sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um futuro diferente


Foi há pouco mais de um mês, no empedrado de Andorra-a-Velha, que o presidente da República desabafou para os jornalistas: “Quando viro à direita, em Portugal, a direita não nota”. Era uma óbvia mensagem, que alguns entenderam algo precipitada, para tentar responder à orfandade que se sabia atravessar uma parte do país político, desiludida com aquilo que lhe parecia ser um conúbio entre Marcelo Rebelo de Sousa e o governo de António Costa. 

Ao longo de mais de um ano, esse setor político viveu num desespero quase patético. Das ironias iniciais que se ouviam ou liam contra o presidente que lhe não tinha ficado a dever quase nada na eleição de janeiro de 2016, a direita portuguesa tinha já entretanto desembestado contra Marcelo Rebelo de Sousa. Esse barómetro do radicalismo conservador que é a “opinião” de um jornal informático, somado a certos opinadores e a espaços conhecidos nas redes sociais, reclamava diariamente pela simpatia que o chefe de Estado parecia destilar em favor do governo. Alguns já nem estranhavam: “É o Marcelo, pronto, que se há-de fazer!” Houve mesmo quem dissesse que o avanço de Santana Lopes se tinha destinado a colocá-lo como alternativa potencial a um presidente que, não obstante a sua esmagadora popularidade, se tinha deslocado demasiado da sua base natural de apoio.

O discurso de Oliveira do Hospital tudo mudou. Críticos ácidos do presidente sentiram-se subitamente confortados com a severidade inequívoca de Marcelo para com o governo, com a distância marcada face a António Costa, com a afirmação de uma “magistratura de interferência”, que acentua claramente uma das leituras do nosso semi-presidencialismo.

Ao dizer o que disse, em palavras escritas para serem lidas ao microscópio, Marcelo Rebelo de Sousa sabia duas coisas: que estava em básica sintonia com o sentimento maioritário prevalecente no país e que, a partir daquele momento, algo iria mudar na sua relação com o governo. Ao ter encostado António Costa “às cordas” políticas, obrigando-o abertamente a uma remodelação e sujeitando-o a um indiscutível “ralhete” público, o presidente tinha plena consciência de que estava aberta uma ferida na “lua-de-mel” que vivia com a maioria, por muito que esta agora possa ser tentada a assobiar para o ar.

A direita parece hoje reconciliada com Marcelo, fazendo figas para que o discurso de Oliveira do Hospital seja o início de uma viragem drástica no relacionamento entre Belém e S. Bento. Julgando conhecer as personagens principais no terreno, quero crer que nem o presidente, a partir de agora, vai ser tentado a forçar excessivamente a mão ao primeiro-ministro, nem este vai ceder à tentação de exteriorizar qualquer acrimónia institucional. Mas uma certeza tenho: nada será igual daqui para a frente, embora ninguém saiba o que, de facto, o futuro nos vai trazer de diferente. 

(Artigo hoje publicado no “Jornal de Notícias”)

5 comentários:

Anónimo disse...

Um grande Presidente. Mas nunca acreditei na foto do guarda chuva, todo sorrisos, com Costa. Abraço quando corre bem, duas badaladas e meia pa de cal quando corre mal. Socrates não se demitiu quando Cavaco o admoestou. Costa, sei não...

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

Antonio Costa e OS PENDURAS DO ESTADO.
E o que acontece, quando OS desenhadores da constituicao se inspiram nos manientos franceses. Devem se inspirar na Suissa, Australia ou USA. Onde o povo mantem o control permanente.

Assim vai o reino da lingua portuguesa .

Em Timor ou no rectangulo europeu nao quer ou nao sabe ultrapassar OS problemas de democracia jacobina.

Reaça disse...

Foi preciso tanta desgraça para o país acordar, e ver a "fantasia governamental"que se apoderou do Terreiro do Paço.

E passado tanto tempo após o início dos grandes incêndios, a geringonça continua completamente entorpecida, sentada de braços cruzados, a sonhar com o sucesso do déficit, com as vitórias matrimoniais do bloco, e com as promoções comunistas da função pública.

E o sono é tão profundo, que nem a Ministra a pedir que a tirassem dali a escutavam, foi preciso o Presidente gritar a plenos pulmões, e mesmo assim continuam estremunhados.

Coitado do país e do futuro, se não aparecer um "salvador", o que não vai ser fácil aparecer alguém à altura.

Vou em romaria a Santa Comba e a Pombal.

Anónimo disse...

Radicalismo conservador para quem tem, não digo opiniões radicais de esquerda mas sentimentos radicais envergonhados de esquerda, porque para as pessoas de direita são apenas opiniões razoáveis, umas melhores e outras piores. A característica fundamental dos esquerdistas ou ex esquerdistas é de nunca se esquecerem de desclassificar as opiniões dos outros : ou são radicais ou fascistas ou racistas etc etc. Quarenta e tal anos depois da revolução! Já as novas gerações são incapazes de identificar Marcelo ou Salazar e a lenda lenta continua como se nada se tivesse passado entretanto!

João Vieira

Anónimo disse...

Costa ocupa simultaneamente dois cargos:

- Sócio-gerente da EP Geringonça.

-PM de Portugal.