Há algumas pessoas que gostaria de ter encontrado ao longo da minha vida. Uma delas foi José Palla e Carmo, curiosamente pai de uma querida amiga, a Bárbara, a quem eu nunca disse isto.
Palla e Carmo nasceu em 1923 e morreu em 1995. Era diretor bancário, especialista em literatura americana, crítico, tradutor e outras coisas mais no mundo das letras. Realizava-se através de uma escrita bem disposta, culta, quase surrealista. Dizem-me que era uma pessoa divertidíssima. Escrevia lindamente e (creio) tudo quanto publicou assinava como José Sesinando. Andei uma vida a pensar que era um pseudónimo, quando afinal, na realidade, são também verdadeiros nomes seus.
Há pouco, “cruzei-me”, num estante, com a sua “Obra Ântuma” (escusam de ir ao dicionário, é um neologismo que significa “antes de morrer”). E, por via desse ”encontro”, lembrei-me de uma história que ouvi contada, há semanas, por Vasco Vieira de Almeida, seu amigo e chefe no BPA.
Um dia, o banco recebia uma delegação americana, do grupo Rockfeller, que andava a selecionar instituições nas quais pretendia investir na Europa. Esse contacto era, assim, muito importante. Palla e Carmo era o diretor internacional, mas Vasco Vieira de Almeida, conhecendo a verve humorística do seu colaborador, achou dever avisá-lo de que ele deveria deixar-se de brincadeiras durante a reunião, tanto mais que os americanos só costumam achar piada às suas próprias graças.
O encontro corria bem. Palla e Carmo mantinha-se no combinado mutismo, até que um dos visitantes, mirando-o diretamente, perguntou: “Quantas pessoas trabalham no banco?”. Era um “estímulo” demasiado para Palla e Carmo, que logo respondeu, de forma curta, mas clara: “50% !”
(A imaginativa fotografia de JPC a ler um jornal é da autoria do seu irmão, o arquiteto Victor Palla)