domingo, 29 de outubro de 2017

Terrim!


Há minutos, ao ver no Twitter uma fotografia atual do belo Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, onde há meses recebi a minha cidadania honorária da capital do Alto Minho, veio-me à memória uma história contada pelo meu pai (que daqui a dias faria 107 anos), passada naquela mesma sala, creio que nos anos 30 ou 40.

O Sá de Miranda era a única sala de teatro da cidade. Antes da criação do Cine Palácio, era também a sala onde se projetava cinema. Sala e “pátio”, diria eu, que ainda me recordo de ir ali ver, no Verões do meu contentamento adolescente, cinema ao ar livre, no espaço junto ao teatro.

Num desses dias da primeira metade do século que se foi, o filme era de “suspense”, como antigamente eram designados os “thrillers” (mas será que também esta palavra ainda se diz?). Aparentemente, a trama era muito bem conseguida, com o público preso aos desenrolar das cenas, que se encadeavam de forma empolgante. Contudo, no auge de um dos momentos mais emocionantes, o filme parou, a luz acendeu-se e o intervalo começou.

Por muito tempo, os intervalos nas sessões de cinema eram uma regra sem exceção. Os filmes projetados sem intervalo foi uma “modernice”, creio que dos anos 70. Nem se diga que era uma oportunidade para um cigarro, porque me recordo muito bem de se poder fumar livremente nos cinemas. Esses 10 minutos de pausa, porém, eram um momento de sociabilidade, para conversar ou tomar um café, nos mal fornecidos bares, que sempre recordo com prateleiras quase vazias.

Nessa noite, o facto do filme ter sido interrompido no meio de uma cena fundamental, em que os segundos seguintes à sequência projetada iam ser essenciais para entender o desfecho, fez com que ninguém se atrasasse no regresso aos lugares, nem sequer esperando pela estridente campainha que, tal como no início, iria anunciar o iminente fecho da luz. É que toda a gente estava ansiosa pelo retomar do filme. Nos lugares mais baratos, o pessoal pobre da cidade, os pescadores da Ribeira, agitavam-se nas cadeiras ditas de “sumopáu”, por contraste irónico com a cómoda sumaúma, com que se revestiam os lugares almofadados.

O filme, no entanto, por uma qualquer razão, teimava em não recomeçar. A campainha não soava e as hostes iam ficando cada vez mais nervosas. Algumas bocas, já muito para o “rasca”, começavam a ouvir-se. Foi então que, com aquele ondulado musical na pronúncia das sílabas, com as vogais bem abertas ao ouvido alheio, coisa impossível de descrever em escrita, mas sempre presente na linguagem popular da gente da Ribeira, saiu um berro bem sonoro, clamando pelo toque da campaínha que marcaria o regresso à aventura:

- “Terrim!”, carago!

A campainha lá soou, a luz apagou-se, o filme recomeçou, a cena ressurgiu, as emoções soltaram-se no olhar ávido dos espetadores e o “artista” (como então também se dizia) acabou a noite e a fita, com certeza, num final feliz. 

3 comentários:

Anónimo disse...

Caríssimo,

"Campainha" não leva acento. Não precisa de publicar o comentário.

Erremita

Isabel Seixas disse...

Cá em Chaves o fenômeno era semelhante e a importância do intervalo sobrepunha-se muitas vezes à do filme nos olhares furtivos aos melhores atores de bastidores e às suas farpelas e aos acompanhantes numa busca profícua de assuntos para a semana.

gostei muito do terrim.

Anónimo disse...

TERRIM

Na aldeia onde nasci nao havia cineteatro, nem cineclub, nada!!!

O paroco atento as necessidades culturais do seu rebanho, organizavza de vez em quando sessoes de cinema ao ar livre. Alugava uma fita por um dia ou dois e projectava-a sobre um lencol branco contra uma parede no patio da casa. A entrada era mais que razoavel nem sei se dava para cobrir as despesas. Dai que o primeiro filme que vi a volta de 1950 foi um filme moral. Um jovem bonita defendia a sua virtude e assim morreu. De seu nome Maria Goretti. Nao me lembro de muito mais, havia muidos e miudas dificeis de manter sentados e calados. Alguns avos cabeceavam, tudo normal.

So tive acesso a cineteatro ao comecar o ensino secundario. Ai tudo bem. Ia ao cinema pelo menos uma vez por semana com direito a chocolate no intervalo. O primeiro filme - "Bambi" e chorei como uma bambina...Mas o gosto e enorme curiosidade pelas fitas ficou.

Em Londres, na decada de 90 segui tanto quanto pude um ciclo de cinema italiano. Um dia calhou ver um filme "Ciello sulla palude" de um realizador que nem de nome conhecia. Augusto GENINA. A menos de metade do filme tive a certeza que ja o tinha visto. Tentava lembrar-me...nada. Li o programa com uma cerveja e veio a revelacao. Era a vida de Santa Maria Goretti que tinha visto em pequenina e me esquecera. A atriz principal -Ines Orsini fez carreira. O realizador esteve uns tempos na prateleira apos a II Guerra Mundial devido as suas tendencias pro Mussolini. O dito filme ganhou em 1949 o premio do melhor filme italiano do ano. Quanto ao realizador continuou a sua carreira e entre outros fez Frou-Frou (1955) com Dany Robin e Louis de Funes e Miss Europe (1930), o primeiro filme sonoro de Louise Brooks.

Termino com um apelo: Quando puder nao deixe de ver um filme que acaba de estrear por aqui THE PARTY. Realizacao de Sally Potter a preto e branco. Esteve no festival de Berlin. Actores Timoty Spall, Kritin Scott Thomas, Bruno Ganz, Cillian Murray.

Boa Noite

F. Crabtree