Para deixar as coisas claras, e para benefício dos leitores, existem dois Congos: este, cuja capital é Brazzaville, pelo que vulgarmente é designado por Congo-Brazza, e o país do outro lado do rio Congo ou Zaire (pelo qual, já agora!, andou e deixou padrões, no século XV, o meu conterrâneo vila-realense Diogo Cão), a República Democrática do Congo, também chamada de Zaire, que tem por capital Kinshasa, e que já teve como líderes figuras do jaez de um Mobutu ou de um Laurent Kabila, como talvez se lembrem.
No poder, no Congo-Brazza, esteve, pelo menos até ontem, Denis Sassou Nguesso. Agora, tinha-se deslocado a Nova Iorque. para intervir na Assembleia Geral da ONU e, por uma vez, poderia ter-se-lhe aplicado a fórmula que eu ouço desde a infância: "quem vai ao mar, perde o lugar". Logo se verá!
Nguesso tem uma grande experiência do lugar de presidente: esteve nesse cargo de 1979 a 1992 e, depois de um interregno, de 1997 até agora. É fazer as contas! São 39 anos. E teve uma filha que foi casada com o líder do vizinho Gabão, Omar Bongo, homem já desaparecido há uns anos, que também tinha alguma experiência do poder: foi presidente por 42 anos. O filho de Omar Bongo, Ali, de seu nome, foi à vida, há semanas, por um "movimento das forças armadas" qualquer.
Creio (mas posso estar enganado) que Portugal nunca teve uma embaixada em Brazaville. Mas tivemos, por lá, por muitos anos, uma figura extraordinária como cônsul honorário, o José Fernandes. Fernandes era um verdadeiro português dos trópicos: influente, com excelente "trânsito", cordial e conhecedor da terra como ninguém.
De uma das vezes que estive em Brazaville, além de algumas cenas que para sempre não poderei contar, assisti a duas extraordinárias manifestações da rara influência do José Fernandes, que era, aliás, figura com acesso fácil a Nguesso, como vim a confirmar por outras fontes.
Numa delas, perante o interesse manifestado pelo chefe da nossa delegação de se encontrar com um determinado ministro, que sugeriu poder ir visitar no seu gabinete, o José Fernandes reagiu: "Essa agora! Não vai nada ao gabinete dele. Eu chamo o ministro a minha casa e encontram-se lá". E chamou...
A segunda foi também de mestre. Por uma qualquer razão, chegámos demasiado cedo ao aeroporto, onde íamos apanhar um voo para Paris. A sala VIP, dado o adiantado da hora, estava fechada. O embaraço coletivo durou um segundo: com um sorriso, o José Fernandes sacou da chave que tinha de acesso à sala. E logo partiu para o bar, servindo os integrantes da nossa delegação.
Tenho saudades do José Fernandes, um homem simpático, já desaparecido há uns anos, que voltei a reencontrar, tempos mais tarde, num jantar, em que me recordo que estava também o meu colega e amigo, embaixador Leonardo Mathias, que creio teve lugar em Linda-a-Velha. Na ocasião, o José Fernandes disse-me: "Nunca me esqueci de uma coisa que o doutor me contou em Brazza, numa noite: que há um "José Fernandes", uma figura importante, num livro de um escritor português. Pode dizer-me o nome do livro?"
Não sei se o José Fernandes chegou a ler "A Cidade e as Serras", onde um seu homónimo é uma espécie de "compère" do Jacinto, de Paris a Tormes, com comboios, favas e primas pelo meio. Mas o "nosso" José Fernandes de Brazzaville, embora, que eu saiba, não esteja ainda retratado na nossa literatura, tinha, incomparavelmente, mais graça como figura do que o homem de Guiães.
