(Vamos lá ver se consigo escrever isto escapando às pedradas morais do politicamente correto. Duvido, mas vou tentar).
Era um casal que recordo na casa dos 50 anos. Julgo que o marido teria uma qualquer ligação à minha família paterna, em Viana do Castelo. Em vida da minha avó, e ela morreu na primeira metade dos anos 60, eles iam visitá-la, algumas vezes ao ano, deslocando-se da localidade próxima onde habitavam.
A vida desse casal tinha, num passado já longínquo, atravessado uma crise. À senhora tinha-lhe fugido um dia o pé, e o resto, para uma traiçãozita romântica, de algumas sérias proporções, que terá abalado o matrimónio, embora não o arruinando em definitivo. Era precisamente o facto de constar que o marido tinha acomodado, talvez com exagerada complacência, o deslize da senhora que motivava algumas graçolas na ala masculina da nossa família.
Recordo que estamos a falar do final dos anos 50 e início dos 60, de uma cidade de província, onde, como em todo o país de então, prevalecia uma cultura predominantemente machista. Uma "traição" feminina era uma "desonra", uma "aventura" masculina era, pelo contrário, uma "ousadia". As coisas eram assim, goste-se ou não de as olhar hoje com outros olhos. Um marido traído era, para poupar palavras, um "corno", uma mulher enganada era apenas uma "coitada". Repito: era assim e não vale a pena "chover no molhado".
Eu era miúdo, ia a Viana com os meus pais umas três vezes por ano e, em algumas dessas ocasiões, acontecia o tal casal passar lá por casa. Com a idade que tinha, não fazia a menor ideia da historieta, nem os tais pecadilhos, se os conhecesse, seriam por mim entendidos. Contudo, a certa altura, comecei a notar que uma pessoa da nossa família, figura brincalhona por natureza, sempre que era anunciada a chegada daquele casal, começava a trautear, baixinho, uma certa música, que, mais tarde, vim a saber tratar-se de um conhecido "pasodoble", que era (e imagino que ainda seja) muito tocado nas touradas. Observei então que quase toda a gente sorria, ao ouvir aqueles acordes. E também que o trauteio era suspenso no instante da entrada do casal na sala, o qual, curiosamente, era assim recebido sempre num ambiente muito risonho, que os visitantes seguramente atribuiam ao regozijo provocado pela sua aparição. Por mim, um dia, perdida a inocência, lá cheguei à explicação de tudo.
Com os anos, na minha família paterna, o trautear desse "pasodoble" passou para sempre a ser usado como referência implícita a qualquer história de traição feminina (nunca masculina, machismo oblige). E esta referência foi-se espalhando risonhamente pela minha geração e dos meus primos (a geração seguinte não irá prolongar esta memória, porque ninguém lha transmitiu, podem ficar sossegados as/os puristas). E, ainda hoje, se alguém, entre nós, é ouvido a trautear a melodia, é certo e sabido que vem aí a caminho alguma historieta de "gossip" picante...
Há umas semanas, passei pelo que resta da praça de touros de Viana do Castelo, na Argaçosa, junto às Azenhas do Dom Prior. Está agora revestida de uma estrutura, julgo que metálica, para a preparar para um qualquer destino desportivo. E como a todos nos acontece em certas alturas, perante um determinado estímulo de memória, dei comigo a assobiar uma música. Adivinharam: era esse "pasodoble". E lembrei-me então desta história. Isto é como as cerejas.
