“Olha lá! Agora deu-te para só escrever sobre coisas levezinhas?” O remoque veio pelo telefone, ontem, de um daqueles amigos em cujos ombros, com a idade, parece ter caído o peso do mundo, que andam com “ar grave e sério”, como o Porto Sentido do Rui Veloso, talvez por frequentarem demasiado Boaventura Sousa Santos ou António Barreto, dependendo do tremendismo apocalíptico por que optem. Ler-me sobre trivialidades - um chá, uma refeição, uma paisagem - parece-lhes quase ofensivo, quando há gente a morrer com bombas em Cabul, quando o clima mundial se degrada e ninguém faz nada de jeito, quando ainda não sabemos se Ricardo Salgado já terminou o périplo pela Sardenha e outros temas magnos, como a atualidade de certas epístolas que falam de senhoras ou o “mood” no congresso socialista em zona de banhos. Alguns desses amigos, que têm a mania que me conhecem, ainda se dão ao luxo de correr o risco de levar a sério o que eu digo, coisa de que eu próprio há muito me deixei.