Em tempos que há muito já lá vão, tive uma tia avó que, ao falar-nos de como ia a vida dos filhos e dos respetivos netos, só relatava insuperáveis venturas. Quando, uma vez por outra, passávamos a visitá-la, na cidade distante onde vivia, para um chá e uma conversa a matar saudades, as notícias eram invariavelmente gongóricas. Os casamentos ou os namoros iam sempre lindamente, com gente do melhor, de famílias simpaticíssimas (mais do que simpatiquíssimas, portanto), os empregos ou os negócios de cada um eram só sucessos, cada qual melhor do que o outro.
Depois, com a passagem dos meses e anos, ia-nos chegando a realidade. Os tais laços românticos tinham redundado, algumas vezes, em separações ou em divórcios, conflitos pessoais insanáveis tinham emergido, tinha ocorrido o desemprego de algum, a falência de outro, às vezes a forçada emigração de outro ainda. Nada que fosse incomum à generalidade das famílias, só que, ironicamente, acabavam por ser factos contrastantes com o quadro idílico que tínhamos ouvido, nas anteriores narrativas daquela senhora. E, às vezes, chegava a ser penoso, ao revê-la, encontrá-la teimosamente afirmativa, nunca querendo dar parte de fraca, embora esforçada no adaptar do discurso, já com os exageros de esperança a esconderem as verdades da vida.
A senhora minha tia não falava inglês. Por essa razão, mesmo que quiséssemos (e não queríamos) nunca lhe poderíamos explicar que os anglo-saxónicos têm a expressão "wishful thinking" para designar pensamentos e mitos auto-sossegantes, desenhados apenas pelos desejos, que frequentemente tropeçam na realidade.
Ontem, ao ouvir alguns comentários sobre os resultados da ida de Zelensky aos Estados Unidos, lembrei-me muito daquela minha tia.