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sexta-feira, junho 17, 2022

Trintignant


Há precisamente dez anos, numas férias por França, estacionei o carro no largo de uma pequena cidade, Piolanc, a norte de Avignon. Entrei num café e, numa parede, vi um foto, bem antiga e assinada, de Jean-Louis Trintignant. Para fazer conversa, perguntei à senhora que me serviu se conhecia o ator. Olhou para mim, com um sorriso simpático e desculpavelmente sobranceiro, deixando cair: “Ele é de cá. E é nosso cliente”.

Não fazia a menor ideia de que por ali tinha nascido um dos atores franceses que, desde há muito, tanto admirava. Uma extraordinária figura do cinema, de quem vi imensos filmes. Quero lembrar três e, de certo modo, esquecer um. O primeiro, dirigido por Dino Risi, muito antigo, com Vittorio Gassman, “Il Sorpasso”, que muito marcou a minha adolescência. Outro, já na idade adulta, que me levou a ler Pascal, o “Ma Nuit Chez Maud”, de Rohmer, e que, um dia, me fez, por horas, procurar paisagens de memória nas ruas e arredores de Clermont-Ferrand. Finalmente, um último filme que me tocou imenso, mais recente, sobre um casal idoso, em que o Alzheimer intervem, película cujo nome não recordo. Qual é o filme que lembro que quero esquecer? O delicidoce “Un Homme et une Femme”, de Lelouch, de longe o seu maior êxito de bilheteira. 

Recordo-me ainda de Trintignant ter atravessado, há duas décadas, uma tragédia familiar, com uma filha brutalmente agredida pelo namorado, num país báltico, vindo a morrer em França, dias depois. A cara do ator, muito dada ao rictus angustiado, estava, dessa vez, a transmitir as dores da vida real. 

Leio que Trintignant morreu hoje.

Então?!

Parece haver sérios problemas na organização logística no combate às consequências da intempérie? Mas é minha impressão ou anda por aí, agor...