sábado, 14 de agosto de 2021

O primeiro




Lembro-me bem. Era outubro de 1987. Eu tinha ido ocupar um pequeno gabinete individual no terceiro andar do Palácio das Necessidades, situado no cruzamento de dois grandes corredores, dispondo de uma janela para o claustro. Aquele iria ser o meu pouso, por quase três anos.

Verdade seja que esse chamado “terceiro andar”, onde também fica o gabinete do ministro, é, na realidade, o primeiro andar, para quem entra pelo Largo do Rilvas. Sobre ele existe um “quarto andar”, onde se gere financeira e patrimonialmente o ministério. No MNE, os andares contam-se a partir de mais abaixo, ligados por elevadores, que ainda conheci à moda antiga…

Um dia, uma jovem diplomata coincidiu num desses elevadores com um certo ministro. Este, galifão conhecido, perguntou-lhe para que andar ela ia: “Para o quarto”, respondeu ela. Com um sorriso amalandrado, o governante inquiriu, fazendo corar a jovem: “Já? A esta hora?” O ministro terá saído no terceiro andar, em frente ao gabinete que eu ocupava. E ela lá seguiu, para o “quarto”… andar.

Quando aquele invejável espaço me foi atribuído (eu tinha condicionado a aceitação de um determinado convite a poder dispor de gabinete individual), encontrei-o pobremente equipado. Andei assim uns dias a coletar peças, com a cumplicidade de um secretário-geral adjunto que fez o favor de me ajudar: sacou um sofá à Inspeção, um armário que estava junto ao Pacto, duas cadeiras da EOI, tudo sempre “bifado”, sob a sua bênção oficial, nas discretas horas do almoço. Escolhidas as peças, de seguida pedia-se ao Montez, o carregador oficial da casa, para as encaminhar para a minha sala. E assim montei, em poucos dias, um gabinete razoavelmente ”asseado”, ainda alindado com uns quadros tirados não sei bem de onde…

No primeiro dia em que cheguei ao gabinete, notei que havia por lá um caixote, num canto, por abrir. Era um computador, um ”286”, não sei se Olivetti, novinho em folha, parecido com o que a imagem mostra. 

Totalmente analfabeto na matéria, coloquei aquilo numa mesa e fui procurar o meu colega Rui Felix Alves, que me constava que sabia da poda. Foi ele quem me deu as primeiras ”luzes” sobre o funcionamento e utilidade daquilo (depois, até hoje, aprendi sempre e só por mim, o que é uma imensa asneira, desde já aviso) e me ajudou a funcionar com a maquineta. Ela acabou por ser a ser primeira das muitas dezenas e diferentes tipos, ao longo destes trinta e tal anos em que passei a ficar totalmente dependente destas tralhas informáticas. Até vir a acabar neste iPad em que agora escrevo, aqui na praia. E só até ao próximo, claro.

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