domingo, 13 de maio de 2018

Rosado Fernandes



Há muito que tinha deixado de ver Raul Rosado Fernandes. Acabo de saber que morreu.

Conhecemo-nos no Parlamento Europeu, de que ele era membro pelo CDS, lugar de que, durante vários anos, fui regular visitante em trabalho. Lembro-me de que era então muito crítico do governo de que eu fazia parte, em particular do modelo de Europa que eu defendia. Cáustico, com alguma assumida sobranceria, alimentava um euroceticismo endémico e irreconciliável. Uma insuperável distância política manteve-se sempre entre nós - e a isso seguramente não era indiferente o facto de uma noite, num jantar no Kammerzell, em Estrasburgo, o antigo presidente da CAP, que ele tinha sido, ter percebido que tinha à sua frente alguém que, sem complexos, defendia abertamente as virtualidades da Revolução de abril. Com o tempo, fiquei contudo com a sensação de que essa barreira se diluiu um pouco, ao ele se ter dado conta de que eu partilhava algumas das suas preocupações no tocante à necessidade de preservar o poder decisório nacional no quadro europeu. 

Há sete anos, depois de um painel em que ambos interviémos na Universidade de Lisboa - onde ele fora catedrático de Filologia Clássica -, escrevi neste blogue: “Devo dizer que, discordando genericamente da leitura que o antigo deputado europeu e dirigente da CAP faz sobre o "saldo" da nossa presença na Europa, respeito a sua perspetiva soberanista e reconheço nela uma genuinidade que me não é indiferente.”

Lembro-me de lhe ter dito, nessa ocasião, de que tinha lido as suas “Memórias de um Rústico Erudito”, um livro publicado anos antes e que tinha passado quase despercebido da crítica. “A sério?! Leu?” Pareceu-me ter ficado satisfeito pelo facto de alguém que estava muito longe da sua área política se ter dado ao cuidado de estar atento a essas suas recordações da vida que hoje acabou.

5 comentários:

Anónimo disse...

As "memórias de um rústico" é um livro muito interessante. Lembro uma pequena estória nelas contado: o avô de Rosado Fernandes estava ao lado de Sidónio Pais quando este foi assassinado e contava que as suas últimas palavras não foram "salvem a Pátria", como deste então se escreveu e contou, mas sim: "não me apertem, rapazes".
João Vieira

Reaça disse...

Um português a cima da média.

O que parece fácil, mas não é.

Luís dos Santos FerroUnknown disse...

Mui estimado Francisco,
A tristeza que a notícia me causou! Havia conhecido o Raúl Miguel na casa do inesquecível Ruben [Leitão], em Estremoz. Vinham amigos almoçar e o Ruben, inquieto e cuidadoso, dizia "só falta o grego!". À sua chegada, surpreso, descobri quem era -- e não era grego! Durante anos pedi-lhe várias informações e orientações no domínio da Cultura e temas do Mundo Clássico. Aceitou que amistosamente o designasse -- tinha certeiro sentido de humor -- por 'meu consultor'. Disponível e engraçado, foi-me utilíssimo ...

LSF

Anónimo disse...

O soidisant «rústico», que de rústico nada tinha, no meu tempo de Faculdade, teria dito que: canetas, carros e mulheres, só ingleses... Ficou a «boutade», que nunca o impediu de ser um bom assistente na área de Clássicas.

Anónimo disse...

à época, os assistentes, muito mal pagos, desciam a rampa da Cidade Universitária, para apanharem o autocarro lá em baixo, o que equivalia a pouparem uns tostões no bilhete (não havia passes nos anos 60). Ele tinha um MG, daqueles baixinhos descapotáveis. Porque, para a época, era rico, filho de latifundiário. Simpático e educado, embora arrogante também.