A internet separa dois tempos do mundo. Nenhuma fotografia de Rogério Martins, antigo governante dos tempos de Marcelo Caetano, surge quando "googlamos" o seu nome, o que hoje fiz, ao saber da sua morte. E, no entanto, a sua importância, para a sociedade portuguesa, foi indiscutível e marcante.
Rogério Martins, que era engenheiro de formação, fez parte de um grupo de jovens com que o marcelismo procurou "abanar" algum marasmo em que os últimos anos da gestão de Salazar, até 1968, tinha deixado cair a administração central na área económica.
Recordo-me muito bem do impacto que teve o seu discurso, em 1970, no Colóquio de Política Industrial, na antiga FIL. Era uma linguagem nova, algo ousada, que muitos consideravam herdeira da de Ferreira Dias, que anos antes pensara a nossa indústria de forma arejada e inédita.
Com o 25 de abril, para minha surpresa, Rogério Martins não surgiu no conjunto de nomes dessa geração política que, com naturalidade, a democracia cooptou para a nova fase da vida do país, como João Salgueiro, Xavier Pintado, Alexandre Vaz Pinto ou Nogueira de Brito, entre alguns outros. Passou a dedicar-se à atividade privada, de onde fora originário.
Rogério Martins era um europeísta, fora-o mesmo "avant la lettre". Nos anos 90, começou a escrever uma coluna em "O Independente". Dedicou-me um desses textos, a propósito de uma qualquer negociação que, ao tempo, eu conduzia em nome do país. Fê-lo com uma simpatia que me levou a escrever-lhe, tendo dele uma resposta que guardo algures. Depois, sempre sem nunca o ter visto, perdi-o de vista - passe o oxímoro.
Há meses, perguntei por ele a João Salgueiro. As notícias eram escassas, mas sabia-se estar ainda vivo. Até agora.