Século", no Rossio de Lisboa, nos anos 40, dá-nos uma imagem curiosa do que era a avidez pelas notícias, naquele tempo de guerra europeia. Os "takes" das agências noticiosas eram então sintetizados em notas à mão, que os passantes liam. 

Bem mais tarde, como muitos se recordarão, o sistema passou para as fitas noticiosas luminosas que eram exibidas em paredes (por exemplo, no Rossio, em Lisboa, e na Praça da Liberdade, no Porto) e que nos davam "as últimas", num estilo um pouco ao modo dos atuais rodapés dos telejornais (embora, nesse tempo, sem erros ortográficos).

Ao comparar as épocas, e, no caso português, descontadas as limitações da censura, devo dizer que fico na dúvida sobre se as pessoas desse tempo eram, de facto, menos informadas do que nós, relativamente ao que era essencial para a sua vida.