O autor e cantor Pedro Abrunhosa, perante uma questão que todos sabemos que fratura a emoção nacional, como é o caso da invasão russa da Ucrânia, disse algumas coisas fortes sobre Vladimir Putin.
Era só o que faltava que o não pudesse fazer! Vivemos num país livre onde Abrunhosa, estou certo, interpretou o sentimento de uma grande maioria de pessoas, muitas das quais, porventura, talvez não tivessem usado as palavras que Abrunhosa usou, mas as sentiram como merecidas. Repito, Abrunhosa esteve no seu pleno direito de fazer o que fez.
A embaixada russa, numa reação de virgem ofendida, a cheirar a tentativa de censura, a lembrar outros tempos deles e também nossos, veio ameaçar Abrunhosa com um processo. Nada mais ridículo! O nosso MNE respondeu-lhe à letra.
Entretanto, Zelensky e a mulher decidiram fazer umas fotografias para a Vogue. Cada um é livre de ler esse gesto da maneira que lhe apetecer e quiser. Continuamos em Portugal, continuamos num país livre. Um país onde Abrunhosa tem o direito de dizer de Putin o que Maomé não diz do toucinho (como o faz imensa gente, na comunicação social e não só) e onde, da mesma forma, quem quiser pode achar o que muito bem lhe apetecer sobre Zelensky, elogiá-lo ou vilipendiá-lo, além de igualmente ter o direito de achar insensata a exposição que o casal fez na revista. Ou entender exatamente o contrário: considerar que essa atitude foi a atitude certa, para a defesa e visibilidade da sua causa, com elegância e beleza fotográfica.
A mim, confesso, o que mais me custa, porque revelar bem que, no fundo, somos um país pouco livre e bastante seguidista, é não assistir a defensores da causa ucraniana a considerarem que Abrunhosa foi longe demais, ao dizer o que disse de Putin, lamentando, de igual modo, não ver críticos ferozes da liderança de Kiev, quiçá mesmo simpatizantes da causa russa, a terem a independência de espírito para virem a público defender Olena e o marido, na sua legítima opção de serem fotografados pela lente mágica da Leibovitz.
Infelizmente, o que por aí vimos foi apenas o óbvio: os pró-russos escandalizados com o palavrão de Abrunhosa sobre o ditador russo e os pró-ucranianos a defenderem a opção fotográfica do casal presidencial de Kiev Ora bolas! Isto assim não tem a menor graça.