Seguidores

Se quiser ser informado sobre os novos textos publicados no blogue, coloque o seu email

quarta-feira, julho 17, 2024

Mais velho


Há uns anos, numa conversa de família, alguém me perguntou um dado qualquer sobre um nosso antepassado. Disse que não sabia. A pessoa em causa reagiu assim: "Se tu, que és o mais velho, não sabes, então ninguém sabe".

Nesse instante, interiorizei algo que era muito óbvio, uma evidência, mas que ainda não tinha explicitado perante mim mesmo: era, por ali, na minha família materna, "o mais velho", conceito que não tendo, entre nós, a simbologia social prestigiante que tem nas sociedades africanas, era uma realidade que, desde há uns anos, se me impunha, por muito que eu evitasse encará-la. Tinham partido os avós, tinham-se ido os pais e os tios, ficaram apenas os primos. E, de entre eles, eu era, definitivamente, o mais velho.

É um estatuto estranho. Não nos traz a menor autoridade, salvo, às vezes, uma cadeira mais simpática em alguns jantares ou um lugar cómodo num sofá, em reuniões de família. Ou ser dos primeiros a ser servido de café e de whisky. Pouco mais.

Ser velho, por muito que assobiemos para o ar, não é coisa agradável, ainda que persista uma narrativa social, artificialmente animada, que pretende edulcorar a coisa. Ser velho - deixemo-nos de tretas! - é uma chatice, é ter à nossa frente, essencialmente, um crescente passado. Ser "o mais velho" é tudo isso ao cubo. 

Por que razão me lembrei disto hoje? Porque acabo de saber do falecimento de uma senhora que, por muitos e bons anos, foi uma grande amiga de toda a nossa família - dos meus avós, do meus pais, dos meus tios, dos meus primos -, pessoa que, não tendo connosco um parentesco formal, sempre vimos como muito próxima, "one of us", como dizem os anglo-saxónicos. Vê-la desaparecer é como assistir ao fechar, agora de forma definitiva, de uma porta geracional que, através dela, ainda se mantinha entreaberta, pela memória, para quem nos antecedeu. A sua existência atenuava a minha condição de "mais velho". A sua saída de cena consagra isso, em definitivo.

Humor castanho