terça-feira, 24 de agosto de 2021

Há almoços grátis?


Um dia, vivia eu no Brasil, recebi um telefonema de Júlio Miranda Calha, à época deputado socialista. Havíamos coincidido, anos antes, num mesmo governo.
  
Perguntou-me se acaso eu tinha intenção de vir a Portugal, numa data próxima. Por mera coincidência, contava ir na semana seguinte. “Gostava de o convidar para almoçar”, disse-me. Não perguntei o motivo desse interesse. Ficámos de combinar o local.

Não éramos íntimos, mas tínhamos uma boa empatia pessoal. O Júlio, infelizmente já desaparecido, era uma pessoa discreta, sempre sorridente, com humor, um homem moderado, ponderado e sério, bastante estimado pelos seus adversários políticos. Que quereria ele de mim? 

Chegado a Lisboa, numa manhã de sábado, comprei o “Expresso” (foi já há muito tempo: o “Expresso” ainda saía ao sábado…) Trazia uma entrevista com o Júlio Miranda Calha, que o jornal anunciava como coordenador do PS para as próximas eleições autárquicas.

Ainda nessa noite, jantei com o Henrique Cayatte e com o António José Massano no “Café de São Bento”. Já nem sei bem porquê, veio à baila a entrevista do Miranda Calha. Eu referi o almoço que iria ter com ele. Não sei qual daqueles meus amigos disse: “Às tantas, ainda te vai convidar para candidato autárquico!” Passei o resto do bife a matutar no assunto.

Eu já tinha titulado uma candidatura à presidência da Assembleia Municipal de Vila Real, anos antes, como independente, numa lista do PS. Fui então derrotado por Passos Coelho. Não é esse em quem estão a pensar, mas o pai dele, um homem muito afável com quem, a partir daí, estabeleci uma excelente relação pessoal. O PSD era então a força dominante na autarquia. Eu costumava dizer que, em Via Real, “a direita estava no poder desde a ‘pedra lascada’ “. Os meus amigos “do outro lado”, que sempre os tive e tenho, nunca pareceram apreciar a minha graça pré-histórica, ainda hoje estou para saber porquê…

Estaria o PS a pensar em mim para alguma Câmara? A ideia assustava-me, pelo absurdo. Tinha a minha vida profissional bem estabilizada. Acabado que fosse o posto de embaixador no Brasil, iria para outro país e, depois disso, aposentado do serviço público, regressaria calmamente a Lisboa, com data marcada, talvez para dar aulas numa universidade ou fazer outras coisas que me apetecesse e a vida me proporcionasse. A última das que me nunca me passaria pela cabeça era ser autarca, para o que não tinha a mais ínfima vocação. Aliás, não me via a fazer rigorosamente nada na política ativa, dessa ou de outra natureza. Essa porta estava definitivamente fechada na minha cabeça, por muito que alguns continuassem a pensar o contrário.

Estimulado pelos meus dois amigos de mesa, já tão curiosos como eu, decidi telefonar, dali mesmo, ao Miranda Calha. “Ó Júlio! Por acaso, o almoço que querer ter comigo não tem a ver com algum tema autárquico, não?”. Do outro lado, a reação foi a temida: “Por acaso, tem”, disse-me ele. “Então, meu caro amigo, é melhor anularmos o almoço. É que em nenhum cenário, mesmo nenhum!, estou disponível para exercer cargos autárquicos”.

O Júlio Miranda Calha deve ter então percebido que estava equivocado quanto à minha potencial disponibilidade. Mas ainda arriscou: “Mas você não comprou, recentemente, uma casa em Vila Real?” De facto, eu tinha trocado por outro, meses antes, um andar de que ficara proprietário, pela morte do meu pai, mas isso estava muito longe de poder fazer presumir a alguém que eu iria viver para lá. E como é que ele tinha tido conhecimento disso? Nunca soube quem teria “vendido” aquela ideia ao Júlio Miranda Calha. Talvez o António Martinho, que estaria ”no segredo dos deuses”, possa agora esclarecer alguma coisa, se quiser…

Lembrei-me desta história ontem, ao assistir ao debate televisivo com os quatro candidatos à presidência da autarquia de Vila Real. Cidade que está hoje muito bem servida nessa matéria. E onde, daí a pouco, vou jantar. E vou pagar esse jantar, ao contrário do almoço ”grátis” que o Júlio Miranda Calha me ia oferecer e que me podia ter saído bem caro…

4 comentários:

Flor disse...

Desejo-lhe um bom jantar :)

Jaime Santos disse...

Eu provavelmente teria papado o jantar e explicado ao seu amigo durante o mesmo que não estaria disponível para uma candidatura :) ...

Gonçalves Cansado disse...

Há almoços que um ex-emigrante não percebe, como o de Marcelo com Bolsonaro. Ontem, Sissoco Embaló foi recebido, em Brasília, com pompa e circunstância.

Gonçalves Cansado

António Martinho disse...

Nesse tempo já não estava tanto no "segredo dos deuses" como em 1997, aquando da sua aventura na candidatura à Presidência da Assembleia Municipal, em que eu ia em 2º lugar, aliás, uma honra para mim. Mas se o Miranda Calha me tivesse perguntado, pelo que conhecia de si, ter-lhe-ia dito para avaliar outra opção. É que a ambiguidade da Lei que vigorava em 1997 tinha-nos obrigado a conversar bastante sobre essas questões e apercebi-me da sua disponibilidade em servir Vila Real e a região. mas não nessas funções de Presidente de Câmara. E isso está bem patente no seu percurso de vida.
Ah! E continue a contar-nos estas suas histórias.