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quinta-feira, julho 14, 2022

A arrogância dos peões


Há muitos anos, quando fui viver para a Noruega, usufruí, pela primeira vez, do prazer de viver em cidades em que as passadeiras para peões eram respeitadas, em absoluto. Atravessar uma rua não era ali uma aventura, era algo que se processava com imensa naturalidade e segurança.

A regra norueguesa tinha, contudo, um duplo sentido. Um peão que quisesse atravessar uma passadeira estendia o braço, dando um sinal aos condutores para pararem. Mas se, na via, seguia um automóvel com alguma velocidade, notava-se que havia o cuidado, por parte dos peões, de aguardar um pouco, antes de atravessarem. É que é sempre muito mais fácil a uma pessoa suspender o passo e, por um instante, deixar de avançar do que ao condutor de uma viatura, com um peso de toneladas, travar e parar o seu movimento. Julgo ser uma mera questão de bom senso.

Por que escrevo isto? Porque é muito triste constatar o que se vê cada vez mais entre nós, em Portugal: pessoas a entrar nas passadeiras sem dar um sinal mínimo às viaturas que seguem à sua velocidade autorizada, sem sequer olharem para os carros que se aproximam, outras a ”passear” por elas, deliberadamente, de forma lenta, de um modo quase provocatório, muitas vezes a falar ao telemóvel ou a olharem para ele, frequentemente à conversa com um parceiro. 

Acresce ainda que, se para o peão, todas as passadeiras são basicamente iguais e se comporta da mesma forma perante elas, para o automobilista isso não é assim: há passadeiras que não estão sinalizadas, algumas estão apagadas, outras são menos bem iluminadas depois do cair do dia. O condutor de uma viatura é, muitas vezes, surpreendido pela existência de uma passadeira que dificilmente identifica, entre tudo aquilo a que tem de estar atento na condução: todos os sinais de trânsito, eventuais obstáculos, outros veículos, etc.

Está criada, no insconsciente coletivo, uma espécie de hierarquização de direitos: o peão tem direito a tudo, até a abusar e ser ostensivo nesse abuso. O automobilista vive sob uma espécie de complexo de culpa, como se ter um carro fosse ”crime”, um privilégio que é necessário “punir” e, para expiar a sua indizível culpa, devesse vergar-se ao excesso de atitude do peão.

Constata-se hoje um ostensivo abuso dos seus direitos por parte dos peões, numa atitude que tem muito de saloia, numa espécie de novo-riquismo, como quem diz, em silêncio: “Olha lá! Vou gozar, até ao absurdo, o direito que ganhei!”. Ora se um peão tem os seus direitos, o automobilista não os tem menores. Ambos devem ser respeitados e nenhum se sobrepõe ao outro.

Termino lembrando o que diz o nº 2 do artº 101º do código da Estrada: “O atravessamento da faixa de rodagem (pelo peão) deve fazer-se o mais rapidamente possível.”

Uma nota: este texto é sobre os deveres dos peões. Por isso, os deveres dos automobilistas, que também os têm, e muitos, tal como os seus comportamentos, muitas vezes impróprios, não são chamados para esta conversa. Num outro dia poderemos falar deles, se quiserem, mas não hoje.

Entrevista ao "Público" e à Rádio Renascença

  Ver aqui:  https://vimeo.com/1159303777