quarta-feira, 18 de outubro de 2017

No adeus


Constança Urbano de Sousa era, de há muito, a mais previsível remodelação que o primeiro-ministro teimava em não fazer. Porque as mudanças de governantes são lidas, em regra, como a constatação implícita de que algo falhou, os chefes dos governos adiam-nas até ao limite do suportável. E, claro, evitam sempre fazê-las sob pressão. Até ao dia em que isso também ocorre, como foi o caso.

A agora ex-ministra pode não ser a pessoa mais dotada para o exercício de um cargo político - e, sinceramente, acho que isso nada tem em si de negativo para ninguém, exceto se tiver de exercer... um cargo político! O seu discurso, recheado de óbvia sinceridade, ficou, por vezes, ao lado daquilo que parecia ser o mais adequado dizer. O seu ar permanentemente sofrido transmitia uma imagem angustiada e quase anti-política, num mundo em que a passagem de um mensagem de confiança se torna absolutamente essencial - em especial numa área governativa que lida com a gestão de temores públicos.

Nunca falei com Constância Urbano de Sousa. Mas, pelo que dela sei através de quem a conhece bem, e também por ter observado a forma como exerceu o cargo, tenho-a por uma pessoa extremamente dedicada à causa pública e intelectualmente muito capaz. Falhou na missão de que António Costa a encarregou? Talvez, mas, para além das culpas próprias, acho que ela foi também o bode expiatório mais óbvio de tudo quanto correu mal - das insuficiências funcionais aos picos climáticos, da falta de planeamento florestal ao insuportável impacto das mortes ocorridas. 

Sinto agora a obrigação de dizer isto, porque é isto que penso, por muito impopular que isto agora possa ser.

15 comentários:

dor em baixa disse...

Entidade máxima, secretário e protetor civil poderão adquirir capacidades que no próximo verão lhes serão muito úteis. Mas ficarão por apagar uns 500 incêndios e a equipa que lá estiver terá que ser sacrificada também.

Joaquim de Freitas disse...

Claro que estes mortos são todos vitimas de anomalias diversas, e se algumas são devidas à incúria dos homens e mesmo à actividade criminosa de alguns, a reacção típica dos Portugueses é de aproveitar para desancar nos políticos, quaisquer que eles sejam. Mesmo se é certo que eles também têm culpas, desde sempre, por falta de previsão, e em muitos outros aspectos, mesmo corrupção, nem tudo justifica o baile das cadeiras ministeriais.

Vivo numa região onde frequentemente, no Inverno, temos quedas de neve catastróficas, ou vagas de frio que provocam mortos e destruições, isolando aldeias e cidades e interrupção dos serviços públicos.

No Japão, há dois anos, 20 pessoas morreram aquando duma tempestade violenta que provocou o caos nas estradas e 1250 feridos.

27 Centímetros de neve em Tóquio, centenas de voos anulados, 800 veículos bloqueados nos eixos rodoviários, e o TGV japonês bloqueado. Não mudaram o ministro.

Dezenas de mortos devido ao frio intenso. Temos nos Alpes, todos os anos, vitimas das intempéries invernais. Que fazer? Demitir o ministro?

Acham que na Califórnia vão demitir o governador? Teriam que o demitir todos os anos, porque as catástrofes devidas aos incêndios são anuais…

A JOGATANA disse...

A ex-ministra não é culpada de nada, antes pelo contrário, é mais uma vítima de Costa e da sua governação de mentira.
Para Costa e o núcleo duro da geringonça, esta dos eucaliptos e interior de velhos que pouco votam, é o que menos interessa.
No terreiro do paço e avenida da liberdade, mais avenida dos aliados é que circula gente da função pública, metropolitanos e sindicalistas, gente bonita que não precisa de eucaliptos e dá votos.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

O ministro da Defesa não tem "o ar sofrido" do da ex-ministra da Administração Interna, mas o seu dircurso "por vezes, (também fica) ao lado daquilo que parecia ser o mais adequado dizer".

António Costa esqueceu-se de o remodelar? Ou este não precisa de férias...!?

Carlos Diniz disse...

Joaquim de Freitas disse...
Dezenas de mortos devido ao frio intenso. Temos nos Alpes, todos os anos, vitimas das intempéries invernais. Que fazer? Demitir o ministro?

Não consta que o ministro tenha diminuído os meios, como aconteceu em Portugal, pese as condições climáticas se tenham mantido. Aqui, a ministra, encerrou, a partir de 1 de Outubro, todos os 263 postos de vigia contra incêndios.

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/todos-os-236-postos-de-vigia-contra-incendios-estao-fechados-desde-1-de-outubro-8830693.html

Anónimo disse...

Muito concreto e verdadeiro o comentário de A JOGATANA !

Como o país está a abrir os olhos, verifica que são sempre os manhosos do costume "os amigos são para as ocasiões", sindicalistas, virgens (?) ofendidas, etc... todos "estrume concentrado" que desgraçam Portugal....




Anónimo disse...

A política do PS é sempre a mesma:

colocar em lugares de governo uma vara de boys.

è impossível um boy ou um boyvelho,ser capaz de por em cheque o chefe da vara que o colocou no lugar, mesmo que apresente uma solução ou programa diferente do chefe da vara.
Desta massa são feitos os socialistas que nos governam.

Joaquim de Freitas disse...

Peço desculpa ao Senhor Embaixador de retransmitir um texto doutro blogue -ARMAS - do General da Força Aérea na reserva, Vitor Cunha. Que pensar de tudo isto?




"Começa a ser muito difícil olhar para estes fogos como se fossem todos eles produto de causas naturais ou de incendiários loucos ou doentes. A coisa tem, inclusivamente, contornos demasiado odiosos para ser obra do chamado lobby dos fogos. Não, por mim deixei de ter dúvidas, isto faz-me lembrar os incêndios às sedes do PCP por esse país fora (sobretudo a Norte, também), no Verão quente de 1975, com o intuito de enfraquecer e derrubar o poder político da época. Repito: não tenho hoje grandes dúvidas que estes fogos são obra de gente a soldo de quem está interessado em derrubar este poder político. Não sejam ingénuos, as pessoas são extremamente activas nestas actividades, sobretudo quando não lhes restam grandes alternativas no plano da luta política. Se assim for, não há que fugir ao desafio: os serviços de informação da República têm que cumprir o seu dever, o esforço de pesquisa deve ser orientado para a detecção dos interesses que enunciei, as forças de segurança, com a colaboração das forças militares, devem manter um dispositivo permanente de vigilância orientado pelas informações que forem recolhidas. Há que lidar com este inimigo implacável de uma forma igualmente implacável.
Se o leitor ainda achar que estou a exagerar, note apenas o seguinte: este fim de semana, atendendo à chuva prevista para os próximos dias e à chegada de tempos mais húmidos e com menores temperaturas, era a ultima oportunidade de provocar danos físicos graves e, eventualmente, danos políticos na "geringonça" ... Viu-se o que aconteceu, acha o leitor que foi apenas coincidência?
E então, vamos continuar a fingir que todos estes fogos não são acções inimigas do actual poder político? Vamos continuar a ter medo de chamar os bois pelo nome?"
 

Anónimo disse...

será um caso de policia de que pouco se fala
500 incêndios num fim de semana é obra :(((
tantos mortos em poucos meses, pessoas que morreram queimadas vivas nem a inquisição faria tanto
na próxima serão as cidades , porque as aldeias já começaram a ser consumidas,
o cerco aproxima-se das pessoas um pouco mais todos os anos com mais violência
que Deus nos proteja ja que os homens parece que não acordam

josé ricardo disse...

Como me parece evidente, a demissão da ministra não era assim tão inevitável. O que já me parece inevitável é a sistemática e previsivel baixa política, agora acompanhada com a falta de coragem do presidente da República. É que para haver demissões, elas teriam de ser retroativas. E, já agora, as famosas desculpas deveriam sair, unicamente, da Assembleia da República, que é quem tem gizado as inoperantes leis que têm (des)estruturado a floresta.

Anónimo disse...

Caro Sr. Joaquim de Freitas,

Pois claro, tem toda a razão. É um gosto ler os seus comentários, mas esta sua perceção só é possível, pelo mundo que tem e, ao não viver cá estar atento.

Viver anos noutros países, seguindo regras e observando os nativos, é diferente dos hábitos portugueses. Umas viagens aqui e ali, não vendo nada e nada aprendendo ou apreendendo. "Todos" fazem mais ou menos os mesmos percursos e o debate é à volta do "eu também lá estive".

Também vivi por períodos de alguns anos, intermitentes em vários países, no Japão por exemplo, sei bem do que fala.

Ter direitos implica ter muitos deveres!
Por aqui, vai ser sempre assim, mesmo perante a maior desgraça, basta um futebol qualquer, o pessoal precisa é de distração, como as crianças!

Nesta altura os interesses são outros, o objetivo um só.
E lamento, não posso concordar com o PR, mas, também nunca gostei do estilo!

O PM percebeu bem daí o modo como falou, vamos ver se está para, que, lhe puxem as orelhas.

Já repetiram exaustivamente, técnicos e outros, os meios seriam sempre insuficientes para o que aconteceu, não vamos ter medo de chamar os bois pelo nome!

Cumprimentos

Maria




Joaquim de Freitas disse...

Cara Senhora Maria: Muito obrigado por me ler. Vivo há 50 anos em França, mas tendo viajado e mesmo vivido em missão comercial durante 35 anos no mundo inteiro, vivi finalmente mais no estrangeiro que cá.
A Senhora toca perfeitamente no ponto sensível da nossa mentalidade, de país que viveu separado do mundo, por causa do regime político que o amordaçou durante meio século.

Impressiona-me o facto que no meio desta tragédia, há os que, vergonhosamente,se servem dela em manobras político/partidárias, manifestando assim o seu ódio à actual solução política.

Evidentemente que existem muitas pessoas chocadas pela amplitude da tragédia, que as impede de analisar as causas e reagem emocionalmente perante o sentimento de impotência.

Explorar esta imensa emoção é então coisa fácil para os manipuladores “interessados”.

Assisti a um tufão em Tóquio, a outro em Hong Kong, a um incêndio terrível na Austrália, nunca vi a opinião pública reagir como em Portugal.

Durante vários anos, em férias numa casa secundária em Sainte Maxime, no Var, em França, assisti a incêndios enormes, por exemplo no ano passado, e apesar dos meios importantes em aviões Canadair, baseados em Marselha, que se abastecem facilmente no Golfo de Saint Tropez, e à prevenção e controlo dia e noite nas zonas de perigo que são enormes, quando o “Mistral” sopra a 120 km/hora, com tudo seco à volta e temperaturas como aquela que existia estes dias em Portugal, não foi possível evitar dramas e destruição. E todos os anos recomeçam. Porque criminosos doentes também existem aqui.

E ainda, características da floresta portuguesa são bem piores que os resinosos do Midi.

O que é lamentável acima de tudo, é esta exploração do sofrimento humano, que serve para desenvolver “manobras” politicas de baixo nível, como a moção de censura, como se isso pudesse ser a solução para o problema, que carece de muita reflexão, organização e meios para limitar, na medida do possível, no futuro, a repetição de tais dramas a um tal nível.
Quando leio as “acusações” fica-me a impressão que é a “renda” política que é procurada. Quanto ao PR , a tendência natural da familia vem sempre ao de cima.

Melhores cumprimentos.

Anónimo disse...

A ministrA é uma vítima do sexismo, não tarda nada.
Mas, do outro lado, temos umA presidente a tentar sacar dividendos à custa das vítimas.

É preciso mais mulheres na política, claro. Porque trazem algo de diferente.
(se alguém descobrir por aí o que é, avisem, sim?)

Anónimo disse...

Ao anónimo das 15.39:

Mas, ainda não descobriu como veio ao mundo?

As mulheres estão na política desde sempre, elas próprias, filhos/as, netos/as, etc.
Têm parido com assiduidade, os dois géneros, por enquanto não se pode escolher...

Pessoalmente tento o meu melhor, educo com os mesmos valores, mas, eles são diferentes.

Já percebeu?







Joaquim de Freitas disse...

Na sequência dos incêndios, ainda hoje, na Córsega o drama continua, num 23 Outubro. Quando as condições estão reunidas para criar o desastre, mesmo com meios importantes de combate os dramas estão presentes.

Vento a 134 km/h na Ilha Rousse, 142 km/h no Cap Sagro e 165 km/h no Cap Corse foram registados.

500 Hectares queimados num dia. Aldeias abandonadas (. Le feu s'est propagé en direction des villages de Costa et Occhiatana. Il se dirige maintenant vers les villages de Novella et Palasca où sont déployés les moyens terrestres.
Des conditions météorologiques mauvaises
Sur place, environ 150 sapeurs-pompiers et 40 gendarmes une vingtaine de véhicules tentent de maîtriser les flammes. Des renforts de Corse-du-Sud sont par ailleurs attendus.
La situation dans les airs est plus difficile: les deux Tracker et les deux Canadair engagés n'ont pu intervenir que ponctuellement du fait des conditions météorologiques défavorables.


Os especialistas pensam que estes dramas voltarão a repetir-se nos países do Sul da Europa, com frequência, e a única coisa que pode ser melhorada é a protecção dos humanos, evacuando-os a tempo.