Constança Urbano de Sousa era, de há muito, a mais previsível remodelação que o primeiro-ministro teimava em não fazer. Porque as mudanças de governantes são lidas, em regra, como a constatação implícita de que algo falhou, os chefes dos governos adiam-nas até ao limite do suportável. E, claro, evitam sempre fazê-las sob pressão. Até ao dia em que isso também ocorre, como foi o caso.
A agora ex-ministra pode não ser a pessoa mais dotada para o exercício de um cargo político - e, sinceramente, acho que isso nada tem em si de negativo para ninguém, exceto se tiver de exercer... um cargo político! O seu discurso, recheado de óbvia sinceridade, ficou, por vezes, ao lado daquilo que parecia ser o mais adequado dizer. O seu ar permanentemente sofrido transmitia uma imagem angustiada e quase anti-política, num mundo em que a passagem de um mensagem de confiança se torna absolutamente essencial - em especial numa área governativa que lida com a gestão de temores públicos.
Nunca falei com Constância Urbano de Sousa. Mas, pelo que dela sei através de quem a conhece bem, e também por ter observado a forma como exerceu o cargo, tenho-a por uma pessoa extremamente dedicada à causa pública e intelectualmente muito capaz. Falhou na missão de que António Costa a encarregou? Talvez, mas, para além das culpas próprias, acho que ela foi também o bode expiatório mais óbvio de tudo quanto correu mal - das insuficiências funcionais aos picos climáticos, da falta de planeamento florestal ao insuportável impacto das mortes ocorridas.
Sinto agora a obrigação de dizer isto, porque é isto que penso, por muito impopular que isto agora possa ser.
