sábado, 7 de outubro de 2017

A Catalunha entre nós

Há meia dúzia de meses, entre nós, a questão catalã não era conversa fora dos círculos especializados. Mobilizar a abertura para o tema, junto do público ou mesmo da academia, era uma tarefa complexa, a que pacientemente se ia dedicando, num esforço de notável empenhamento, esse grande "embaixador" informal da Catalunha em Portugal que dá pelo nome de Ramon Font.

Não posso precisar a data, mas foi algures em 2015 que recebi uma chamada telefónica de um amigo inglês. Tinha acabado de chegar a Lisboa e queria almoçar comigo. Durante o repasto, explicou-me que fazia parte de uma empresa de lóbi, paga por entidades catalãs, que preparava a independência da região. Ironizei, perguntando por que não tinham sido contratados pelos escoceses. Imagino que tenha desviado a conversa. Esse amigo voltaria a Lisboa, meses mais tarde. O seu trabalho continuava: medir o "sentimento" internacional sobre o processo pró-independentista catalão era o seu caderno de encargos. 

Recordo-me muito bem do que lhe disse. Por um lado, que não esperasse - nunca! - uma postura de qualquer governo português favorável ao secessionismo catalão. Lisboa, dependendo do "mood" que conjunturalmente prevalecesse na chefia da sua diplomacia, oscilaria entre uma postura favorável ao unionismo madrileno e uma espécie de "neutralidade colaborante" com o governo espanhol. Nada mais. 

Coisa diferente, porém, seria o sentimento da opinião pública. A meu ver, se e quando a questão acaso viesse a agudizar-se, estava seguro de que iria emergir em Portugal um sentimento popular de simpatia pela causa catalã: por uma atitude sincera face a uma vontade de auto-determinação, somada a um endémico anti-espanholismo (melhor, uma tradicional síndrome anti-Castela). 

Não me enganei. Emocionalmente, a causa catalã ganhou muitos adeptos entre nós, nas últimas semanas. E, nos dias de hoje, criou-se na opinião pública portuguesa, mesmo em parte da que não despreza a legitimidade de uma Espanha democraticamente unida, uma avaliação negativa do modo como se processou a tentativa de boicote físico do processo referendário e, igualmente, do tempo e do modo da posterior reação de Filipe VI. 

Dependendo embora da evolução do processo no terreno, e não contando com efeitos de eventuais futuros erros independentistas, fica a sensação de que a posição oficial espanhola tem mais condições de poder vir a degradar-se no juízo popular português do que a causa independentista. Contudo, isso não não deve afetar a preservação da postura do executivo de Lisboa, pelo que não é de excluir que esta se possa vir a tornar crescentemente impopular no país. Mas, repito, antevejo que a atitude oficial de Lisboa continue a ser sempre a mesma, até ao fim, qualquer que venha a ser esse fim.

(Artigo no “Público” hoje)

14 comentários:

Reaça disse...

Nesta altura, para a Europa é um sinal péssimo esta independência, logo a seguir ao brexit.
Isto é muito negativo, para o simbolismo da União Europeia em seu desmoronamento.
Há momentos para tudo, e este não é o momento nem para a Europa, nem para Portugal nem para a Espanha nem para a Catalunha.
Já estamos no tempo do filipe sexto.
Os outros já morreram há muito tempo.

Anónimo disse...

Pois...

Como referi aqui há algum tempo, este assunto já andou por cá, sem a população se dar conta. Vemos assim que isto tem sido preparado.
Não parece ser uma explosão expontânea da população catalã.
Tem de se passar a ter atenção a este assunto e tentar saber o que está por detrás disto tudo de facto.
Enfim... ele é a política no seu melhor.

Anónimo disse...

Para os meus amigos espanhois deixo aqui o tao agradavel site da fundacao Francisco Franco, que ao contrario dos, claro, ignobeis sites independentistas catalaes, nao foi mandado abaixo pelo governo espanhol

http://www.fnff.es

e digamos como se dizia outrora arriba Franco!



...mais alto que Carrero Blanco


O pior sinal disto nao é so o independentismo radical catalao, é o estado de força daquela que deveria ser a cadavérica direita falangista espanhola...


Anónimo disse...

É simples. Mais uma vez um caso de "taxation w/o representation".
O PM Rajoy tem sido intransigênte na verbe e nas directivas de actuação, mesmo que constitucionalmente compreensíveis. Teria outras opções, mais sensatas?.
O Rei bem podia ter-se resguardo. O seu estatuto era de quem até pode almejar estar acima da tempestade e actuar em conformidade. Falhou. Mal aconselhado?.
Os funcionários em exercício na UE, emparedados nas suas torres de marfim, falam como se amanhã uma Catalunha independente não sonhasse outra coisa na vida senão suplicar a sua entrada na, nesta, UE. Será que ainda não perceberam o que realmente está na génese do Brexit?.
Entretanto Merckel e Macron telefonam-se.

Anónimo disse...

A independência traduzir-se-ia para Lisboa em ser apenas a terceira capital ibérica. E não é nada evidente que em termos negociais os catalães para com os portugueses não sejam uns novos espanhóis bis... - provavelmente não ficaremos a ganhar...

Joaquim Moura disse...

"...a legitimidade de uma Espanha democraticamente unida,...". É verdade que a constituição espanhola foi referendada em 1978 e por via disso obteve uma legitimação popular e democrática. Mas será mesmo assim? No país Basco só uma minoria votou (44,6%) e destes 25,4% votaram contra. Ou seja só cerca de 33% (um em cada três) bascos votou favoravelmente uma constituição que apesar de, no seu preâmbulo, os reconhecer (tal como aos outros povos e nacionalidades do estado espanhol) como povo, lhes nega a possibilidade de exercer um direito consagrado na carta das Nações Unidas e no direito internacional: o direito à auto-determinação. Eu, - e julgo que muitos portugueses como eu - não sou a favor nem contra a independência da Catalunha. O que eu defendo é que os Catalães, tal como os Bascos, os Galegos e todos os povos no mundo devem ter o direito a escolher democraticamente o seu destino e a sua forma de governo, ou seja, o direito à auto-determinação. Assim, faz tanto sentido falar na "legitimidade de uma Espanha democraticamente unida" como na legitimidade da vontade dos catalães a votarem e decidirem o seu destino como povo e nação.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

o que me escandaliza nesta temática é ver o número não despiciendo, mesmo se claramente minoritário, dos nossos comentadores que tomam as dores de Madrid... Mas, pensando bem, está na natureza das coisas: são (quase) sempre os saudosos do salazarismo a apoiar os herdeiros do franquismo. Esses cavernícolas esqueçam contudo um facto elementar: no tempo de Salazar, os espanhóis não punham pé em ramo verde, em Portugal. Será que hoje se pode dizer o mesmo...?

A. Costa Santos

Anónimo disse...


Sobre a catalunha ver o que se pensa em França.


https://www.agoravox.fr/actualites/international/article/catalogne-vers-la-defaite-des-197431

Anónimo disse...

Para se saber como em França se olha a economia em Portugal.

https://www.agoravox.fr/actualites/economie/article/quelques-complements-d-information-197490

Anónimo disse...


Para saber como nos observem em França.
Sugestão minha ler os comentários que são ainda poucos mas interessantes.

https://www.agoravox.fr/actualites/economie/article/quelques-complements-d-information-197490

mensagensnanett disse...

É A LUTA PELA LIBERDADE QUE ESTÁ EM CAUSA!!!
-» É preciso dizer não aos hitlerianos que não suportam a existência de outros; leia-se: separatismo-50-50.
-» Os nazis que não suportam a existência de outros... olha, atirem-se ao mar e digam que os empurraram!
[obs: nazi não é ser alto e louro, blá, blá... mas sim, a busca de pretextos com o objectivo de negar o Direito à Sobrevivência de outros]
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Explicando melhor:
---»»» Todos Diferentes, Todos Iguais... ou seja, todas as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta -» inclusive as de rendimento demográfico mais baixo, inclusive as economicamente menos rentáveis.
-» Os 'globalization-lovers', UE-lovers e afins, que fiquem na sua... desde que respeitem os Direitos dos outros... e vice-versa.
-»»» blog http://separatismo--50--50.blogspot.com/.
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Nota 1: Os Separatistas-50-50 não são fundamentalistas: leia-se, para os separatistas-50-50 devem ser considerados nativos todas as pessoas que valorizam mais a sua condição 'nativo', do que a sua condição 'globalization-lover'.
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Nota 2: É preciso dizer NÃO à democracia-hitleriana; isto é, ou seja, é preciso dizer não àqueles que pretendem democraticamente determinar o Direito (ou não) à Sobrevivência de outros.
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Existe uma ameaça global: mercenários ao serviço da alta finança (capital global) trabalham para a eliminação de fronteiras: a alta finança ambiciona terraplanar as Identidades, dividir/dissolver as Nações para reinar...
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---»»» É necessário um activismo global: mobilizar resistentes autóctones de todo o planeta - sejam de Direita ou de Esquerda - para o Direito à Sobrevivência da sua Identidade; leia-se SEPARATISMO-50-50.
[manifesto em divulgação, ajuda a divulgar]
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É um problema global -» mercenários (ao serviço da alta finança), aspirantes (a donos-disto-tudo) e penduras (lambe-botas) estão impregnados de hitlerianismo: não suportam a existência de outros!
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Os MERCENÁRIOS gostam de evocar (como se tal fosse o único valor existente no planeta) que o SEPARATISMO vai trazer problemas económicos.
Na sua cegueira anti-Trump (tocou no tema-tabu -» fronteiras), os mercenários chegaram ao ponto de andar a evocar a imigração para a América... quer dizer, ao mesmo tempo que eles andam por aí a acusar povos de deixarem 'pegada ecológica' no planeta, em simultâneo, os mercenários revelam um COMPLETO DESPREZO pelo holocausto massivo cometido sobre povos nativos na América do Norte, na América do Sul, na Austrália, que (apesar de serem economicamente pouco rentáveis) tiveram o «desplante»... de quererem ter o seu espaço no planeta, de quererem sobreviver pacatamente no planeta, de quererem prosperar ao seu ritmo.
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ASPIRANTES: pessoal dotado de uma elevada taxa demográfica... ambiciona/aspira ser dono-disto-tudo.
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PENDURAS: na Europa existem muitas comunidades nativas penduras -» não trabalham para a sustentabilidade da sociedade (média de 2.1 filhos por mulher)... penduram-se na boa produção demográfica de outros!
[e mais, os penduras ao mesmo tempo que são contra a repressão dos Direitos das mulheres, em simultâneo, são uns lambe-botas da boa produção demográfica daqueles que tratam as mulheres como 'úteros ambulantes' - exemplo: islâmicos]
{Os penduras são uns lambe-botas dos aspirantes a donos-disto-tudo e da alta finança}

Francisco Guerra Tavares disse...

Os poderes fáticos da Catalunha há muito que propagam a ideia de "nós" (os catalães, muito civlizados e educados) e "eles" (o centralismo de Madrid, os outros), não deixam desenvolver as nossas instituições e a nossa cultura, estaremos melhor sem "eles", as regiões mais pobres de Espanha e o centralismo que nos exploram. A realidade do dia-a-dia desmente-o. Os dados da própria Generalitat desmentem-no.
O que é mais visível, e desde há muito, é que os "pujolistas" aplicaram as mesmas políticas austeritárias do seu grande inimigo (Estado espanhol), deixaram-se arrastar pela CUP (qual é o programa da CUP, um igualitarismo semirural), alimentaram o discurso dos "desgraçadinhos" dos catalães, e a sociedade catalã está partida ao meio. Em 5 milhões de eleitores, e admitindo que os números que a Generalitat pudessem ter a ver com a realidade, mais de metade não votou.
Ahh por causa da violência.....(sem com isso desculpar intervenções violentas, seria interessante comparar o que se passou objetivamente no Domingo, com as intervenções dos Mossos em 2011 e 2012 contra manifestantes do 15-M e grevistas).
O discurso do “direito a decidir” força a eleger entre duas identidades, violentando a realidade cultural de uma parte substancial da população catalã e espanhola em geral.
As justificadas críticas da esquerda contra as políticas anti-solidárias que praticam os tigres exportadores europeus em relação aos territórios do sul também são irreconciliáveis com a negativa dos secessionistas de esquerdas em participarem na construção de um país de países territorialmente solidário e culturalmente heterodoxo.
A zona mais opaca das esquerdas secessionistas é a sua negativa de abordar friamente as consequências de um processo de secessão (para atrair investimentos e evitar a descapitalização, políticas que obrigariam a baixar salários e a reduzir a despesa pública para favorecer os investidores internacionais, o ambiente que vai gerar a tergiversação continuada da história, o custo das ciclópicas tentativas que vai exigir o reconhecimento internacional e que obrigará a estabelecer alianças anti-naturais para o conseguir, a eventual a tentativa de um novo Estado catalão de incorporar o País Valenciano e as Baleares no seu território e zona de influência, reforço da agenda nacional noutras regiões como Euskadi, Navarra, ou Baleares, mas também em muitas outras regiões da Europa que se verão estimuladas a radicalizar o seu discurso identitário seguindo o exemplo catalão).
O projeto de fragmentação do Estado espanhol geraria uma dinâmica, muito similar à aplicação das políticas austeritárias, de debilitamento de todos os espaços públicos tanto a norte como a sul do Ebro.
Extrapolar a do início séc. XX, em que os velhos Estados se revelavam imprestáveis para a modernização e os anseios de democracia e justiça social, para a situação atual em que os Estados são os únicos atores com capacidade para fazer frente às grandes corporações, aos mercados financeiros ou aos desafios para a segurança das pessoas, etcetera, é um erro fatal.
Converter o Estado espanhol em algo comparável com a Rússia dos czares ou com o Estado franquista com o fim de legitimar a sua liquidação no início do século XXI, num momento em que as classes mais desfavorecidas somente dispõem das instituições públicas para fazer valer os seus interesses frente aos poderes económicos e financeiros, não só é fazer uma leitura fantasiosa da história do século XX, como também cometer outro enorme erro político de consequências imprevisíveis.
A autodeterminação de uma nação que nada tem de oprimida e subdesenvolvida, excepto para aqueles que nessa nação são os desfavorecidos e os excluídos pelas políticas aplicadas pelos independentistas e pelo PP a nível global.
É todo um discurso que se ouve também na Alemanha (Afd), norte da Bélgica e Itália, Países Baixos, Áustria, Finlândia. E no Brexit.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Pode ser que a causa da Catalunha tenha cada vez mais adeptos em Portugal: juntam-se o sentimento anti-castelhano e a proverbial leviandade dos portugueses (nunca medimos as consequêncais). Mas, também me parece que a causa independentista está a perder muitos adeptos (os da última hora) na própria Catalunha. A mudança de sede de algumas grandes empresas e de bancos (pilares de qualquer economia de mercado) fez "cair na real" muitos independentistas, com excepção de Carles Puigdemont que continua nas nuvens.

Mas sou dos que pensam -- leviano -- que Portugal ganharia um outro peso no contexto Ibérico.

Anónimo disse...

Qual é a sensação de estar do lado dos tipos de braço estendido? Os que atacaram gente, ontem, em Barcelona; que atacaram gente, hoje, em Valência... Que atacarão gente, amanhã, em qualquer outro lado.