segunda-feira, 11 de abril de 2011

Lugares de Eça de Queirós em Paris (3)

Esta é a imagem (possível) da casa em que Eça de Queirós viveu, desde finais de 1893 (não há uma data exata), e onde morreu, em 16 de agosto de 1900. O escritor havia sido obrigado a sair da casa que ocupava na rue Charles Lafitte (ver aqui) e, depois de muito procurar, encontrou esta moradia numa zona de Neuilly, não muito distante. O prédio foi demolido nos anos 70.

Sobre ela, Eça escreveu a Oliveira Martins, em 1894: "Nós continuamos na remota província de Neuilly. A nova casa agora é metida dentro de um jardim, que é ele mesmo metido dentro dum terreno, que por seu turno está metido dentro de um largo prédio de rapport. Tens decerto visto disposições iguais em caixinhas chinesas". Foi no jardim dessa casa que Eça tirou esta conhecida fotografia, vestido com uma cabaia chinesa.

Em frente ao espaço onde existia a casa (da imagem a preto-e-branco), no que é agora o nº 38 da avenue de Roule, em Neuilly, havia já sido construído, entretanto, este prédio.



Na frontaria do edifício, foi aposta pelo embaixador Marcello Mathias, em 14 de setembro de 1950, uma placa de mármore, oferecida pela Escola de Belas-Artes do Porto.


O queirosiano Luís Santos Ferro tem vindo a lutar, com o meu apoio, pelo restauro da placa, cujos dizeres são atualmente ilegíveis.

Vae victis

As guerras não são um desporto, nem sequer podem ser confundidas com uma disputa política democrática, em que o derrotados saem de cena com alguma naturalidade. De qualquer forma, devo dizer que não fico nunca indiferente às imagens, sempre patéticas, de um guerreiro que chega ao fim da viagem, como as que, há pouco, as televisões mostraram de Laurent Gbagbo.

domingo, 10 de abril de 2011

La Lys e a Legião Portuguesa

No próximo fim de semana, vamos de Paris a La Lys, perto de Lille, rememorar, como anualmente fazemos, a batalha trágica em que morreram muitos militares portugueses, no termo da primeira Grande Guerra.

A batalha teve lugar em 9 de abril de 1918. Na minha infância, em Vila Real, a data era comemorada com uma romagem ao monumento a Carvalho Araújo, na avenida com o mesmo nome. Nas comemorações, tinha um papel mobilizador a Legião Portuguesa que, nas vésperas, vendia pela cidade miniaturas de capacetes militares, para pôr ao peito, financiando a Liga dos Antigos Combatentes.

As novas gerações desconhecem essa organização, criada num tempo em que o Estado Novo tinha uma vocação protofascista. A Legião era uma espécie de milícia armada, comandada por figuras políticas do regime ou por militares na reserva, que frequentemente era encarregada de levar a cabo algum "dirty work", muitas vezes em íntima ligação com a polícia política.

Nos anos 50, o regime pressionava fortemente os funcionários públicos a fazerem parte da Legião. Muitos aceitavam, as mais das vezes por temor a represálias do que por uma sincera adesão ideológica, outros recusavam, com dignidade e coragem. Após o desencadear da guerra colonial, a Legião desenvolveu, no seu seio, a Defesa Civil do Território, que tentou, sem grande sucesso, mobilizar esses setores oficiais do país para um cenário improvável de guerra no território europeu.

Com o tempo, com a desaparição do entusiasmo dentro do próprio regime pela "Revolução Nacional", a Legião foi-se "apagando" na província, embora subsistindo com algum vigor em Lisboa. A organização destacou-se em ações provocatórias perante a episódica emergência de movimentações democráticas, nos chamados "períodos eleitorais". Foi também responsável por algumas ações de vandalismo, como o ataque à Sociedade Portuguesa de Escritores (em 1965) ou à Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa (em 1969). A Legião, em especial através da sua FAC (Força Automóvel de Choque), levou ainda a cabo diversos atos de natureza repressiva e persecutória, alguns já no período do marcelismo.

Nessa fase terminal da "situação" (delicioso nome dado popularmente à ditadura, por contraste com a "oposição"), a Legião já se não sentia muito à vontade, tendo ainda como principais dirigentes figuras ligadas a setores de saudosismo salazarista, que contestavam a "primavera marcelista". Recordo, porém, em 1971, já na chamada "abertura" marcelista, o cerco feito por elementos da FAC a uma reunião do associativismo universitário, no Instituto Superior Técnico, que obrigou os integrantes da mesma a terem de saltar muros e a algumas corridas pela madrugada lisboeta.

Nesses últimos anos do regime, a Legião havia sido reforçada por algum "lumpen", por elementos da antiga OPVDCA (uma organização paramilitar criada em Angola, em 1961) e por militares desmobilizados. Ao que julgo saber, a ação da Legião Portuguesa concentrava-se então em ações de segurança de instalações petrolíferas na zona oriental de Lisboa. No 25 de abril, alguns dos revoltosos temiam, por mero desconhecimento, a força da Legião Portuguesa e a sua capacidade de resistência. Afinal, a organização viria a revelar-se um mero "tigre de papel", para usar uma expressão à época muito em voga.

Vale a pena reconhecer, em abono da verdade, que, ao menos no que respeitava às comemorações da batalha de La Lys, a Legião acabou por desempenhar um papel meritório. Era patrioticamente pedagógico, para as crianças das escolas, ver de perto o valoroso soldado Milhões, bem como os seus colegas veteranos da primeira Grande Guerra, orgulhosos com as suas condecorações ao peito, perfilados em frente ao monumento a Carvalho Araújo, ouvindo hinos e honras militares. 

Hoje, já não há velhos militares vivos dessa guerra e nem sei se alguém honra, em Vila Real, os mortos de La Lys. Aqui em França, e desde há muito, os embaixadores de Portugal e as Forças Armadas portuguesas cumprem, com empenhamento, esse ritual de respeito. No meu caso, regresso, com gosto, ao passado. Agora sem a Legião Portuguesa, claro.

Lugares de Eça de Queirós em Paris (2)

Situada no 32 da rue Charles Lafitte, esta moradia de Neuilly-sur-Seine foi habitada por Eça de Queirós da primavera de 1891 até (crê-se) finais de 1893. É a segunda casa, depois da da rue Crevaux (ver aqui), que foi ocupada em Paris por Eça de Queirós, durante a sua estada de cerca de 12 anos na capital francesa, como Cônsul de Portugal.

Segundo Luís Santos Ferro, profundo conhecedor queirosiano, nesta moradia "desenrolou-se um período feliz da família Eça de Queirós, muito fecundo na actividade literária do escritor". A casa foi frequentada por muitos amigos do escritor, como os portugueses Carlos Mayer, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Batalha Reis, António Nobre, Alberto de Oliveira, António Feijó, Carlos Lobo d'Ávila e os brasileiros como o barão do Rio Branco, Eduardo Prado, Magalhães de Azeredo, Joaquim Nabuco, Domício da Gama e Olavo Bilac.

Os atuais proprietários, Philippe Mayer e a sua mulher, demonstram um grande e desinteressado empenhamento em conservar a memória queirosiana na sua moradia.

Por iniciativa de Luís Santos Ferro, foi inaugurada no exterior do edifício, em 25 de novembro de 1996, assinalando os 150 anos do nascimento do escritor, uma placa oferecida pelo Grémio Literário, descerrada pelo presidente da República, Jorge Sampaio. Uma das personalidades que esteve presente e tomou a palavra no ato foi o então "maire" de Neuilly. Chamava-se Nicolas Sarkozy.


Um compromisso nacional*

1. Portugal está a viver uma das mais sérias crises da sua história recente. Essa crise tem uma dimensão financeira e económica, que se reflete no défice orçamental, no desequilíbrio externo, no elevado grau de endividamento público e privado e nos baixos índices de competitividade e crescimento da economia, com grave impacto no desemprego, em especial nas gerações mais novas; mas tem igualmente uma dimensão política e social grave, que se exprime numa crescente dificuldade no funcionamento do Estado e do sistema de representação política e em preocupantes sinais de enfraquecimento da coesão da sociedade e das suas expectativas. 

2. A crise financeira e económica mundial que se iniciou em 2007,com origem nos Estados Unidos, gerou em 2009 a maior recessão global dos últimos 80 anos e transformou-se, mais tarde, na chamada crise da dívida soberana, que abriu no seio da União Europeia um importante processo de ajustamento político e institucional, afetando de modo especialmente negativo alguns dos Estados membros mais vulneráveis, entre os quais, agora, Portugal.

3. Nesta situação de grande dificuldade, em que persistentes problemas internos foram seriamente agravados por uma conjuntura internacional excecionalmente crítica, os signatários sentem-se no dever de exprimir a sua opinião sobre algumas das condições que consideram indispensáveis para ultrapassar a crise, num momento em que a dificuldade de diálogo entre os dirigentes políticos nacionais e a crescente crispação do debate público, nas vésperas de uma campanha eleitoral, ameaçam minar perigosamente a definição de soluções consistentes para os problemas nacionais. 

4. Essas condições envolvem dois compromissos fundamentais:

a) em primeiro lugar, um compromisso entre o Presidente da República, o Governo e os principais partidos, para garantir a capacidade de execução de um plano de ação imediato, que permita assegurar a credibilidade externa e o regular financiamento da economia, evitando perturbações adicionais numa campanha eleitoral que deve contribuir para uma escolha serena, livre e informada; este compromisso imediato deve permitir que o Governo possa assumir plenamente as suas responsabilidades para assegurar o bem público e assumir inadiáveis compromissos externos em nome do Estado. 

b) em segundo lugar, um compromisso entre os principais partidos, com o apoio do Presidente da República, no sentido de assegurar que o próximo Governo será suportado por uma maioria inequívoca, indispensável na construção do consenso mínimo para responder à crise sem a perturbação e incerteza de um processo de negociação permanente, como tem acontecido no passado recente; numa perspetiva de curto prazo, esse consenso mínimo deverá formar-se sobre o processo de consolidação orçamental e a trajetória de ajustamento para os próximos três anos prevista na última versão do Programa de Estabilidade e Crescimento; e, numa perspetiva de médio/longo prazo, sobre as seguintes grandes questões nacionais, relacionadas com a adaptação estrutural exigida à economia e à sociedade: a governabilidade, o controlo da dívida externa, a criação de emprego, a melhor distribuição da riqueza, as orientações fundamentais do investimento público, a configuração e sustentabilidade do Estado Social e a organização dos sistemas de Justiça, Educação e Saúde. 

5. As próximas eleições gerais exigem um clima de tranquilidade e um nível de informação objetiva sobre a realidade nacional que não estão neste momento asseguradas. A afirmação destes compromissos, a partir de um esforço conjunto dos principais responsáveis políticos, ajudará seguramente a construir uma solução governativa estável, que constitui a primeira premissa para que os Portugueses possam encontrar uma razão de ser nos sacrifícios presentes e encarar com esperança o próximo futuro. 

* Documento subscrito por um conjunto de cidadãos, oriundos de áreas muito diversas da opinião, publicado ontem pelo jornal "Expresso"

República portuguesa em Paris

Achei muito interessante a ideia da Caixa Geral de Depósitos, em ligação com a Câmara Municipal de Espinho, de promover, de dia 9 até ao final do mês de abril, uma exposição intitulada "Portraits de la République", na sua sede em Paris.

Esta mostra destaca, em particular, o papel que algumas mulheres desempenharam nessa aventura política, que, com todo o contraditório das suas diversas facetas, inaugurou um tempo importante na modernidade da nossa história recente.

As comemorações do centenário republicano, que, entre nós, tantos engulhos criaram em alguns espíritos que ainda sonham com os dias de ontem - alguns dos quais, aliás, os confundem com os tempos negros da ditadura -, foram um momento decisivo para revisitar, com seriedade e profundidade, uma época complexa, mas muito rica, do nosso século XX. Não obstante uma conjuntural prevalência editorial em Portugal de uma onda historiográfica conservadora, parte da qual se esforça por branquear o período da decadência monárquica, o debate em torno do centenário republicano conseguiu trazer à tona o percurso dos homens e das mulheres que souberam, com muitos erros mas com um generoso voluntarismo patriótico, construir a nossa República.

sábado, 9 de abril de 2011

Lugares de Eça de Queirós em Paris (1)

Prédio no nº 5 da rue Crevaux, entre a avenue Foch e a avenue Bugeaud, no XVI ème, onde Eça de Queirós viveu, da primavera de 1889 até à primavera de 1891.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Uma nota triste

Aqui e ali, e desde há semanas, surgem comentários críticos de responsáveis europeus sobre a situação político-económica portuguesa. Algumas dessas figuras destacam-se pela adjetivação sonora com que se permitem qualificar, quer essa mesma situação, quer opções tomadas no âmbito do nosso sistema democrático.

Devo dizer que, como português, me sinto muito pouco confortável ao deparar com esses discursos, às vezes algo paternalistas e que, em bom europês, sinto vontade de responder-lhes: "mind your business".

A triste verdade, porém, é que não podemos dizer-lhes isso, num tempo em que dependemos da vontade e da solidariedade alheia para resolver os nossos problemas. É nestes momentos que entendemos melhor que a nossa conjuntural fragilidade económico-financeira acarreta alguns efeitos indesejáveis sobre a imagem do país no quadro internacional, que a todos nos vai competir recuperar, nos anos que aí vêm. Por ora, não há almoços grátis.

Radio France Internationale

Há semanas, falámos aqui do serviço português na BBC e das ameaças que se projetam sobre o respetivo futuro.

Agora, acabo de saber que, na Radio France Internationale (RFI),começa a desenhar-se uma evolução similar. 

Esta questão tem duas vertentes autónomas.

A primeira prende-se, naturalmente, com a importância que Portugal, bem como os países de língua portuguesa, atribuem à manutenção de espaços mediáticos falados em Português. É o que poderíamos chamar o nosso interesse "egoísta". No caso francês, esse interesse liga-se à constatação, que me parece óbvia, de que o Português é uma das línguas da "diversidade" francesa.

Uma segunda vertente tem a ver com o interesse de um país como a França, com uma ambição de influência à escala global, de ver a sua "mensagem" chegar, em língua portuguesa, a "mercados" de ouvintes em países com a importância do Brasil ou de Angola - apenas para mencionar dois espaços que, somados, congregam mais de 200 milhões de pessoas e cuja riqueza não é indiferente ao quadro de relacionamento bilateral com a França.

Lembro esta segunda vertente apenas porque ela se cumula à primeira. Julgo, assim, que há uma objetiva coincidência entre os interesses de Portugal (e dos países que falam português) e os interesses da França em garantir a permanência dessas emissões internacionais da Radio France Internacionale. 

Pedro Catarino

Contrariamente ao que acontece em outros países, não há, em Portugal, uma tradição de regular utilização de funcionários diplomáticos credenciados em outras áreas de atividade, onde sejam aproveitados a sua experiência e o sentido de Estado que a profissão, quando bem exercida, neles ajudou a sedimentar. Por essa razão, e contrariamente a algumas invejas que, por vezes por aí deteto, eu só me felicito quando vejo colegas a ser escolhidos para outras funções, públicas ou privadas. Esses convites, para além da sua natureza pessoal, acabam, indiretamente, por ser um elogio à própria função diplomática.

Vem esta nota a propósito da escolha, pelo presidente da República, do embaixador Pedro Catarino como ministro da República para os Açores. Pedro Catarino é um nome que honrou a carreira em todos os lugares onde exerceu funções, de que destaco as tarefas como embaixador em Pequim e Washington e, em particular, de representante permanente na ONU, onde foi o principal responsável pela campanha que conduziu Portugal ao Conselho de Segurança, em 1997.

A sua seleção para um lugar com a delicadeza institucional de ministro da República numa região autónoma constitui o claro reconhecimento das suas qualidades. Nada que nos surpreenda, mas algo com que as Necessidades se devem regozijar.

Deixo aqui um forte abraço ao Pedro, com votos de boa sorte.   

O caso

Um amigo brasileiro contou-me, há dias, uma história conhecida na sua carreira diplomática, envolvendo um embaixador português, ao tempo em que a capital permanecia ainda no Rio de Janeiro. O nosso representante era então o embaixador António de Faria, figura muito conhecida da diplomacia portuguesa, que foi também chefe de missão em Londres e aqui em Paris. 

Num jantar social no Rio, uma noite, veio à baila, numa conversa, que Faria teria uma ligação romântica com uma determinada senhora. Alguém, da Embaixada de Portugal, confirmara a um dos presentes que Faria desaparecia do serviço por longas horas, o que só credibilizava mais o rumor.

O chefe do Protocolo (no Brasil, diz-se Cerimonial) brasileiro afirmou então, para espanto geral:

- Não pode ser verdade, meus amigos. Vou revelar um segredo: Faria tem "um caso" mas comigo.

Os olhares cruzaram-se, de incredulidade, tanto mais que quer Faria quer o diplomata brasileiro tinham um historial de comportamento que tornavam pouco plausível tal cenário, além de que, à época, os "outings" ainda não estavam na moda.

E logo o diplomata explicou:

- É comigo que esse Faria passa a maioria das horas do dia.

E, numa diatribe contra o diplomata português, o brasileiro revelou que António de Faria ia todos os dias vê-lo ao Itamaraty, ficando horas infindas no seu gabinete.

À época, estava em curso de preparação uma importante visita oficial portuguesa ao Brasil. Como sempre acontece nessas ocasiões - e sei bem do que falo -, as Embaixadas são bombardeadas com pedidos crescentemente mais preciosistas da parte de Lisboa, o que, à medida que as datas se aproximam, obriga a contactos cada vez mais intensos com as autoridades locais. Faria, que era conhecido por ter um caráter meticuloso e detalhista para as questões da logística, exasperava assim o seu colega brasileiro, que só ansiava vê-lo porta fora.

O falso "affaire" de Faria passou assim a constar dos anais de memória dos corredores diplomáticos brasileiros. Quanto ao eventual outro, a ser verdadeiro, não sobreviveu na farta tradição oral daquela nossa Embaixada. Posso garantir.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Balsemão

Um colega diplomata, durante uma conferência que Francisco Pinto Balsemão proferiu ontem no centro cultural Gulbenkian, aqui em Paris, revelou-me que foi o antigo primeiro-ministro português quem, durante a tentativa de golpe militar de  23 de fevereiro de 1981, deu instruções telefónicas ao então embaixador de Portugal em Espanha, João Sá Coutinho, para dar asilo, se necessário fosse, a figuras políticas espanholas que procurassem refúgio nas instalações diplomáticas portuguesas. Essa decisão respondia a uma sondagem feita, junto das nossas autoridades, por democratas ameaçados pela sedição armada da extrema-direita espanhola. O gesto de Balsemão integra os atos de grande dignidade na história da política externa portuguesa.

E foi também de liberdade, no plano político e de informação, que Balsemão ontem nos falou, analisando a importância dos meios informáticos e o papel dos media à escala global, partindo de Karl Popper e tratando casos tão atuais como as revoltas no mundo árabe.

FT

O "Financial Times" é um barómetro da política económica à escala global. Procuro lê-lo diariamente, há bastantes anos, e não me recordo do mesmo país ter sido objeto de três títulos principais de primeira página, durante três dias consecutivos. Aconteceu com Portugal, de anteontem até hoje. Infelizmente. Dias melhores virão.

Mas o "Financial Times" não escapa à política da "barata tonta". Nos últimos meses, deu acolhimento entusiasta a todos quantos achavam que Portugal deveria pedir imediatamente ajuda externa. Hoje, o seu anónimo editorial termina desta forma: "O momento certo para optar por uma ajuda externa teria sido o termo de um debate nacional. A campanha eleitoral oferecia aos políticos portugueses a possibilidade de explicar publicamente o que necessita de ser feito e obter um mandato para tal."

Vá-se lá perceber estes tipos!

Jaime Gama

Ontem, ficou-se a saber que Jaime Gama, presidente da Assembleia da República e figura proeminente na vida política portuguesa, desde antes da revolução de 25 de abril de 1974, não vai recandidatar-se a deputado à Assembleia da República, abandonando a vida pública.

Conheço Jaime Gama há mais de 40 anos, dos tempos de tertúlias no café Grã-fina, um lugar de encontro de universitários, em Entrecampos. Ele era então líder clandestino dos jovens socialistas e viria a ser preso pela polícia política, tal como já acontecera nos Açores, anos antes. Social-democrata assumido, esteve na primeira linha da atividade da oposição democrática e na génese daquilo que viria a ser o Partido Socialista. Foi professor e jornalista profissional no "República", com escritos publicados também em "O Tempo e o Modo". No 25 de abril, estava, como eu, a cumprir serviço militar obrigatório. Em democracia, foi ininterruptamente deputado, desde a Assembleia Constituinte, tendo assumido cargos ministeriais na Administração Interna, Negócios Estrangeiros e Defesa. Por duas vezes à frente da diplomacia portuguesa, Jaime Gama fica na história como um dos políticos que, em Portugal, mais tempo ocuparam esse posto.

Em 1995, fui convidado por Jaime Gama para seu secretário de Estado, funções que exerci por mais de cinco anos. Reconheço nele a figura que mais marcou a política externa portuguesa em democracia, em que muito prestigiou o país e onde contribuiu para afirmar uma doutrina de relações externas que faz hoje parte do nosso património político.

Pessoalmente, Jaime Gama é uma figura muito diferente da imagem que algum país dele fixou. É um conversador excecional, imensamente divertido, com uma cultura enciclopédica e profunda, apreciador requintado das boas coisas da vida. Tem ideias próprias muito arraigadas, que às vezes se chocam com algum convencionalismo, o que o não preocupa minimamente. Tenho muito orgulho em me considerar seu amigo. 

A saída de Jaime Gama - a mais bem preparada figura política da minha geração - da cena pública constitui um imenso empobrecimento para a nossa vida cívica.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Poema


Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha
Se não é, suponho que é.

Fernando Pessoa (1930)

Nada se cria

Neste lado do mundo
há um mistério:
as vozes murmurantes da noite
o sol logo amanhecido
o teu corpo moluscular crescente
o sal do tempo infalível

memória - os cães loucos
os pavores animais - a degola
assim vegetamos (minerais? )
acontecido o tempo - as vísceras
elas estão onde supomos
fervilhantes , quentes , vaporosas

    -adjectivando:
indeferentes      aplicadas
masturbam       caducam
exprimem         indiferentes

Vamos conciliar os opostos
Sorver o ar    a ponta do horizonte
Bastar o instante de um período aéreo
Devastar as sementes  alucinar o dia.

                       Carlos Eurico da Costa (1982)

Astérix

Ao lado da Bíblia de Gutenberg, de incunábulos e de outras obras raríssimas, a Biblioteca Nacional de França acaba de acolher, na sua secção de acesso mais reservado, três valiosos originais de obras de Uderzo e Goscinny, entre os quais o mítico "Astérix le Gaulois", que abriu a série magnífica de álbuns.

Histórias com um final feliz: uma certa aldeia gaulesa, completamente cercada do exterior, garantia a sua sobrevivência graças a uma poção mágica...

Sombras

Nos dias 11 e 12 de abril, no Téâtre de la Ville, aqui em Paris, será apresentado "Sombras", um espetáculo de "téâtre musical/fado", uma criação de Ricardo Pais, originária do Teatro Nacional de S. João, do Porto.

Neste ano em que tentamos que o fado possa ser consagrado como "património imaterial da humanidade", pela UNESCO, saúda-se o empenhamento de Emmanuel Démarcy-Mota na divulgação da canção portuguesa ao público parisiense.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Confiança

Estávamos nos anos 80, em Luanda.

Eu e um colega da embaixada tivemos de nos deslocar a um departamento oficial angolano, protegido por uma barreira de segurança. À entrada, com ar displicente, estava sentado um soldado, com a kalashnikov ao lado. O meu colega saudou-o da forma que era rotineira no tratamento local: "Boa tarde, camarada!".

O homem não respondeu, o que levou o meu amigo a lançar, para o "animar", num tom demasiado provocatório para o meu gosto, o moto do MPLA: "A luta continua, a vitória é certa!".

Aí, sem sorrir, a sentinela lá disse: "É... pode ser".

"Maigret voit rouge"

Que pensaria o inspetor Maigret* se, saído do 36 do quai des Orfèvres, a caminho da sua ritual "blanquette de veau" na Brasserie Dauphine, deparasse com o Palais de Justice envolto pela publicidade da Dior, como ontem o encontrei?

Talvez puxasse uma baforada no seu cachimbo e, para Janvier ou Torrence, soltasse o seu tradicional: "Je ne sais rien du tout!".

* Nem mesmo as adaptações para o cinema (com Jean Gabin) me garantem que muitos leitores deste blogue conheçam a figura criada pelo escritor Georges Simenon, que deu origem a dezenas de romances e novelas que animaram a minha geração dos amantes da literatura policial.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Mário Viegas

Alguém lembrou que acabam de passar exatamente 15 anos desde a morte de Mário Viegas. Viegas foi um grande ator e um excecional "diseur", a quem se fica a dever um trabalho muito importante na divulgação da poesia portuguesa. Vi-o pela última vez no curiosíssimo "Europa não, Portugal nunca", onde construía um diálogo criativo com a assistência e punha em causa algumas das coisas adquiridas do nosso quotidiano político.

Conheci pessoalmente Mário Viegas em 1973, durante o serviço militar. Recordo-me de ele ser já alferes, ao tempo em que eu era aspirante. Um dia desse ano, num juramento de bandeira na parada da EPAM, meses antes do 25 de abril, coube-me fazer o discurso às tropas, na minha qualidade de oficial de Ação Psicológica da unidade militar. O meu texto tinha sido construído de forma equívoca, com diversas ambiguidades, que tentavam compatibilizar a solenidade da ocasião com algumas mensagens que eu tinha por subtis (lido hoje, confesso que acho o discurso gongórico e algo pretensioso). No final, a figura militar que presidia à sessão levantou-se na tribuna e lançou, com voz forte: "Nosso aspirante, aproxime-se!". Lembro-me que fiquei gelado e lá avancei para o palanque. Afinal, era para me felicitar pela "elevação" do texto... Minutos depois, Mário Viegas comentou-me: "Quando o brigadeiro te chamou, achei que era para te dar voz de prisão". Eu também.

Aqui deixo o som de Mário Viegas no genial "Manifesto anti-Dantas", de Almada Negreiros.

Europa política

"Pequenalmocei" hoje, em trabalho, com o braço-direito de Catherine Ashton, o embaixador Pierre Vimont. Ele é o secretário-geral executivo do Serviço Europeu de Ação Externa.

Perguntei-lhe as impressões sobre o seu regresso a Bruxelas. Em 2002, Vimont saiu de representante permanente (embaixador) de França junto da União Europeia para chefe de gabinete de ministros dos Negócios Estrangeiros e, mais tarde, para embaixador em Washington.

- A União Europeia de hoje é um mundo em tudo diferente do que existia ao tempo em que ambos por lá andávamos. Tudo mudou imenso, depois da Europa "a quinze", em que todos nos conhecíamos uns aos outros. Só ias identificar alguns contínuos...

Canalhices


Um blogue publicou, há dias, o facsimile de um telegrama do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O blogue está no seu pleníssimo direito de tentar ter acesso a correspondência interna do MNE. Alguém lha facultou.

Há semanas, um jornalista referiu-se, a meio de uma conversa ao telefone comigo, ao teor de um telegrama recebido no MNE, assinado por um nosso embaixador. Perante o meu espanto e a pergunta de como obtivera o texto, replicou: "Foi alguém do MNE que mo deu...", disse, já um tanto arrependido de me ter falado no assunto. Também aqui, o jornalista fez apenas o seu trabalho.

A questão é conosco. Quando integramos o serviço público comprometemo-nos, "solenemente, pela nossa honra, que cumpriremos com lealdade as funções que nos são confiadas". Dessa lealdade faz parte o dever de confidencialidade, nomeadamente face a dados a que tenhamos tido acesso por virtude das funções que ocupamos.

Na diplomacia, os telegramas são a essência da profissão. Através deles, frequentemente, dizemos a nossa opinião sobre coisas muito sensíveis e transmitimos ao poder político informações de grande delicadeza, tendo como finalidade a defesa dos interesses do país na ordem externa. Se os diplomatas começarem a pressentir que, um destes dias, as suas avaliações ou pareceres recolhidos através de terceiros, que legitimamente não querem ser identificados, vão acabar por surgir nos blogues ou na imprensa, naturalmente que passarão a "fechar-se em copas" e a limitar drasticamente a utilização dos meios oficiais de correspondência.

Dir-se-á que ambos os telegramas a que aqui faço referência são inócuos - um é de natureza administrativa e o outro pouco longe disso. Porém, isso é completamente irrelevante. Trata-se de um telegrama e os diplomatas aprendem, no "bê-á-bá" profissional, que um telegrama é um documento "sagrado", que se lê se a isso temos necessidade profissional (na regra do "need to know") e que, depois, o "esquecemos".

Quem se sente tentado a passar para o exterior um telegrama administrativo é sempre capaz de ir bastante mais longe. Quem transmitiu os telegramas ao blogue e ao jornalista quebrou um dever de Estado. E quem infringe um compromisso que, perante o seu país, jurou "pela sua honra" só tem um qualificativo: é um canalha.

domingo, 3 de abril de 2011

Porto

Vitória suada, mas merecida, na Luz, onde o Porto mais gosta de ganhar. Uma magnífica época.

( Em tempo: diálogo de alguém, hoje, com um portista: 
- Foi muito triste ver o Benfica desligar a eletricidade no estádio...
- Não foi o Benfica! Fomos nós que apagámos a Luz... )

Revejo-me no canto superior esquerdo da imagem.

Gilberto Gil

O Chatelet esteve ontem a abarrotar para ouvir Gilberto Gil, acompanhado pelo filho e por esse génio do violoncelo que é Jacques Morelenbaum. Há mais de 20 anos (desde Londres) que não ouvia Gil cantar ao vivo e, devo confessar, fiquei rendido ao seu profissionalismo, num espetáculo onde, da música brasileira tradicional, ele saltou frequentemente para o rock e para o jazz, criando uma sonoridade apelativa para faixas muito alargadas de auditório.

No tempo em que vivi no Brasil, fui testemunha da imensa popularidade de Gilberto Gil. Um dia, o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, comentou-me que "Gil é o Lula de Lula" - querendo com isso significar que o cantor aparecia aos olhos do presidente como uma figura carismática, quase mítica, no cenário brasileiro. Por esse tempo, e para escândalo de muitos, Gil, embora mantendo-se ministro da cultura, continuou a fazer concertos pelo mundo, a ganhar dinheiro. "Não existe pecado do lado de baixo do Equador"...

sábado, 2 de abril de 2011

Comemorações

Há cerca de um ano, escrevi por aqui isto:

"Em Portugal, o 25 de abril é oficialmente celebrado com uma sessão de discursos políticos e partidários na Assembleia da República. Todos os anos, para além da aturada observação jornalística de quem leva ou não um cravo ao peito, a atenção pública volta-se para o tom e exegese dessas intervenções, que invariavelmente utilizam a comemoração abrilista para tratar a realidade da conjuntura política do presente. Assim, aquilo que poderia ser um espaço de proclamação de elegias à liberdade conquistada nessa data acaba por se transformar numa arena de severo combate político, com as diversas leituras de "abril" a servirem de arma de arremesso, mais ou menos subliminares. Julgo que ninguém, com sinceridade, acreditará que essa maratona declaratória contribui minimamente para louvar as virtualidades da Revolução e para cativar novas gerações para o culto desse momento fundacional da nossa democracia."

A decisão de, este ano, não organizar a sessão solene na Assembleia da República, devido a razões de natureza conjuntural, é uma excelente notícia.

Offshore

Há dias, a propósito de uma opinião que expressei, um amigo, vindo de Portugal, comentava: "dizes isso porque estás 'offshore' "...

Gostei da metáfora, nesta fase em que todos somos beatos do petróleo que não temos.

Costa do Marfim

O sentido dos acontecimentos na Costa do Marfim parece apontar, finalmente, para que Allassane Ouattara venha a assumir a presidência, depois de um ato eleitoral em que a comunidade internacional reconheceu a sua vitória sobre Laurent Gbagbo. São boas notícias, para aquele país, para a África e para as Nações Unidas.

Por uma vez, o Conselho de Segurança da ONU foi unânime na fixação de sanções a Gbagbo, reforçando e impondo a legitimidade do sufrágio e, muito em particular, evitando a "salomónica" partilha do poder, como havia acontecido no Quénia e no Zimbabué. Ou, o que seria ainda pior, a divisão do país, como aconteceu no Sudão - neste caso sob o inconsciente júbilo internacional, que, uma vez mais, deitou para o caixote do lixo da História a sábia regra de ouro da Carta da OUA (a qual, pelos vistos, é desprezada pela União Africana).

Esta crise deixou evidente que se vive em África um tempo de ostensiva tentativa de implantação de novos poderes regionais, que, sem surpresa, parece colocarem em segundo plano a preservação das regras democráticas, para garantirem a fixação da sua influência nacional, mesmo em zonas geopolíticas que, à partida, lhes seriam alheias. Isso aconteceu na Costa do Marfim, convém dizê-lo, devido à conjuntural auto-limitação de um vizinho poderoso (a Nigéria). E é importante que fique também dito: a teimosia de Gbagbo, com as milhares de vítimas e o custo económico e social que acarretou para o seu país, ficou muito a dever-se à esperança que colocava na sua proteção por parte de alguns poderosos amigos africanos, os quais, felizmente, perderam a parada.

O caso da Costa do Marfim suscita também, e uma vez mais, a eterna questão do que é, ou pode ser, a democracia em África. Com exceções tão escassas que já as tomamos como alheias ao próprio continente - como é o exemplo de Cabo Verde -, a grande maioria dos modelos políticos africanos funciona na lógica do "ou tudo ou nada": quem está no poder acapara o aparelho de Estado e os recursos do país, quem perde as eleições tem, as mais das vezes, como destino o exílio, a prisão ou ainda pior. Num modelo intermédio, alguns regimes "cooptam", para melhor neutralizar, personalidades da oposição, através da partilha da apropriação patrimonialista em que assentam o seu poder.

Uma conhecida escola de pensamento "do Norte", que se quer "compreensiva" com a necessidade de "evolução" desses modelos "do Sul", tidos como eternamente protodemocráticos pelas leis do destino, defende que se deve "respeitar" o gradualismo da evolução institucional desses Estados, que é necessário "compreender" algumas vantagens estratégicas, em termos de "estabilidade", que justifica a perpetuação dos seus dirigentes no poder, que há que ter "compreensão" pelas limitações que neles sofrem alguns direitos de cidadania - de acesso aos media, das mulheres, das confissões religiosas, etc. Às vezes sem se dar conta, quem assim pensa acaba por revelar um paternalismo racista e eurocêntrico, na assunção implícita de que a democracia é só para alguns eleitos, não querendo entender que só se aprende a nadar na água. Coincidem nesta escola "compreensiva", curiosamente, algumas correntes da esquerda "multiculturalista" e "porto-alegrista" e, claro!, os usufrutuários liberais das vendas de armas, das negociatas e da corrupção. E mais não digo, para não estragar o fim-de-semana. 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A cadeira

Os tempos hoje serão outros, mas sou do tempo em que o exercício discricionário da hierarquia permitia a certas chefias assumirem atitudes de forte autoritarismo. A certeza de que a opinião dos dirigentes dos serviços era uma incontornável chave para promoções ou colocações colocava os respetivos subordinados numa dependência quase humilhante. 

A memória da carreira diplomática portuguesa, aliás como de qualquer outra, está cheia de historietas de autoritários chefes. Famoso, entre nós, era um embaixador que sempre obrigava o respetivo secretário, numa capital do Médio Oriente (em que, curiosamente, já não temos embaixada), a ficar de pé, ao lado da sua mesa de trabalho, enquanto despachava a papelada do dia, às vezes por mais de uma hora. Há quem diga que o secretário deverá a essa penitência algum distúrbio psicológico que veio a revelar.

Estas patéticas expressões de autoritarismo não se ficavam pelos postos no estrangeiro, também se praticavam em Lisboa. Num verão do final dos anos 70, durante as férias de um subdiretor-geral (na altura, a designação oficial no MNE era "adjunto do diretor geral") da área económica, o lugar foi interinamente preenchido por um diplomata mais velho que, por uma qualquer razão, transitava pelas Necessidades, desde há alguns meses, sem ocupação fixa.

Aquele nosso chefe interino compensava a sua manifesta irrelevância profissional, que o mantinha oficialmente sem destino, com uma soberba de atitude de onde destilava uma importância que só ele se atribuía. Além do mais, a sua postura contrastava vivamente com o colega que estava a substituir - um homem cordial, muito apreciado pelos colaboradores.

Logo no segundo dia da presença desse episódico chefe, fui ao seu gabinete, para lhe entregar um documento. Mal levantou os olhos à minha chegada, apenas grunhindo um relutante "bom-dia" à saudação que lhe dirigi. Notei, então, que tinha desaparecido a cadeira que sempre estivera em frente à secretária. Decididamente, o homem era dos que queria ter as pessoas de pé, durante o despacho.

Passei a "boa nova" a quem comigo assegurava a permanência na Direção-geral dos Negócios Económicos, nesse verão, que já se anunciava curioso. Ao contá-la a um colega um pouco mais antigo do que eu, figura alta e com voz tonitruante, notei-lhe um brilho irónico no olhar, acompanhado de um "logo veremos!".

Na tarde desse dia, o nosso grupo de jovens diplomatas das "Económicas", que regressava do tradicional almoço nas "Espanholas" (um restaurante vizinho, onde a densidade de pessoal diplomático costuma ser superior aos níveis recomendados pela OMS...), foi surpreendido por um desafio desse nosso colega: "Vocês não querem ver a minha ida a despacho?" Porquê? "Logo verão!", disse, críptico. 

Um tanto artificialmente, colocámo-nos à conversa no "hall", para o qual dava o gabinete da chefia. Um minuto depois, o nosso colega emerge da sua sala de trabalho com uma pasta de papelada na mão, pisca-nos o olho e, decidido, entra no gabinete do nóvel chefe. Nem trinta segundos eram passados e já a porta se abria de novo, com o jovem diplomata a sair, sem papéis na mão, e a dizer alto, lá para o fundo do gabinete: "É um minuto, já volto!". E vimo-lo avançar decidido para a sua sala de trabalho.

Perplexos, interrogámo-nos sobre a cena. Ter-se-ia esquecido de alguma coisa? Algum papel? Mas, afinal, o que é que esta ida a despacho tinha de tão especial?

Tudo ficou mais claro, quando, instantes depois, o vemos regressar, a sorrir, com uma cadeira na mão, que introduziu no gabinete onde iria a despacho.

Não ouvimos, embora possamos presumir, a reação do chefe à entrada da cadeira. Mas ficou-nos para sempre no ouvido a voz muito forte do nosso colega, ainda a porta não estava totalmente fechada, a dizer: "Então não vê? É uma cadeira, para eu me sentar!".

Desde essa tarde, e pelo tempo que durou o interinato da chefia, passámos a poder contar com uma cadeira no gabinete desse esquecido chefe interino, onde sempre nos sentávamos para o despacho. Às vezes, para grandes males...

António Duarte Silva (1941-2011)

Era um homem cordial, um conversador delicioso, muito inteligente e culto. Foi autarca, governante e gestor. Conheci-o em diversas circunstâncias e sempre dele colhi a imagem de uma pessoa de grande integridade, muito dedicado aos interesses do país. 

Morreu hoje, subitamente, aqui em França.

Crise na maioria

Numa recente reunião das chefias da UMP, o partido da maioria que apoia o presidente francês, o antigo primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, pertencente à sensibilidade mais centrista, mal chegado à mesa de trabalho, dirigiu-se desta forma ao presidente Nicolas Sarkozy:

- Senhor presidente, estamos divididos e fraturados, estamos em crise, a situação é muito grave, há aqui claramente dois campos!

Conhecidas que são algumas tensões políticas que atualmente parece atravessarem a maioria governamental, os presentes na sala terão ficado algo expectantes. Raffarin esclareceu:

- Há quem aqui tenha já café e há quem ainda o não tenha...

A história vem ontem numa revista.

Nada melhor que o humor para descrispar os ambientes políticos...

quinta-feira, 31 de março de 2011

Petróleo, mentiras e árabes

Hoje, dia das mentiras, deixo aqui registada uma que ficou na memória da minha geração.

Em fevereiro de 1971, quando o mundo, e Portugal dentro dele, passava por grandes perpexidades no tocante ao abastecimento oretolífero, um rumor chegou, uma tarde, a setores políticos e jornalísticos de Lisboa: um grupo de importantes "sheiks" árabes iria passar pela capital portuguesa, tendo marcado um jantar no "Tavares", o mais emblemático restaurante da cidade. A notícia surgira, através de alguém da TAP, pelo que um membro do governo ter-se-á deslocado apressadamente de Coimbra para tentar um contacto com os visitantes, os quais talvez pudessem ser a chave para a flexibilização das condições altamente restritivas em que Portugal então vivia, no tocante a fornecimentos de petróleo.

No diário "O Século", que havia conseguido, "de muito boa fonte", a informação sobre o repasto árabe nos dourados do "Tavares", o chefe de redação, José Mensurado, decidiu enviar o repórter Roby Amorim para o local, tendo este testemunhado a chegada do Rolls Royce, com batedores, que transportava os nababescos visitantes. Estes, chefiados pelo "príncipe Iben Seddak", relutantes à intrusão jornalística, revelaram-se pouco prolixos, deixando apenas cair, através de um tradutor, escassas e pouco esclarecedoras declarações, as quais, no entanto, serviram de farto objeto, no dia seguinte, a magníficos título, notícia e fotografia, nessa "caixa" em exclusivo obtida pelo jornal da família Pereira da Rosa (de que conservo um precioso exemplar). A cinco colunas "O Século" garantia: "Negoceia-se em Teerão. Mas encontram-se árabes em Lisboa e o tema também é petróleo", referindo-se às negociações em curso sobre o chamado "Acordo de Teerão" no âmbito da OPEC.

Para o que aqui interessa: era tudo falso! Os tais "árabes", vestidos a rigor no "Paiva", eram figuras da vida social lisboeta (o chefe cozinheiro Michel da Costa, Manecas Mocelek, Nicha Cabral, Jorge Correia de Campos e outros), "O Século" foi objeto de um gozo geral (só minorado pela intervenção da censura) e o contacto credibilizador na TAP terá mesmo sofrido represálias, tal como o próprio José Mensurado. No "República", Artur Portela Filho escreveu então, na sua coluna "A Funda", uma crónica deliciosa, intitulada "Os árabes da rua do Século". Pelos cafés de Lisboa, a história (que conto de memória) deu para rir, por semanas.

O estertor da ditadura já era abalado por estas pequenas mentiras. Meses depois, surgiriam por Lisboa boatos de uma revolta militar. O regime não acreditou. Ainda bem. Era verdade.   

Em tempo: leia aqui toda esta história de forma bem mais completa.

Jornalismo

Há dias, já no auge da crise na Líbia, o jornalista da RTP, Paulo Dentinho, fez uma magnífica entrevista a Mouammar Kadhafi, um "furo" jornalístico da maior qualidade. Equilibrada e inquisitiva q.b., a conversa foi crescendo de ritmo e foi marcada pela inteligência e pertinências das perguntas, que permitiu extrair respostas curiosíssimas. 

Vi a entrevista de Paulo Dentinho ser citada, abundantemente, em toda a comunicação social internacional, com extratos a correrem o mundo das grandes televisões. Curiosamente, ou talvez não, esta excelente peça de jornalismo passou quase despercebida em Portugal, pelo menos a avaliar pelo que me chegou.

Será que se tivesse sido produzida por canais privados, com outros meios coadjuvantes de ressonância mediática, o destino português da peça teria sido outro? Deixo a pergunta.

Coincidências

Há dois dias, veio aqui a Paris, em serviço, uma amiga de Lisboa. Ao final desse dia, alguém comentou que essa pessoa era extremamente parecida com uma determinada jornalista portuguesa. 

Era verdade! Eu próprio tinha feito uma "gaffe", uma vez, confundindo as duas. Mas já não via essa jornalista há uns bons 12 anos.

Ontem, chegado ao escritório, recebo um telefonema. De quem? De Portugal, dessa jornalista, a convidar-me, em nome de uma organização onde trabalha, a fazer uma palestra em Lisboa, no início de Maio. 

Com a maior naturalidade, e para grande surpresa dela, disse-lhe: "Ainda ontem aqui falámos de si". Mas quem estava mais surpreendido era eu.

As coincidências cada vez mais me intrigam. Leiam aqui, aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Gorbatchev

Há dias, contei aqui uma historieta de Gorbatchev. Dou-me agora conta que o antigo presidente fez ontem 80 anos, recebendo homenagens um pouco por todo o mundo, que o consagram como alguém responsável por um tempo charneira da história contemporânea. Escrevi "todo mundo"? Na Rússia, apenas 14% das pessoas têm uma memória positiva de Mikhaïl Gorbatchev.

Um dia, em Março de 2000, António Guterres convidou o então ministro da Defesa, Júlio Castro Caldas, e eu para um almoço com Gorbatchev, na residência oficial, em S. Bento. Confesso que entrei para esse almoço (a cinco, porque nele estava também o intérprete que sempre acompanhava Gorbatchev) com uma elevada expectativa. Na realidade, tratando-se de uma figura que atravessara um período riquíssimo da vida internacional, que protagonizara o fim do mundo soviético, que vivera a trágica convulsão interna dessa desagregação, que fora interlocutor estratégico privilegiado dos Estados Unidos e de personagens como Thatcher, Kohl ou Mitterrand - por todas essas e por outras razões mais eu esperava ir ter um almoço memorável. Nunca comparei notas com António Guterres e Júlio Castro Caldas sobre esse repasto, mas devo dizer que saí dele um tanto desiludido com a figura que o justificou.

Mikhaïl Gorbatchev não deixa de ser uma personalidade interessante, mas, quando o aprecio à luz daquelas horas em que o ouvi, está muito longe de ser uma figura fascinante. Falou imenso, mas deu-me a sensação de ter criado e ensaiado um discurso feito à medida daquilo que os seus interlocutores dele esperariam, auto-justificativo, muito óbvio, com ideias que, como dizia o outro, quando eram originais não eram boas e que quando eram boas não eram originais. Mais tarde, ao lê-lo, voltei a não encontrar razões para mudar de opinião.

Dito isto, que fique claro!: tenho consciência de que Mikhaïl Gorbatchev é uma das grandes figuras da história contemporânea, a cujo sentido de compromisso e adesão sincera às ideias da mudança a liberdade e paz internacionais muito devem. Por isso, "nazdrovia" pelos seus 80 anos.

BFM

Fui ontem ao canal de televisão BFM, convidado a comentar a situação político-económica em Portugal. A BFM é uma espécie de SIC-Notícias da área económica, com grande penetração nos meios empresariais e dos mercados, que também lhe advém da sua ligação ao diário "La Tribune".

Dir-se-á que, nos dias que correm, a presença de um embaixador de Portugal num debate televisivo pode constituir um exercício de alto risco. Talvez seja. Mas considero que, independentemente da complexidade dos tempos que atravessamos, me compete dar notas explicativas sobre o funcionamento do nosso sistema institucional, colocando, com serenidade e isenção, as posições que definem o debate político em Portugal. E que também pode ser útil, para o espetador e ouvinte (porque a entrevista passou também na BFM rádio) francês, conhecer melhor as razões por detrás de certas decisões que Portugal titula.

O "som" da entrevista aparece neste "podcast", desde que se tenha a paciência de alguns minutos.

A economia e a democracia*

A imprensa europeia tem estado particularmente atenta, nos últimos dias, à situação política portuguesa, com especial destaque para a reprovação pelo parlamento do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), que desencadeou o pedido de demissão do primeiro-ministro José Sócrates.

Diversos líderes europeus, tal como muitos comentadores internacionais, abordaram a situação criada em Portugal, alguns deles emitindo juízos de valor sobre o sentido da decisão parlamentar portuguesa.

Ninguém terá dúvidas que, mais do que em qualquer outro lugar, esta questão foi e é objeto de uma elevada polémica em Portugal. Governo e oposição têm mantido um forte debate sobre as possíveis consequências do voto que não aprovou o PEC: o executivo diz que o mesmo vai no sentido das recomendações da Comissão e do Banco Central Europeu, que estava autorizado a executar, e a oposição considera que o governo ultrapassou o mandato que tinha para assumir compromissos na ordem externa. Esse debate, que não se encerrou ainda, acaba por ser o pano de fundo em que se projeta a ideia de convocação de eleições antecipadas.

Pelo modo como a opinião pública internacional tem vindo a pronunciar-se sobre este assunto, fica a sensação de que não se terá, porventura, interiorizado devidamente que o sistema europeu assenta, primeiro do que tudo, na afirmação democrática das instituições representativas dos seus Estados.

Poderá dizer-se que, algumas vezes, a racionalidade técnico-económica de algumas decisões poderia, em tese, estar isenta de desacordos de natureza nacional, que acabam por influenciar a eficácia do sistema colectivo.

É um erro pensar assim. No estádio que vivemos da construção europeia, a responsabilidade principal dos governantes continua a ser perante as instituições do seu país, que lhes concede a legitimidade para governar e tomar decisões.

Tal como, no passado, alguns tratados europeus caíram ou tiveram de ser retificados por referendos em alguns Estados, a Europa tem de aprender a viver com a diversidade dos seus modelos institucionais, com a diferente força dos seus governos na sua ordem interna e, por essa via, com os efeitos, paralisantes ou não, que certas posições nacionais possam vir a gerar sobre o processo coletivo. Isto é válido para o voto parlamentar que, em Portugal, estaria na origem da crise política, tal como aceitámos, com naturalidade, a decisão irlandesa de realizar um sufrágio, ou como agora aguardaremos o resultado do voto finlandês, com o seu impacto na aprovação do novo Mecanismo de Estabilidade.

No caso português, aconselho que se olhe menos para a árvore e um pouco mais para a floresta. Assim, devemos notar, em prioridade, que Governo e o principal partido da oposição, tendo estado em lados opostos na questão da aceitação do projeto de PEC, afirmaram, contudo, a sua comum e plena adesão às metas de redução do défice, não apenas para este ano, mas também para os próximos dois anos, sem a mais pequena divergência entre si no tocante àquilo a que Portugal se comprometeu perante as instituições internacionais. 

* Tradução do artigo que hoje publico no diário económico "Les Echos" (30.03.11). Texto original aqui ou link aqui.

Fico muito grato a Vasco Campilho pelo simpático post que publicou, a propósito deste artigo, no Albergue Espanhol.

terça-feira, 29 de março de 2011

José Alencar (1931-2011)

A morte deve ter andado um tanto desorientada, nestes últimos anos, com José Alencar. O vice-presidente de Lula fintava-a com regularidade, sempre com um sorriso nos lábios, num desafio constante, uma espécie de teimosia irónica. Mas tudo tem o seu fim e estava escrito que, um dia, José Alencar ia perder uma das batalhas. Que iria ser a final.

Quando, em 2003, Lula foi aconselhado a ter Alencar na sua "chapa", dificilmente poderia prever que este industrial mineiro, escolhido para lhe dar credibilidade junto do setor privado, se iria transformar num dos seus mais leais apoios, num sustentáculo valioso, que nunca vacilou, mesmo nos piores momentos dos seus dois mandatos.

Praticamente desde a minha chegada ao Brasil, tive o inestimável privilégio de poder manter com José Alencar uma relação marcada por uma forte estima e simpatia, muito influenciada pela grande amizade que se estabeleceu entre os nossos cônjuges. Fizémos parte do grupo dos amigos que o casal escolheu para uma memorável deslocação ao Rio, comemorando o aniversário do seu casamento. Recordo jantaradas divertidas em nossa casa, com José Alencar a contar-nos, com a graça imensa que tinha, as insuperáveis historietas mineiras, daquela gente que "nunca se zanga mas também nunca se reconcilia". Pena tenho de não saber reproduzir as aventuras do "Fernandinho", cuja saga, acabada num posto consular nos Estados Unidos, era um êxito garantido para as audiências. Mário Soares, Jorge Sampaio e Freitas do Amaral, entre outros visitantes portugueses, foram testemunhas do ambiente aberto e franco que a segunda figura da hierarquia brasileira sabia criar à sua volta.

Há uns meses, recebi uma simpática nota manuscrita de José Alencar, em resposta aos votos de restabelecimento que lhe havia formulado, aquando de uma das suas, cada vez mais frequentes, recaídas. Dela transparecia, para além da sua profunda ligação a Portugal, a sua imensa fé religiosa, que talvez tenha sido uma das fontes onde ia beber a sua admirável coragem.

Lamento não ter hoje comigo a garrafa da "melhor cachaça do mundo", que fez questão de me enviar, depois de eu ter elogiado o néctar, num almoço em casa de outro amigo comum, o ministro da Defesa, Nélson Jobim. Nesse dia, ainda abalado por um internamento recente, José Alencar disse-me, em voz baixa: "Temos de arranjar dois copos daquela cachacinha que ali está, com rótulo verde. Mas não diga à Mariza que um deles é para mim..."

Logo que puder, vou beber um copo dessa cachaça pela memória desse amigo, um homem bom e corajoso, que se chamou José Alencar.


Em tempo: em 31.3.11, publiquei um artigo, baseado neste post, no jornal "Correio da Manhã"

Fado

A UNESCO acabou ontem o dia a ouvir excelente fado. No âmbito da campanha para a promoção do fado a "património imaterial da humanidade", a Câmara Municipal de Lisboa, em articulação com a representação diplomática portuguesa junto da UNESCO, inaugurou em Paris uma belíssima exposição documental sobre a história da canção portuguesa, ilustrada por duas fantásticas vozes do novo fado, que nunca tinha ouvido ao vivo: Carminho e Ricardo Ribeiro.

Ouçam a primeira aqui e o segundo aqui.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Asas diplomáticas

Era (e é) um homem bastante mais velho do que eu, com um ar "grave" mas com uma imensa graça, um diplomata de linguagem franca e certeira. Chefiou postos importantes e, em todos eles, soube manter uma postura que tinha o seu quê de snobe, de aristocrático, sempre bastante irreverente, ao jeito algo britânico que cultivava.

Viajar com ele, pelo mundo, era uma delícia, pelas notas de ironia que, a cada passo, o quotidiano lhe sugeria, pelos qualificativos que colava à figura de colegas. Não se sabe bem porquê, um embaixador britânico, com um "stiff upper lip" exagerado, ficou por ele eternamente crismado de "Serafim", um antigo assessor diplomático de Belém era o "Brzezinski da Reboleira" e, a propósito de um ministro que, em meados de um qualquer Dezembro, estava a tomar-se ares de "grandeza", comentou alto, à mesa de uma reunião de trabalho, para ele ouvir: "é por esta altura do Natal que os 'pinheiros' têm o seu momento de glória"...

Um dia, viajávamos em grupo para uma capital europeia, cujo nome não é para aqui chamado. Ainda no avião, disse-me, algo angustiado como sempre foi pelas coisas da gastronomia:

- O nosso colega, que hoje oferece o almoço, é um dos embaixadores mais forretas da nossa carreira. Desde há décadas que, em casas dele, nunca comi outra coisa que não fosse frango. Você vai ver!.

Não fiquei nada preocupado, apenas curioso em saber se o meu colega tinha ou não razão.  Eu não conhecia o nosso anfitrião, que nos aguardava no aeroporto. Pareceu-me um homem simpático. Ainda antes de nos acomodarmos no hotel, fomos diretamente para o almoço que nos oferecia na residência da embaixada.

Como o grupo era grande, o embaixador tinha previsto mesas redondas. Eu ficava numa mesa distante da do meu companheiro, que o dono da casa, por óbvias razões de antiguidade, tinha levado para junto de si.

O almoço começou. Os convidados mais importantes, à volta do embaixador, foram os primeiros a ser servidos. A certo passo, o meu olhar cruzou-se com o do meu companheiro de viagem, sentado nessa mesa principal. Então, sem denotar qualquer particular expressão facial, esse meu amigo voltou-se ostensivamente para mim e, com os braços em ângulo reto, aproximou e afastou, por várias vezes, os cotovelos do corpo. O gesto não era nada elegante e, para alguns, terá parecido apenas um casual e inopinado exercício de descontração muscular. Só eu percebi: o almoço era, de facto, frango!

"Intelligent life"

A "Intelligent life" é uma revista ligada ao "The Economist", a qual, desde há um ano, tem uma edição portuguesa, da responsabilidade da Impresa. 

Segundo os seus criadores, a revista "é criada para um leitor que valoriza a vida, a cultura e a sofisticação. Das viagens à tecnologia, da moda à filantropia, arte, cinema e teatro, além do desporto, comida, bons vinhos e consumo - tudo se conjuga nesta publicação que faz pensar e suscita ideias".

Convidaram-me para publicar, na edição da primavera de 2011, algumas notas breves sobre sete cidades que me tivessem impressionado. Aqui se podem ler esses textos. E deixo imagem do palácio Livadia, de Ialta (uma das cidades retratadas), onde um dia foi desenhado um mundo que ainda não acabou por completo.

Malta

Almocei hoje com dois amigos malteses, aos quais me desculpei pelo facto de ter tido de cancelar uma conferência que, de há muito, tinha combinado que iria fazer a La Valetta, no dia 18 de abril.

Na conversa, falou-se da situação política no Mediterrâneo e das forças aéreas em presença. Um dos meus amigos malteses comentou:

- Em Malta, temos dois caças.

Eu não sabia. Pensei que Malta não tinha força aérea. O meu amigo esclareceu, com um sorriso:

- São os dois aviões líbios que se acolheram em Malta, fugindo ao regime de Kadhafi...

Economia

John Major, ao tempo em que era primeiro ministro britânico, foi um dia a Moscovo, acompanhado do seu ministro das Finanças. 

Na conversa com Mikhail Gorbatchev, num tempo difícil para uma União Soviética em franco declínio, Major perguntou:

- Senhor presidente, como qualificaria a situação económica no seu país?

Gorbatchev pensou um instante e respondeu: "Numa palavra: 'good' ".

O "Chancellor of the Exchequer" britânico não se contentou com o simplismo da resposta dada ao seu primeiro-ministro, que contradizia uma evidente realidade, e pediu ao presidente se podia elaborar um pouco mais.

Aí, Gorbatchev foi mais prolixo: "Se quer que lhe diga em duas palavras: 'Not good' "

Ouvi esta história contada esta manhã por Jean-Claude Trichet, durante um pequeno almoço de trabalho. O presidente do Banco Central Europeu foi muito explícito ao dizer que a anedota nada tinha a ver com a situação atual da economia europeia.

domingo, 27 de março de 2011

Mísia

A França é um país atento a quem, sendo originário de uma outra cultura nacional, contribui positivamente para a diversidade que o país integra.

Há cerca de um ano, numa conversa com o então ministro da Cultura português, Pinto Ribeiro, o seu homólogo francês, Frédéric Mitterrand, informou-nos que era sua intenção condecorar a cantora portuguesa Mísia, que disse muito apreciar.

Esta semana, o meu colega francês em Lisboa, Pascal Teixeira da Silva, vai fazer entrega das insígnias de "officier des Arts et des Lettres" a Mísia.

Esta é uma merecida distinção a uma figura que tem mantido, desde há muitos anos, um percurso musical de exigência e rigor, com uma atenção preferencial a um fado servida por poetas de grande qualidade, estilo que muito ajudou a conhecer em França. Ainda há semanas, aqui em Paris, Mísia encheu, em seis espetáculos consecutivos, a sala "Les Bouffes du Nord", para um público essencialmente francês, mas onde uma fiel presença portuguesa era bem evidente.

Mudar a hora

No final dos anos 90, eu vinha do norte de Portugal para Lisboa quando, num noticiário radiofónico, ouvi um "especialista" em assuntos europeus "catastrofar" sobre as supostas consequências de Portugal ter, nesse ano, decidido adotar um calendário diferente do de outros países europeus, para a mudança da sua hora legal. Para o "sábio" de extração universitária, consultado pelo telefone, a suposta (porque era apenas suposta) violação da diretiva comunitária iria acarretar consequências da maior gravidade para o futuro de Portugal na Europa, podendo mesmo vir a refletir-se no corte de "fundos comunitários". Com esta apelativa menção, estava feito o "sound bite": o jornalista mudou logo a peça nos noticiários seguintes, que passaram a abrir com "Portugal pode vir a ter menos fundos europeus, por erro do governo".

Como eu era o membro do governo responsável pelo setor, parei numa área de serviço e telefonei para a rádio, pedindo para dar a minha versão dos factos, que, aliás, era muito simples. Assim foi feito, pelo que a abertura da peça mudou para: "Governo e especialistas estão em desacordo sobre a aplicação da diretiva sobre a mudança da hora". Nada como uma boa polémica! Os "especialistas" continuavam a ser só um, mas agora já havia em cena uma entidade da qual, à partida, sempre se desconfia: o governo! Até que, farto de ouvir os dislates do "especialista", acabou por ir à antena o Francisco Saarsfield Cabral, com a autoridade jornalística de quem conhece bem estes assuntos, e lá pôs um ponto final no debate. Quando eu estava a chegar a Lisboa, já os noticiários tinham feito desaparecer o "escândalo" da hora europeia e davam relevo às filas da acesso a Lisboa, que começavam na 2ª ponte do Feijó (ainda não tínhamos inaugurado a ponte Vasco da Gama) e que já estavam a fazer perder tempo aos lisboetas. Lá se ia, assim, mais uma hora...

Recordo-me que o tema da hora portuguesa, e do seu alinhamento ou não com a hora do resto da Europa ocidental, tinha sido objeto de uma animada discussão em conselho de Ministros, em 1996, com a expressão de alguma divisão de opiniões. Esta é uma questão que tem diversas vertentes, económicas e sociais, as primeiras ligadas aos consumos de energia e à compatibilidade de funcionamento internacional de serviços, as segundas ligadas ao ciclo diário de luz solar e a respetiva compatibilidade com os ritmos biológicos das populações, com os horários de entrada das crianças nas escolas, com as consequências de tráfego com pouca luz, etc. Este não era, nem é ainda hoje, um tema consensual.

Mas sobre isto e outras curiosidades desse tema fascinante que é o tempo, aconselho que consultem o magnífico (e belo) blogue Estação Cronográfica, de Fernando Correia de Oliveira.

Imprensa

Ignácio Ramonet, que dirigiu o "Le Monde Diplomatique", acaba de publicar uma reflexão sobre o mundo da informação, com especial atenção no futuro dos jornais: o livro "L'explosion du journalisme". É o retrato de um mundo em rápida mutação, que nos ajuda a perceber coisas tão importantes como o estilo imediatista da escrita jornalística contemporânea, as exigências colocadas a quem atua na imprensa, o papel das escutas e dos "leaks". etc.

Anoto esta interessante constatação no trabalho: "Em 2008, a audiência do New York Times na sua versão internet era 10 vezes superior à sua edição impressa. Contudo, as suas receitas publicitárias através da internet eram 10 vezes inferiores às da edição em papel. Assim, para que a publicidade na internet se afirme, o número de leitores pelo écran terá de ser 100 vezes mais importante que o da versão em papel".

Dá que pensar...