segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A teoria do melão

 

Estávamos em fevereiro de 2009. Eu tinha acabado de chegar a França, para aí ser embaixador, saído do Brasil. 

Confrontado com um pedido urgente de parecer sobre uma figura que percebi que um certo lóbi em Lisboa queria, com estranha pressa, nomear como cônsul honorário, num local que não vem agora para o caso, recusei dar a menor opinião. Apenas recomendei que não houvesse precipitações.

Não só era verdade que não dispunha de dados suficientes sobre a pessoa em causa, como, por regra, desconfiava das propostas de nomes de cônsules honorários que me chegavam da capital. Uma longa experiência, alguma relevante e que, ao tempo, era bem recente, mostrava-me que tais indigitações vindas da “sede” correspondiam, a maior parte das vezes, a fretes político-partidários. 

Acresce que, se a nomeação de um cônsul honorário é, em si, um processo relativamente expedito, já o seu afastamento de funções, mesmo em caso de evidente inadequação para elas, é pesado e muito complexo de executar. 

Sei bem do que falo. Não muito tempo antes, no Brasil, eu tinha feito “veto de bolso”, por mais de um ano, a uma nomeação de um cônsul honorário que havia sido decidida pelo MNE, à minha revelia. Lisboa veio a congratular-se, e mesmo a agradecer, essa minha atitude, mas apenas quando constatou que o homem foi condenado a dezenas de anos de cadeia... 

Há hoje, por todo o mundo, gente magnífica no corpo dos cônsules honorários, pessoas de nacionalidade portuguesa ou estrangeira, a cuja dedicação o país muito deve. Mas também há alguma outra que estraga o bom nome dos primeiros e a que o Estado português desejavelmente deve procurar não ficar associado - como os títulos do “Correio da Manhã” às vezes nos lembram. Por isso, aprendi que, ao nomear alguém para cônsul honorário - e eu propus a nomeação de algumas pessoas para essas funções - todo o cuidado e “cross-checking” informativo é pouco.

Hoje, numa limpeza de emails antigos, descobri (coisa rara, porque não guardo quase nada do meu tempo no MNE) o texto do meu telegrama de resposta ao pedido recebido em Paris, há já 12 anos.

Esse meu texto terminava com uma “teoria geral”, recomendando extremo cuidado com essas indigitações: “Dado que sobre os putativos Cônsules Honorários não há, muitas vezes, qualquer indicação prévia quanto à sua disponibilidade pessoal, adequação aos interesses da Comunidade e outros fatores que só a prática pode vir a revelar, a eles se aplica a lógica dos melões: só depois de “abertos” se provará se são bons ou não”.

Disseram-me que o meu telegrama muito enfureceu um pequeno poderzinho político que havia lá por Lisboa. Para a história que importa: a pessoa acabou por nunca ser nomeada.

3 comentários:

Dulce Oliveira disse...

Segundo a minha avó, este principio também vale para outras coisas, como o casamento

Jaime Santos disse...

Eu conhecia naturalmente a expressão veto de gaveta, nunca me ocorreu que também se podem meter as ordens superiores ao bolso :), o que é evidente quando se pensa nisso...

Creio aliás que a prática terá sido popularizada fora das chancelarias por M. de Talleyrand, que aparentemente guardava a correspondência diplomática de Napoleão por uns dias, no caso deste se arrepender do que tinha escrito no entrementes... Imagino que fosse prática corrente muito antes desse príncipe dos diplomatas ter nascido...

Parece-me que no caso que cita, o MNE deve ter suspirado de alívio porque o Senhor Embaixador fez o mesmo em relação à nomeação...

Tony disse...

O Sr. Embaixador revelou e revela além da experiência, um certo e importante "faro e previdente intuição" nos assuntos que relatou. Por esta sua postura cívica, faz com que, sem favor, tenha especial simpatia por si. Parabéns.