sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O sol

Chamada telefónica de S. Bento: “O senhor primeiro-ministro pede para passar por cá, ainda hoje, com urgência, por favor”. Saiu à pressa do Ministério. No carro, calou logo o início da conversa do motorista sobre o trânsito (agora que o Medina foi eleito, o homem já se permitia dizer mal) e pôs-se a imaginar o que lhe ia ser dito: a compreensão para a necessidade de um “refrescamento” no ministério, o início de um “novo ciclo”, depois das autárquicas, a caminho das legislativas, a lembrança das “condições particularmente difíceis” em que o “excelente trabalho” foi executado, o “profundo agradecimento” que lhe era devido mas, também, o “inevitável desgaste”, a imprensa, os lóbis. Telefonou ao cônjuge: “Olha! seja o que deus quiser!”. É isso, afinal as coisas não são para sempre, a experiência até fora interessante, mas talvez fosse mesmo a hora de regressar à base de onde partira. Era preciso serenidade, não mostrar agaste, muito menos desilusão. Era preciso, afinal, saber “sair bem”. No fundo, caramba!, quantas vezes já pensara que isto iria, mais dia menos dias, acontecer. Talvez fosse mesmo melhor assim, partir num momento “alto” do governo”, bem preferível a um tempo de crise, marcado pelo acossamento mediático. Pensando bem, o cansaço já se acumulava, desde há tempos. De certo modo, ia ser uma “libertação”. Lembrou a metáfora do “pássaro a sair da gaiola”, de Soares, quando foi “despedido” por Eanes. A ideia, por um segundo, trouxe-lhe um “blue”: feitas as contas, o que lhe ia acontecer era uma espécie de “despedimento”! No cimo da escadaria, em cujas paredes ainda andavam a colocar os últimos quadros que os tipos da Cultura trouxeram de Serralves, procurou, num segundo, interpretar o leve sorriso da Sãozinha, mas ela, esfíngica, apenas lhe abriu a porta da salinha, com um “olá, como vai?”. Da Rita, barómetro seguro do sentido das coisas da casa, nem rasto. Já o David, que cruzara no páteo, lhe parecera algo estranho, quase translúcido. “Vamo-nos sentar”, disse o primeiro-ministro. “Achei que era bom falarmos pessoalmente sobre a viagem da semana que vem. Vão ser muitos quilómetros em dois dias. Afinal, que encontros é que vamos ter? Temos de os preparar muito bem”. Entendia, finalmente e com alívio, a razão da convocatória. E, a partir daí, a voz do chefe do governo pareceu-lhe como que a esvair-se pela sala, orquestrada com uma melopeia de fundo, num harmonia de violinos. Do sofá azul, já num recosto quase lânguido, espraiou o olhar para fora, pela janela, em direção à calçada. O sol brilhava. Caramba, como a vida é bela!

1 comentário:

Anónimo disse...

Por falar em sol ha uma luz que eu não vejo que é uma rápida estratégia de Portugal para começar a captar investimento que vai sair da Catalunha; isto seria mais produtivo do que estéreis debates da intelligensia sobre quem possa ter razão.