sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Elogio da habilidade



Sempre achei que a co-habitação entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa ia ter alguma graça. Olhando o perfil pessoal e político de ambos, as condições para uma relação “criativa” pareciam reunidas. Não era necessariamente sinónimo de entendimento eterno, mas havia uma “química” potencial, cuja durabilidade logo se veria.

Marcelo Rebelo de Sousa herdou a “geringonça”. Vale a pena lembrar que foi Cavaco Silva quem entronizou esta fórmula governativa, depois de um gesticular de remoques que transformou a sua saída num espetáculo ainda mais patético do que aquele que, em qualquer circunstância, sempre seria. Alguma direita, aturdida e confusa, ainda pensou que o novo presidente, que a dispensara institucionalmente no caminho para Belém, poderia ser tentado a uma dissolução parlamentar.

Era não conhecer Marcelo! O presidente deu todo o espaço ao governo legítimo de António Costa, cavalgou os seus êxitos, não questionou as suas opções internas, porque eram constitucionais, porque as sentiu consonantes com a descrispação por que o país ansiava e que só a acrimónia enquistada da pretérita liderança do PSD se obstinava a não entender. Daí também a rápida mudança de agulha do CDS, que se soube demarcar, com discreta elegância, de tão ruim defunto político. Nesse entretanto, Marcelo crescia, nos “afetos”, na postura institucional, na legitimidade que, para além do voto inicial, a sua atitude de Estado progressivamente lhe grangeou. 

António Costa também fazia o seu caminho. Hábil (não é insulto ser hábil), com rara capacidade de compromisso, soube criar um “firewall” governativo, preservando os compromissos europeus da “poluição” do PC e do Bloco. Estes, empanicados com a hipótese de um regresso da direita, trocaram o apoio ao governo pela recuperação de muito daquilo que os amigos da “troika” tinham retirado ao seu eleitorado. Tudo parecia ir bem.

Entretanto, chegaram os fogos, isto é, o velho país real, desordenado e frágil, impreparado ao primeiro abanão – e este foi forte. Marcelo já não cavalgou o percurso hesitante do governo. O PS reage agora, chocado. A fórmula é clássica: o governo tem a atitude de Estado, o partido tem erupções de indignação. Faz mal: provocar a quase unanimidade de Marcelo é um erro político, como Passos Coelho sentiu na carne. Partir da moção de censura embrulhado numa “frente de esquerda” (fórmula de Santana Lopes que, tal como o autor, veio para ficar), convencido de que assim será mais fácil ao PS ganhar as legislativas de 2019, é uma imprudência histórica. Mas o país não está “à esquerda”?, perguntarão alguns. Talvez, mas sair abruptamente da “selfie” com Marcelo é uma temeridade. Estou certo de que António Costa, que é um político hábil – e isto, repito, é um elogio –, não vai correr esse risco.

6 comentários:

Anónimo disse...

A esquerda, ingénua e pura,a desvanecer-se com Marcelo- o que também não era difícil depois do trauma de uma década de Cavaco.

Geringonça como bem denunciou Costa Bras é termo pejorativo e Provinciano que apenas uma antiga secretaria de estado do Governo vem ufanamente exibir em Bruxelas. Mas felizmente o seu tempo já passou.

Anónimo disse...

Comme dhabitude toda a gente distraída em Portugal sobre a magna questão da apropriação das emoções e ninguém se deu conta que a partir de hoje nos livramos do inenarrável homem do Euro grupo, copos e mulheres no Sul, em boa hora hoje substituído por um novo chefe de orquestra Hoikestra.

Anónimo disse...

"apenas uma antiga secretaria de estado do Governo vem ufanamente exibir em Bruxelas"

Não sei que quer isto dizer, mas o "Apenas" não é real. Toda comunicação social usa o termo como se usar um insulto e um termo que é arma de arremesso partidário criado pela PàF não fosse um desqualificar deontológico do jornalista que a utiliza.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Inteiramente de acordo. O PS, também fragilizado pela tragédia dos fogos (melhor: pela "reacção" fria e "tecnocrática" de Costa à tragédia) devia engolir este pequenino "sapo" de Marcelo. Em matéria de comunicação (e de afectos...) ninguém bate o Presidente.

Anónimo disse...


Isto é tudo a ver quem manda. Trabalhar em grupo neste país é sempre assim: Até se matam para serem apenas uns a mandarem.
Há muito ainda a mudar neste país.

Anónimo disse...

Assim como se usa o termo tuga para definir um cidadão português e não obstante difundido não deixa de ser de profundo mau gosto.