quinta-feira, setembro 28, 2023

Transnístria

Não nos devemos admirar se, um destes dias, viermos a assistir a uma ação militar da Moldova na Transnístria, seguindo o exemplo do Azerbaijão no Nagorno-Karabakh. A crescente retórica do governo moldavo pode indiciar esse caminho. E os EUA e a UE apoiariam essa ação, pela certa.

24 comentários:

Luís Lavoura disse...

Aventureirismo militar. A Moldova provavelmente pagaria um preço não muito baixo por tal ação: a Rússia não deixaria de lhe enviar alguns mísseis para cima. Não há necessidade...

7ze disse...

Só que na zona franca são russos e não uma nacionalidade "menor". Todo moldavo sabe que não tem unhas para tocar nesse ninho de vespas. Ao contrário dos "corajosos" ucranianos.

Joaquim de Freitas disse...

Transnístria” ou Pridnestrovie” (perto do Dniester, em russo)?. Ou, mais precisamente, a República Moldava do Dniester, em homenagem ao rio que corre ao longo do território da entidade estatal.

O caminho parece dificil para este Estado sem naçao ! Com 1/3 de moldavos, 1/3 de russos e 1/3 de ucranianos ... Bonne chance...

E sobretudo com uma lingua, o moldavo , que usa o alfabeto latino, diferente do romeno, muito falado na provincia,que usa o alfabeto cirílico.

Quando li a eleição do Presidente da Moldávia, Maia Sandu, em 2020, que resultou num reforço d, pensei na Ucrânia !. À sua chegada à chefia do país, em Dezembro, o site oficial da presidência eliminou a escolha do “moldavo” como língua de leitura e substituiu-a pela do “romeno”. Um Zelensky em gestaçao?

O seu movimento foi tão forte que a elite moldava considerou uma fusão entre o seu país e a Roménia. Estas fusoes criam sempre descontentes.

Francisco F disse...

Se desse resultado, seria ótimo. A Moldávia poderia voltar a ter paz, o ninho de vespas ali colocado pela URSS acabaria e haveria mais segurança para toda a gente.

Há que lembrar que a Transnístria é um território sequestrado por uma minoria "russa" e que ninguém reconhece como outra coisa que não seja parte integrante da Moldávia (com exceção da Rússia).

Agora, é preciso ver que na guerra civil alimentada pela Rússia, o exército da Moldávia não foi capaz de pôr termo àquela bizarria de "sonho soviético". Seria capaz agora? E como se portariam as tropas russas instaladas naquele pobre país? Lutariam contra os Moldavos? Teríamos mais uma guerra? Um ensanduichamento entre os Moldavos e os Ucranianos certamente teria hipóteses de êxito e permitiria aos ucranianos não terem mais de se preocupar com a sua fronteira ocidental.

A Rússia tem muito material militar guardado na Transnístria. Custa-me a crer que as tropas russas se abstivessem de ação ou os russos aceitassem retirar-se com direito a levarem a cangalhada que lá guardam.

Mas podemos sempre sonhar... Tal como - apesar do sorriso divertido -, sonhava o meu colega moldavo quando me contava histórias da Transnístria.


Já agora, quem tiver curiosidade poderá ir ver os mapas e reparar no requinte de malvadez soviética que deu à Ucrânia uma finíssima faixa de território que isola a Moldávia do mar. Uma coisa perversa!

Nuno Figueiredo disse...

o Ceptro de Otokar, é o que se me ocorre.

Luís Lavoura disse...

o requinte de malvadez soviética que deu à Ucrânia uma finíssima faixa de território que isola a Moldávia do mar. Uma coisa perversa!

Exatamente. Um requinte de malvadez soviética. Uma perversidade. Nem mais!

É por isso que é perverso, quando se transforma uma federação num conjunto de Estados independentes, como foi feito na Jugoslávia e na URSS, pretender que as fronteiras dos estados federados passem a ser fonteiras de países independentes. Precisamente porque é completamente diferente desenhar fronteiras administrativas de estados federados, de desenhar fronteiras reais de países independentes.

Uma coisa é a fronteira que separa a Sérvia da Croácia no interior da federação jugoslava; outra coisa muito diferente é a fronteira que separa uma Sérvia independente de uma Croácia independente. E o mesmo se diga de uma Moldávia e uma Ucrânia, ou uma Ucrânia e uma Rússia.

Estados de uma federação não são a mesma coisa que países independentes.

Unknown disse...

Oxalá!

Joaquim de Freitas disse...

Luis Lavoura disse; "É por isso que é perverso, quando se transforma uma federação num conjunto de Estados independentes, como foi feito na Jugoslávia e na URSS"

Exactamente. Mas quando convém de criar um Kosovo para instalar uma poderosa base militar americana...

Mesmo uma base militar americana ou prisão "especial" especializada na tortura, num país independente, como Cuba...

Como gostaria que o Texas, roubado ao México pelas armas, pedisse a sua independência …

Francisco F disse...

Lavoura,

No dia em que a Moldávia quiser repor a fronteira sul da antiga Bessarábia, não invadirá a Ucrânia, não organizará ataques terroristas, não fará chantagem económica... Usará a diplomacia, que é a maneira como as nações civilizadas resolvem os assuntos.

Já agora, aproveito para o relembrar de que a Rússia concordou com as fronteiras ucranianas em tratado internacional e até se comprometeu a ser uma dos garantes da sua inviolabilidade.

A desonestidade e a brutalidade andam amiúde de mão dada.

Francisco F disse...

"E sobretudo com uma lingua [SIC], o moldavo , que usa o alfabeto latino, diferente do romeno, muito falado na provincia [SIC],que usa o alfabeto cirílico."

Um exemplo de quando a propaganda se atrapalha...


Passando à frente de disparates, ficam aqui os factos:

1) O "moldavo" é uma variante do romeno; tal como o "flamengo" o é do holandês; o "valenciano" o é do catalão ou o galego o é do português.

2) A URSS, seguindo a velha máxima de "dividir para reinar" impôs o termo "moldavo" (tal como em Espanha se faz com o "galego" e o "valenciano").

3) Tal como na Galiza ("reintegracionismo"), também na Moldávia existiu/existe um movimento de aproximação ortográfica à norma romena, naturalmente combatido pelos saudosistas da URSS e por nacionalistas de pacotilha (a mando da Rússia).

4) 1991: a declaração de independência da Moldávia estabeleceu o romeno como a língua oficial do novo país.

5) 1994: a constituição "mudou" o nome da língua para "moldavo.

6) 2003: o Parlamento legislou no sentido de considerar "romeno" e "moldavo" a mesma coisa.

7) 2013: o Tribunal Constitucional deliberou que a declaração de independência impunha-se à Constituição e, portanto, "romeno" era o nome da língua falada na Moldávia.

8) 2023: o Parlamento aprovou uma lei para que o termo "romeno" substitua "moldavo" em todos os textos legislativos.

8) Na Ucrânia, a designação "moldavo" também está a ser substituída por "romeno".


Todas estas "informações" são verificáveis através da consulta de documentação oficial online, enciclopédias e notícias. É provável que no Avante, Pravda ou publicações financiadas pelo FSB as coisas sejam diferentes.


Temos, portanto, que a questão "moldavo x romeno" é essencialmente uma tática de desestabilização política promovida pela Rússia no sentido de dividir os moldavos e gerar um afastamento relativamente à "mana grande" (a Roménia). Na Moldávia existe quem ache que o país se devia juntar à Roménia - algo que deve pôr os cabelos em pé aos russos -, e criar fossos assentes em pretensas diferenças linguísticas é uma maneira fácil de criar tensões. É uma velha tática - coisa de manual, mesmo -, e, mais uma vez, chamo a atenção para o exemplo espanhol.


Fica aqui o link para a Wikipedia que - importante! -, tem ligações para conteúdos moldavos: https://en.wikipedia.org/wiki/Moldovan_language

Aproveitem para ler um pouco em romeno - vão ver que entendem (embora possam ficar com uma dor de cabeça).

Luís Lavoura disse...

Os comentários de Francisco F e de Unknown mostram que este blogue é visitado por alguns guerreiros de sofá, aos quais a guerra já existente não é suficiente e que lhe querem adicionar ainda mais guerra.
Eu sugeriria a esses guerreiros de sofá que calcem umas botas e que vão boots on the ground lá para a Ucrânia ou Moldávia, exercitar os seus dotes marciais. Sugestão que faço a todas as outras pessoas que apreciam (de longe) a atual guerra.

Luís Lavoura disse...

A Moldávia faria bem em escutar atentamente aquilo que nos últimos dias foi dito por dois ministros do governo russo, Choigu (Defesa) e Lavrov (Negócios Estrangeiros): que o destino da Ucrânia é, ou capitular, ou desaparecer como Estado. Somente esses dois destinos são aceitáveis para a Rússia.

Unknown disse...

É comovente o respeito que Luís Lavoura tem por Choigu e Lavrov. Na impossibilidade de ir defender a Ucrânia e a Moldávia por falta de dotes marciais, sugere Luís Lavoura que esses países se entreguem, quais cordeiros sacrificiais, às mãos dos verdugos, digo, queridos russos?

Luís Lavoura disse...

Francisco F

O "moldavo" é uma variante do romeno; tal como o "flamengo" o é do holandês; o "valenciano" o é do catalão ou o galego o é do português.

Eu não sou um linguista e não me quero pôr a falar daquilo que não sei. Mas tenho um colega que, por ter vivido muitos anos nos Países Baixos, e lá regressar frequentemente, fala perfeitamente neerlandês - e flamengo também. E aquilo que ele me diz, e já exemplificou falando, é que, embora o flamengo escrito seja o mesmo que o neerlandês, na pronúncia eles são extremamente diferentes, e até quase mutuamente ininteligíveis. Não parecem nada ser a mesma língua!

Também o galego não é propriamente português. O galego atual está a meio caminho entre o português e o castelhano. Eu já falei com galegos, e o entendimento mútuo não é propriamente perfeito.

Há também a questão dos dialetos. Distinguir uma língua de um dialeto não é nada trivial. Por exemplo, na Áustria, que formalmente é um país de língua oficial alemã, aquilo que o povo tradicionalmente fala(va) são diversos dialetos imensamente diferentes do alemão - com gramática e vocabulário marcadamente diferentes. Há que distinguir entre a língua oficial de um país - que no caso da Moldávia é o romeno - daquilo que o povo tradicionalmente fala - que podem ser dialetos muito diferentes da língua oficial.

Francisco F disse...

Lavoura, que agressividade é essa, homem?!

Ficou ofendido com o meu comentário sobre a desonestidade e brutalidade russas? Paciência!

Já agora, era capaz de fazer sugestão equivalente a quem defende os regimes comunistas? Uma coisa do tipo "faça as malas e vá para Cuba"? Era, ou não? É que tem aqui bons destinatários para as suas sugestões.

Já agora, o seu comentário sobre os ministros russos, deixa-me com um bichinho atrás da orelha: está a preparar-se para aceitar um ataque russo à Moldávia caso a dita tente resolver um problema interno?

joão pedro disse...


Nem todos, caro Luis, possuem essa clarividência. Não querem aceitar a derrota inevitável. Um ressurgido Eército Vermelho vai completar a tarefa de libertação dos títeres que governam o chamado Ocidente alargado e fazer, agora, a etapa Berlim - Atlântico. Deviam começar por ouvir o Major-General Agostinho Costa em matéria de geo-política e geo-estratégia para melhor entenderem o Mundo...

Tertúlia disse...

Francisco F disse...

«1) O "moldavo" é uma variante do romeno; tal como o "flamengo" o é do holandês; o "valenciano" o é do catalão ou o galego o é do português.»

Com todo o respeito que merece a afirmação de Francisco F, não é isso que acontece com o Galego e com o Português. Vale a pena recordar a explicação tão clara dada pelo investigador e mestre na matéria Fernando Venâncio, no seu Livro (Assim Nasceu uma Língua - Sobre as origens do português (6ª Edição) de Fernando Venâncio - Edição Guerra e Paz): O Galego existe desde o Século IV e o Português só surge no Século XIV. Portanto, historicamente aconteceu o inverso: o português é uma variante do galego e a autonomia singular do Estado onde ele é falado tornou-o numa língua universal a partir do Século XVI em diante.

Luís Lavoura disse...

Unknown

Eu não tenho qualquer "respeito" por Choigu nem por Lavrov. Só penso que as posições do governo russo devem ser conhecidas, para que se possa decidir, de forma realista, como lidar com elas, e para que não se faça disparates nem se alimente esperanças irrealistas.
Há por exemplo nos EUA umas pessoas que sugerem que se faça um cessar-fogo nas linhas ucranianas e russas atuais - os russos ficariam com aquilo que conquistaram e o resto da Ucrânia poderia, sem objeções, aderir à UE e à NATO. Tais propostas têm um importante senão: os russos não as aceitariam. Portanto, nem sequer vale a pena considerá-las, porque os russos continuariam a guerra mesmo que se tentasse implementá-las.
Também não sugiro à Ucrânia que se entregue à Rússia "qual cordeiro sacrificial" - somente faço notar que é isso mesmo, e nada menos que isso, que o governo russo quer que ela faça.

Luís Lavoura disse...

Francisco F,

a Transdnístria não é "um problema interno" da Moldávia. É um problema externo. Quer os países "ocidentais" o reconheçam oficialmente quer não, a Transdnístria é um país independente da Moldávia, e qualquer ação militar da Moldávia contra a Transdnístria poderá gerar uma guerra internacional. Coisa que eu não quero que aconteça - para guerras na Europa, a da Ucrânia já me chega e sobeja. Ao contrário do Francisco F, que pelos vistos gostaria de ter mais essa guerra - mas por isso mesmo lhe faço a sugestão, se gosta de guerras contra a Rússia então vá para a Ucrânia como voluntário para combater os russos, certamente que encontrará lá muita e boa companhia.

Quanto ao "ir para Cuba", não o sugiro a ninguém, eu pessoalmente nunca fui a Cuba, não tenho o menor desejo de lá ir, e não aconselho a ninguém que lá vá.

Defesa de regimes comunistas, também não é comigo, eu sou um anticomunista primário desde há dezenas de anos, nunca fui comunista nem disso estive perto.

Francisco F disse...

Tertúlia,

No contexto da presente discussão isso é uma picuinhice. Português, Galego Internacional, Galaico-Português... acho que toda a gente percebeu.

Daqui a umas dezenas de anos, quando o o "galego" se extinguir por incúria dos portugueses a questão fica resolvida, pronto.

Joaquim de Freitas disse...

Francisco F atrapalhou-se com as linguas ...Repito que os moldavos da Transnístria falam romeno, mas a sua língua chama-se "moldavo" e é escrita no alfabeto cirílico, enquanto o moldavo da Moldávia é escrito no alfabeto latino, como na Roménia. Compreendeu agora ?

E que contrariamente à Transnístria, o flamengo, variante do neerlandês, falado no norte da Holanda e Oeste, da Holanda, utiliza o mesmo alfabeto que as outras duas línguas, que são o francês e o alemão.

Acontece que falo alemao. Nao me atrevo a discutir negocios com um flamengo...


"Aqui no es Espana" dizem eles nas estradas, quando atravessamos o Minho...Também não me parece que seja Portugal, mesmo se nos compreendemos. Foi D.Dinis que instituiu a língua portuguesa não? Quando?


Quando escreve que a questão "moldavo x romeno" é essencialmente uma tática de desestabilização política, va dizer isso aos 30% de russofonos da Transnistria ! Eles jà lhe responderam em 1992.

Dizer que no dia em que a Moldávia quiser repor a fronteira sul da antiga Bessarábia é como dizer que no dia em que a Ucrânia quizer repor a fronteira ucraniana no leste do Donbass...

Luis Lavoura tem razao: Os guerreiros de sofà ...











Francisco F disse...

Mais outra pérola:

"(...) E que contrariamente à Transnístria, o flamengo, variante do neerlandês, falado no norte da Holanda e Oeste, da Holanda (...)."


Não. O Flamengo é falado no norte da Bélgica.

Joaquim de Freitas disse...

Francisco F : Guarde a pérola... Vale muito !

O campo linguístico do holandês na Europa abrange um país inteiro e meio país: os Países Baixos e as províncias do norte da Bélgica.

A língua neerlandesa não termina, portanto, na fronteira de um Estado, o que é uma fonte de confusão.

O adjectivo holandês tem, na verdade, uma conotação dupla. Na geografia política, holandês é equivalente a “dos Países Baixos”: pode referir-se tão facilmente, por exemplo, ao rei dos Países Baixos como às suas tulipas.

Em termos de linguagem, o adjectivo holandês tem subitamente uma extensão maior: “da Holanda e da metade norte da Bélgica”. Mas sim!

Francisco F disse...

É impressionante como o Joaquim Freitas, para além de nunca aceitar que está errado, consegue dar respostas a coisas que os outros não escreveram.

Ele diz que o Flamengo é falado no NORTE e OESTE da Holanda.

Eu corrijo-o para dizer que o Flamengo é falado no NORTE da Bélgica.

Ele replica que o Holandês é falado em país e meio.

Enfim, a partir de certa altura vale mais uma pessoa rir-se do que chatear-se...

Que Praga!

Ainda bem que o jogo acabou. Estava farto de ouvir chamar Chéquia à República Checa.