Um dia, vai para meio século, Carlos Eurico da Costa, que dirigia a empresa publicitária Ciesa-NCK, setor que atravessava tempos difíceis e que então se tentava reinventar, sabendo-me um compulsivo leitor de imprensa, por me ver comprar resmas diárias de jornais, fez-me um desafio: não estaria eu disposto a redigir um boletim semanal, onde registasse os principais factos da atualidade política portuguesa, sublinhando - e essa era a novidade - o modo como os diferentes órgãos da imprensa escrita os tinham analisado ou sobre eles tinham opinado? A ideia era simples: descrever os factos e as figuras nele relevantes através do olhar da diversa imprensa.
Segundo a sua perceção, haveria um mercado potencial para esse produto, nas embaixadas e empresas estrangeiras, que viviam um pouco perdidas e aturdidas, nesse período pós-Revolução, em face da variedade política e ideológica da época, para conseguirem identificar o que se passava de realmente importante e estabelecer o quem-é-quem das figuras públicas que emergiam e de que então se falava. O estilo da escrita tinha de ser absolutamente neutro, independente. O rigor nessa análise era essencial, para justificar a compra, até porque a assinatura não seria barata (se um produto dessa natureza fosse barato, ninguém compraria…)
“Nada melhor do que um diplomata para redigir uma coisa assim!”, disse-me o Carlos. É que eu já era então diplomata, desde há algum tempo. Confesso que me atravessaram algumas interrogações sobre se aquele tipo de trabalho era compatível com o que eu desenvolvia nas Necessidades. Mas era evidente que nada daquilo que eu fazia, no meu dia a dia profissional, se confundia com a política interna portuguesa que me era proposta como objeto de uma análise factual, através da nossa imprensa.
Aceitei o desafio. O Carlos era meu primo e tínhamos uma relação muito próxima. Já me tinha conseguido um emprego, em “part-time” bem matutino, na Ciesa-NCK, logo após o 25 de Abril, ao tempo que eu fazia serviço militar, tarefa que tinha abandonado quando entrei para o MNE. Eu regressaria assim à colaboração com a empresa.
Demos ao boletim o nome pouco criativo de “Análise da Informação”. “Tem de ter uma designação sóbria, profissional”, decidiu o Carlos Eurico, que “sabia da poda”, quer da informação quer da vida empresarial.
Sob o ponto de vista financeiro, a compensação não era grande, mas ajudava-me a compor o baixo salário de um diplomata em início de carreira. Como tarefa e em termos de ocupação de tempo, o exercício veio, contudo, a revelar-se um “inferno”: deixei de ter os fins de semana livres, o vizinho do andar de baixo veio queixar-se de que o debicar na minha Olivetti portátil não deixava dormir o filho recém-nascido, a minha mulher queixava-se de que não tínhamos o menor tempo para nada. E eu andava cada vez mais estourado!
Creio que aguentei aquilo, sozinho, cerca de dois meses. Um dia, disse ao Carlos que não podia continuar. Tinha de encontrar outra pessoa para executar o trabalho.
O Carlos, que não era pessoa para se atemorizar com os contratempos, teve logo uma ideia. Se eu não aguentava a “barra” sozinho, criava-se uma equipa. Mas insistia que eu ficasse nela, com “um terço do trabalho”. E ganhando o mesmo. Foi então que me dei conta de que o projeto tinha começado a ter sucesso, que havia cada vez mais clientes, e que, porventura, não estaria mesmo a ser pago à altura do que produzia. Mas de nada valia queixar-me do passado.
Dias depois, o Carlos trouxe a solução. Para a coordenação, ia o José Silva Pinto, um dos jornalistas fundadores de “O Jornal”. O terceiro redator, por sugestão do José Cardoso Pires, seria Francisco Vale, que hoje dirige a editora “Relógio de Água”, e que eu já conhecia de tempos comuns no Teatro Universitário do Porto. Em alguns momentos, a “Análise”, nas nossas férias, viria a ter a colaboração do Manuel Beça Múrias e do Carlos Cáceres Monteiro, ambos pertencentes ao “dream team” de “O Jornal”.
O pagamento continuava a não ser muito elevado, mas o Carlos introduziu-lhe uma novidade apelativa: o nosso salário ficava indexado ao número de exemplares vendidos. Ele comprometia-se a dar-nos conta mensal do andamento do negócio. E ele era um homem de contas certas, como nós sabíamos.
Passaram uns meses, Um dia, o Carlos telefonou-me, com voz “de caso”: “Precisava de falar contigo, antes de ambos termos uma conversa com o Silva Pinto e com o Vale”. Passei por casa dele, onde vivia com a Maria Lúcia Lepecki, e fui confrontado com um ”problema”: “A Ciesa acabou de fazer um contrato que, praticamente, triplica o número de exemplares vendidos. Como é que saímos disto?”.
Imagino que os meus olhos rissem, quando lhe respondi: “Essa agora! Não há o menor problema, é bem simples: triplicas os nossos salários!”. O Carlos ficou possesso: “Estás doido! Não posso fazer isso! Por um trabalho em “part-time” vocês passariam a ganhar um dinheirão!”. Eu estava muito divertido, a rir por dentro. “Tens de me ajudar na conversa que tenho de ter com o Silva Pinto!”. Eu continuava divertido, já a gargalhar em seco…
Dois dias depois, a equipa da “Análise da Informação” era convidada pelo Carlos Eurico da Costa para almoçar no “Caramão da Ajuda”. Quando cheguei, vi que a mesa estava cheia de belas entradas. Com um bom vinho. O Zé e o Francisco ainda não tinham chegado. O Carlos alertou-me: “Vê se me ajudas na conversa”. Eu ironizei: “Por isso é que nos trazes para o Caramão… da Ajuda?”.
Lá almoçámos. Deixei a despesa da conversa para o nosso coordenador, o José Silva Pinto, com o Carlos a lançar-me olhares, na esperança que eu fizesse alguma concessão masoquista que fragilizasse a coesão do trio. É o fazes! Lá se acordou um arranjo, já não sei de que forma, para “não sairmos milionários”. Não saímos, mas tivemos um belo aumento. Por essas horas extra que fazia para a Ciesa, eu ganhava quase o dobro do que o MNE me pagava. Foi um bom negócio.
Em maio de 1979, fui colocado no estrangeiro. (Alguns amigos perguntavam-me então da razão da minha teimosa relutância em sair para um posto: aqui fica a explicação). Soube que a “Análise de Informação” continuou, por mais alguns anos.
Ontem, o José Silva Pinto, contactou-me, para refrescar a memória sobre um pormenor desses tempos. Lembrei-me de recordar hoje estes episódios da nossa aventura comum. Que ajudou a cimentar a nossa amizade.
