As redes sociais acabam por ser, frequentemente, um vale de nostalgias. O “antes é que era bom” é, por aqui, o mote costumeiro. As pessoas não se dão conta de que, em regra, a idade tende a cristalizar apenas as memórias positivas. Por isso, as saudades são, quase sempre, apenas as saudades que temos de nós mesmos, nesses outros tempos, em que éramos mais novos, mais saudáveis, sem tantas preocupações, com os nossos ainda junto a nós, em que o futuro, em que tudo parecia possível, estava ainda à nossa frente.
Lembrei-me disso nestes dias em que, tendo de viajar entre a “Invicta” e Vila Real, decidi, metade à ida, metade à volta, para contrariar a rotina, fazer uma “rota de saudade” pela velha estrada que, no passado, era a única ligação entre o Porto a Amarante, quando a A4 nem miragem era.
Descontado para estas contas o dédalo do Marão, nesses outros tempos eu quase que conhecia de cor todo aquele percurso, as curvas, os poisos de comida, as lojas à beira da estrada (ainda lá está o inesquecível Bazar Fatinha, na Travanca), as “bombas” de gasolina, os cruzamentos, até algumas árvores que marcam a paisagem. De início, ia por ali em carros de familiares, depois nas camionetas do Cabanelas, mais tarde ao volante.
Fiz aquilo “mil vezes”. Em todas essas vezes, tive tempo para olhar para tudo, para a Assembleia de Penafiel, para os bombeiros de Baltar (hoje, vi que mudaram de sítio), para uma farmácia, perto de Paredes, numa moradia que eu tinha como modelar: sempre achei que a farmacêutica devia viver em cima e que seria muito cómodo descer, a meio da manhã, para ver como ia a caixa. E, divertido que ia, dei comigo a esperar que uma senhora de forte buço nos viesse vender regueifas, como então o fazia, com elas penduradas no braço, numa higiene pré-ASAE, entrando nas camionetes “de carreira” ou em vendas à berma da estrada.
De repente, caí em mim, parei a retrospetiva e olhei para tudo aquilo com olhos de ver.
Já experimentaram refazer aquela estrada, sem nostalgias? De Amarante até Ermesinde ou Rio Tinto? Já repararam no horror da maioria daquela paisagem, entre o suburbano degradado e o rural em quase total descaso? Já olharam bem alguns monstros arquitetónicos com que, a cada passo, deparamos, o alumínio das marquises, as cores sinistras e inimagináveis de muitas das casas, as ruínas frequentes, os muros caídos, os azulejos de gosto abaixo de péssimo que enchem as paredes?
Dá vontade de pedir uma espécie de sindicância estética, requisitar fundos europeus para demolir alguns daqueles monstros ou, como um dia me dizia um amigo apocalíptico, num passeio pelo Algarve, “só um saudável terramoto podia resolver isto”.
Eu não iria tão longe na cruel metáfora. Mas é desse Portugal, desses “bons tempos”, do país da “estrada velha”, que alguns ainda têm saudades?
Deixo-os com a imagem de uma esquina arruinada da Tabopan, da Abreu, perto de Amarante, onde, não muito longe, me lembro de haver uma fábrica de caixões. Este é bem a imagem desse Portugal já “falecido”.
Viva o futuro, caramba!