Há muito que tinha deixado de ver Raul Rosado Fernandes. Acabo de saber que morreu.
Conhecemo-nos no Parlamento Europeu, de que ele era membro pelo CDS, lugar de que, durante vários anos, fui regular visitante em trabalho. Lembro-me de que era então muito crítico do governo de que eu fazia parte, em particular do modelo de Europa que eu defendia. Cáustico, com alguma assumida sobranceria, alimentava um euroceticismo endémico e irreconciliável. Uma insuperável distância política manteve-se sempre entre nós - e a isso seguramente não era indiferente o facto de uma noite, num jantar no Kammerzell, em Estrasburgo, o antigo presidente da CAP, que ele tinha sido, ter percebido que tinha à sua frente alguém que, sem complexos, defendia abertamente as virtualidades da Revolução de abril. Com o tempo, fiquei contudo com a sensação de que essa barreira se diluiu um pouco, ao ele se ter dado conta de que eu partilhava algumas das suas preocupações no tocante à necessidade de preservar o poder decisório nacional no quadro europeu.
Há sete anos, depois de um painel em que ambos interviémos na Universidade de Lisboa - onde ele fora catedrático de Filologia Clássica -, escrevi neste blogue: “Devo dizer que, discordando genericamente da leitura que o antigo deputado europeu e dirigente da CAP faz sobre o "saldo" da nossa presença na Europa, respeito a sua perspetiva soberanista e reconheço nela uma genuinidade que me não é indiferente.”
Lembro-me de lhe ter dito, nessa ocasião, de que tinha lido as suas “Memórias de um Rústico Erudito”, um livro publicado anos antes e que tinha passado quase despercebido da crítica. “A sério?! Leu?” Pareceu-me ter ficado satisfeito pelo facto de alguém que estava muito longe da sua área política se ter dado ao cuidado de estar atento a essas suas recordações da vida que hoje acabou.