segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Em oito pontos

Desde que comecei a deixar algumas coisas escritas, nas redes sociais e nos jornais, quando me meto a falar sobre o futuro, dou-me conta de que, nas coisas da política, me engano bastante. É que a realidade é muito mais imaginativa do que as pessoas e prega-nos imensas surpresas. O resultado das eleições autárquicas levou-me a tirar algumas conclusões. Pelo que atrás disse, elas valem o que valem, mas aí ficam:

1. Fiquei surpreendido com a dimensão da vitória socialista. Não esperava este resultado, obtida "pró-ciclo". Mas o país está "bem disposto" com o governo e quis dar a António Costa um "sorriso" eleitoral. Espero que o PS não embandeire em arco, num triunfalismo que leve parte do seu aparelho a tentar "explorar o sucesso". António Costa e, em especial, Ana Catarina Mendes (mas também Vieira da Silva e outros "powers that be") devem ter o maior cuidado na travagem de algumas tentações que possam vir a surgir.

2. Acho importante refletir no discurso de Jerónimo de Sousa, na noite eleitoral. O PCP "nunca perde" eleições, arranja forma de as "ganhar sempre". Mas, desta vez, o seu líder pôs uma iniludível cara de enterro, percebendo uma coisa muito simples: muito do seu eleitorado, satisfeito com as políticas do governo, deu o crédito delas ao... governo, isto é, ao PS. Quer isto significar que os socialistas capitalizaram para si os efeitos da "geringonça", não dando os votantes ao PCP os louros (verdadeiros, aliás) de ter sido ele a forçar o governo do PS a tomar algumas medidas que os beneficiou. O PCP terá constatado nesta ocasião os efeitos nefastos da "geringonça" sobre a estabilidade do seu eleitorado. Perder Almada é um terramoto que deve ter sido sentido na Soeiro Pereira Gomes em registo de tragédia. Irá o PCP tender a abalar a "geringonça"? Talvez o não faça imediatamente, mas as negociaçōes do Orçamento vão já ser um inferno. Por mim, não acredito que o PCP possa aceitar ir até ao fim da legislatura. Entretanto, irá pôr na rua as suas "tropas" sindicais, como anda a fazer.

3. O PSD perdeu ainda mais do que aquilo que se pensava possível. O resultado em Lisboa revela que Miguel Relvas tinha razão quando falava da "ruralização" do partido. Nunca pensei, contudo, que uma certa base urbana (que deveria andar nos 15 a 20%) abandonasse o PSD, nem que fosse apenas por "clubite" (há um certo PSD que encanita com o CDS). Os social-democratas apenas reagiram bem nos escassos locais onde tinham presidentes fortes (Braga, Cascais, Guarda), isto é, onde o trabalho, visto como positivo, dos seus autarcas conseguiu não ser poluído pela imagem nacional de declínio que o PSD de Passos Coelho hoje projeta.

4. Acho que Passos Coelho se vai embora. Vai, contudo, tentar gerir a transição, para evitar que o partido caia na mão dos seus inimigos internos. Procurará talvez deixar no seu lugar Luis Montenegro, para travar Rui Rio. Mas não será candidato a um congresso, que talvez tenha de ser antecipado - caso contrário o seu "phasing-out" será devastador. Mas não subestimemos em absoluto a sua teimosia...

5. O Bloco de Esquerda tive um dia mauzote. Salvaterra voltou a escapar-lhe, não elegeu o seu excelente candidato no Porto e apenas um lugar em Lisboa e alguns fogachos irrelevantes pelo país não chegam para dar um mínimo de corpo a uma, ainda que mínima, ambição autárquica. Assim, encarando as coisas com um ar mais alegre do que o PCP, o Bloco também terá percebido que a "geringonça" lhe traz um certo desgaste: parte do seu eleitorado, habituado a olhar para o PS como uma "direita da esquerda", terá sido entretanto seduzida por António Costa e por este "novo PS". E começa a votar PS...

6. O CDS fez a festa em Lisboa. Cristas legitimou a sua liderança, num CDS onde as contas pós-Portas não estavam ainda fechadas. O PSD não lhe vai perdoar tão cedo a humilhação, mas o seu estilo truculento começa a render. O CDS só pode crescer à custa dos votantes flutuantes entre ele e o PSD. A luta, portanto, vai ser sobre a liderança retórica da direita, a partir do momento em que o substituto de Passos Coelho surja. Vai ter graça.

7. Uma nota para o Porto. Um estranho candidato do PSD levou uma monumental "abada", por uma razão bem simples: a direita no Porto vota Rui Moreira, que é visto como uma figura conservadora, com a vantagem de não ser ligado à governação Coelho-Portas. O PS, não obstante um crescimento notável de Manuel Pizarro (atenção a ele!), ficou à porta da Câmara, mas o futuro anda por ali.

8. Em Oeiras, um certo país provou que pertencer a um nível social com elevada educação académica e de rendimentos não significa necessariamente ter padrões morais e cívicos recomendáveis, na hora de votar. O que, felizmente, não aconteceu em Gondomar. E em Loures provou-se que não vale tudo e que, se os candidatos não têm escrúpulos, os eleitores ainda parecem tê-los. Este Portugal dos candidatos marginais tem de ser estudado e prevenido. Como? Com uma forte exigência de decência.

7 comentários:

Anónimo disse...

Excelente análise. Devera ser revista, em futuras edições, a referência bibliográfica a Relvas, que não é muito cotado no meio...

Anónimo disse...

"(Braga, Cascais, Guarda)"
e aveiro, e aveiro

L M D disse...

O povo votou, quer achamos bem ou mal mas votou. Acho que o PCP esgotou completamente os argumentos que tinha na defesa da sua ortodoxa (no meu ponto de vista) ideologia, e o PSD ainda não se recompôs das eleições legislativas ou seja, não se afirmou como alternativa credível e responsável, utilizando temas de um triste saudosismo dos tempos da Troica, foi literalmente incapaz de perceber que o país está definitivamente no caminho de ultrapassagem das dificuldades que a crise nos impôs.
No sentido contrário o CDS e a sua líder, leram muito bem os sinais dos tempos e, conseguiram não só ultrapassar o amargo de largarem o poder, bem como, melhorar os resultados anteriores de Paulo Portas.
O BE lutou melhorou ligeiramente, mas ainda está muito longe de se afirmar como uma força a ter em conta no poder local.
Como disse o senhor Presidente da República, um novo ciclo se irá abrir depois das autárcicas.

Anónimo disse...

Disseram-me para ir votar mas não ganhou ninguém em quem votei.
E agora o que acontece?

Anónimo disse...

Ao Anónimo,13:54, Só vota em quem ganha ?.....Grande catavento !

Anónimo disse...

Ao Anónimo das 21:31,
Apelaram tanto ao voto que muitos foram votar. Uns ganharam. Outros perderam. O que ganharam? Direito de escolha! E quem não foi votar? Não pode reclamar?
Será que mesmo quem vota acredita que se vive numa democracia onde há oportunidades iguais para todos?

Anónimo disse...

O PS devia ter reparado que o resultado histórico lhe advém de uma governação forçada a apontar a valores de esquerda e à recuperação nem que seja no essencial comunicacional dos valores do trabalho. O que se vê são a direita no partido a afiar as facas. Até no capítulo que Seixas da Costa aqui dedica ao PCP, repisando argumentos de Outubro de 2015.

Em Oeiras, de direita, sempre, votou-se no bandido. Em Loures, esquerda desde a República, evacuou-se o fascista, mostrando ser conversa fiada associar um eleitorado pobre de esquerda a capturas por racistas e outros fdp.