sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Porto e o poder



Salazar não gostava do Porto. Nos lugares cimeiros da governação da ditadura, durante várias décadas, os portuenses não chegam aos dedos de uma mão. Seria o republicanismo remanescente do 31 de janeiro que o irritava? Ou o fechamento quase maçónico das famílias, a impenetrável discrição dos clãs do "Portuense", o jeito reivindicativo do empresariado que o encanitava?

Sá Carneiro conseguiu trazer o Porto para a ribalta da democracia. Com ele, a cidade voltou a ter um "share" de poder em Lisboa, o qual, no entanto, se foi esvaindo ao longo do cavaquismo, que progressivamente se confinou a algum tecnocratismo lisboeta, às vezes universitário, outras com um toque de “social” Lapa-Linha, complementado pelos fiéis de aparelho, muitos de extração provinciana. Antes, o soarismo só havia feito “os mínimos" na promoção do Porto. Depois, PS (Guterres e Sócrates) e PSD (Barroso e Passos) também não foram muito mais longe. Fica mesmo a ideia de que, quando se forma um governo, à esquerda ou à direita, chega um momento em que alguém faz pergunta: "e do Porto, quem é que se põe?". Parece não haver consciência de se estar perante um fator de deslegitimação: a importância relativa do Porto, em termos económicos, culturais ou societais justificaria uma muito maior presença de figuras da cidade nos lugares de topo do poder nacional. O fenómeno Rui Moreira, a meu ver, é uma direta consequência desse sentimento de injustiça.

A tese é discutível, e é só minha: na política portuguesa, em regra, só têm sucesso pleno as figuras do Porto que, de tanto andarem por Lisboa, já são vistas como "quase lisboetas". Alguém que traga o "letreiro"'do Porto colado à imagem, por muito competente que possa ser, sofre, não raramente, de uma rejeição, expressa ou subliminar, nos corredores lisboetas, agravada pela falta de um "networking" capaz na capital (e, às vezes, também, por erros próprios, claro). Querem exemplos flagrantes? À esquerda, Fernando Gomes, à direita, Miguel Cadilhe. E alguém duvida que figuras com a dimensão e a competência de Valente de Oliveira ou Silva Peneda, de um lado, ou de Elisa Ferreira ou Teixeira dos Santos, do outro, não teriam tido já outro percurso, à escala nacional, se não trouxessem consigo o rótulo portuense?

Tudo o que escrevi teve como objetivo olhar, prospetivamente, para a sorte que pode vir a ter uma liderança do PSD titulada por Rui Rio ou Paulo Rangel. Sem querer parecer Cassandra, sou de opinião de que a imagem do Porto que está gravada no perfil dessas figuras pode vir a limitar o seu êxito nas ambições nacionais que visivelmente alimentam. Cá estaremos para ver.

13 comentários:

Anónimo disse...

Comentario muito justo

Anónimo disse...

Montenegro, depois do escândalo das viagens, não avança nem se põe ao lado de ninguém. Marco Antonio Costa diz que abandona todos os cargos políticos sem explicar porquê. Passos Coelho renuncia a deputado. Alguém acredita nesta falta de transparência? Portas demorou apenas uns meses ate aparecer depois numa multinacional...

Portugalredecouvertes disse...


Será que se poderia substituir "Porto" por Faro ou por Coimbra, ou por Évora, e o nome das pessoas por outros nomes locais, e o texto continuaria a ter jeito ?!
bom dia para todos

Anónimo disse...

Balelas. Lisboa elege um Medina - ultratripeiro -, sem pensar-lhe a filiação nortenha, coisa que ao contrário nunca teria sucedido. O país e as cidades são mais do que as lógicas do croquete de alguns círculos fechados e de que não sai.Pacheco Pereira é ouvido há décadas por todos os quadrantes até pelo brutal desdobramento opinativo.


Valente de Oliveira tem muitos e vários motivos para não ter subido (possivelmente injustos), Teixeira dos Santos foi o todo poderoso ministro do seu Sócrates, bem queimados pelo transmontano Passos Coelho.

Nos últimos anos, Rangel tomou-se de histeria discursiva e intelectual. Rio, depois de deixar o Porto, deixou-se marcar por um perfil de oportunismo e pusilanimidade.

Luís Lavoura disse...

Sá Carneiro conseguiu trazer o Porto para a ribalta

Francisco Sousa Tavares também colaborou (nesses longínquos tempos).

Luís Lavoura disse...

só têm sucesso pleno as figuras do Porto que, de tanto andarem por Lisboa, já são vistas como "quase lisboetas"

Tipo Fernando Medina.

Francisco Seixas da Costa disse...

À atenção de alguns comentadores: quando escrevo "do Porto" não quero significar necessariamente quem lá nasceu, mas sim quem por lá fez a sua vida profissional e adulta. Julguei que isso era evidente.

Reaça disse...

Soares e Cavaco apagaram tudo o que viesse do norte, mas o norte e o interior montejunto-estrela nunca contaram para para qualquer terreiro do paço democrático-abrilista.

Anónimo disse...

É obviamente certa a opinião do Sr. Embaixador. É o fruto do centralismo deste País.
Acabaram com tudo o que pudesse ter alguma autonomia fora do chiado. Os Governos civis, por exemplo, estariam obsoletos no território e nas funções, mas tinham que ser substituídos por organismos que desempenhassem funções do Estado. Porque, descentralizar para os municípios é sim, efetivamente, centralizar no Presidente da Câmara e passamos a ter um país por concelho. Assim, qualquer planeamento político fora das “rotundas” fica sempre para ser decidido no “paço”!
O erro de casting do PSD com PPC, que demorou tanto, veio agravar tudo isto.

Anónimo disse...

As figuras do Porto nunca chegarão a lado nenhum enquanto tiverem o pensamento "provinciano" de que o Porto é que é. É estranho que um embaixador com tanto mundo continue a fazer contabilidades deste género e a afirmar coisas que já não existem há décadas como "os meninos da linha, da Marinha ou da Lapa": onde estão? quem são? Passaram uma ou duas gerações de Erasmos. Hoje somos europeus e Lisboa e Porto estão ao nível das outras cidades do mesmo calibre demográfico da Europa. E assim é entendida pelos que agora aí estão.
João Vieira

Anónimo disse...

Entretanto, em Londres, defensores da democracia espanhola pretendem juntar-se na rua para "caçar catalães", partir-lhes as janelas, ameaçar os senhorios e rebentar com as trombas a alguns".

http://www.elnacional.cat/es/politica/policia-britanica-caceria-catalanes-londres-independencia_199395_102.html

Anónimo disse...

O que interessa é que o novo líder do PSD não seja um PS "2", uma muleta para as decisões que o actual governo terá que tomar, que serviriam para sustentar O Costa de responsabilidades muleta PS "2".

A única areia na engrenagem é o PCP.

O bloco das meninas não possuem qualquer valor na sociedade, são empoladas por jornalistas esquerdas bom-bom.

O PSD deve seguir o seu caminho com propostas próprias a apresentar na AR para aprovação ou rejeição, na mesma moeda das propostas da geringonça.

O líder tem ter um programa para o interior do partido e para o País, lembrar-se, que o primeiro ministro António Costa perdeu as últimas eleições legislativas.

Passos Coelho não teve a "esperteza" de Costa.....

Se fosse comigo ( como o programa e se fosse contigo...)

Tinha-se demitido imediatamente após o discuso de Costa na noite eleitoral, mais esperto, claro, foi Portas.

Anónimo disse...

´Tudo actualmente está no "caldo" de fraude, saque, brutalidade e arrogância a que se "convencionou" chamar socialismo, seja de Lisboa ou do Porto....