domingo, 20 de maio de 2018

Carvalho Araújo


José Botelho de Carvalho Araújo é a figura representada numa estátua que domina a avenida principal de Vila Real, que leva o seu nome.

Foi o oficial da Marinha que comandou o caça-minas “Augusto de Castilho”, um débil navio da Armada portuguesa que, em 14 de outubro de 1918, durante mais de duas horas, defrontou um poderoso submarino alemão, dando tempo a que o navio mercante “São Miguel”, que lhe competia escoltar, com mais de duas centenas de pessoas, no seu trajeto da Madeira para os Açores, pudesse pôr-se a salvo. O “Augusto de Castilho” acabou afundado pelos alemães, Carvalho Araújo morreu no combate, parte dos seus companheiros conseguiu aportar, em botes, nas costas açoreanas. Foi um ato heróico que a nossa história naval regista com orgulho.

Carvalho Araújo era vila-realense. Ontem, a convite da Câmara Municipal de Vila Real, no seu salão nobre, no início de um programa de celebrações nacionais em sua memória, na presença de representantes da Marinha portuguesa e de familiares do homenageado, falei dessa interessante figura da cidade. Conspirador contra a monarquia, membro da Assembleia Constituinte que redigiu a Constituição de 1911, Carvalho Araújo foi também uma interessante personalidade republicana, que teve uma distinta passagem pela administração colonial. 

Nasci e vivi perto da estátua de Carvalho Araújo. Em 1958, pela mão do meu pai, vi nela ser depositada uma coroa de flores pelo general Humberto Delgado. Nos anos da minha infância e juventude, todos os dias 9 de abril, data da batalha de La Lys, observei por ali cerimónias com antigos participantes transmontanos na batalha, entre os quais o célebre soldado Milhões, o qual, tal como Carvalho Araújo, era possuidor da mais alta condecoração militar portuguesa, a Torre Espada de Valor, Lealdade e Mérito.

Tive muito gosto em participar na evocação desta personalidade, política e militar, que diz muito à minha cidade. Por vezes, o facto das estátuas fazerem parte da paisagem urbana contribui para uma certa banalização histórica das figuras nelas representadas. Por essa razão, parar para as lembrar com alguma atenção é um gesto que ajuda a relegitimar a respetiva implantação e a justificar, histórica e afetivamente, a sua permanência nessa mesma paisagem.

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Para os gregos, uma atitude baseada num pensamento e lógica não egoísta era considera “sagrada”, excedendo os limites das capacidades e dons humanos.
Aliás, etimologicamente, o termo herói vem do grego hrvV, que mais tarde foi adaptado para o latim heros.

As grandes narrativas gregas, como a Odisseia e a Ilíada, contam histórias de importantes personagens consideradas como heróis gregos, como Aquiles, Teseu e Hércules, por exemplo.

Carvalho Araújo bem merece de ser recordado, porque morreu em Heroi, pelos outros.

Artur Santos Leite disse...

Desculpe, mas Carvalho de Araújo nasceu no Porto e depois é que foi viver para Vila Real.

Anónimo disse...

Sim, Artur Santos Leite, mas pode ter a certeza que foi feito em Vila Real antes de ir nascer ao Porto, de onde regressou logo após, aliás.

Anónimo disse...

Nasceu no Porto mas é certo que se fez Homem e quase certo que tenha sido feito, em Vila Real!

A paisagem urbana seja pelos elementos escultóricos ou outros, seja pela organização e o ordenamento é um fator fundamental na identidade individual e na preservação da memória, pelo que a sua consrvação é vital.

Mas há quem diga que tudo é possível uma vez que poucos sabem quem foi Carvalho Araújo!
Propus, assim que, a substituírem a imagem atual, mudassem também as designação de Carvalho Araújo para Dinis Rodrigues e a Praça Municipal para Salvador Sobral.