quarta-feira, 30 de maio de 2018

Os da estrada de Damasco

As prioridades mediáticas, entre a Coreia e a Itália, fizeram esquecer que, nas últimas semanas, Assad reforçou o seu poder na Síria, que os russos estão a tentar um “modus vivendi” dele com Israel e que a Jordânia já quer reabrir a fronteira. 

Até Trump parece ter desistido do “regime change” em Damasco, que, a bem dizer, nunca foi um verdadeiro objetivo central de muitos poderes ocidentais. A começar por Israel, que conseguiu coexistir com o Assad pai e a quem uma vizinhança de regimes autoritários, mas estáveis, sempre conveio.

Se o Irão conseguir equilibrar as ambições que projeta através do Hezzbolah, se a Turquia se sentir confortada e aceite na zona síria que hoje controla e se se souber conter perante os aliados curdos dos EUA, o futuro imediato de Assad poderá vir a ser menos turbulento. Mas os “se”, no Médio Oriente, são como o “diabo” nos pormenores.

Por cá, a vitória de Assad é um regalo para os anti-americanos da paróquia, os mesmos que o apoiam como antes apoiavam Milosevic. Eles estarão sempre ao lado de qualquer regime que desafie Washington, do de Putin ao norte-coreano ou dos clérigos iranianos. E com Trump a fazer piorar ao limite a imagem americana, o seu ódio à América (onde, aliás, adoram passar férias) sente-se hoje confortado. 

Esses viúvos não assumidos da União Soviética, com um ”penchant” nostálgico para ditadores ou para autoritarismos, desde que anti-ocidentais, são uma raça velha em extinção. Uma espécie de lince da Malcata, só que sem futuro. Ah! E acham-se de esquerda, o que é o cúmulo das ironias.

9 comentários:

Anónimo disse...

Tudo tão giro, lá ao fundo. Aqui ao lado, o governo corruptíssimo está quase a cair, a autodeterminação dos catalães continua refém de todo o tipo de tropelias jurídicas e o Ferreira Fernandes desapareceu...

Luís Lavoura disse...

o “regime change” em Damasco [...] nunca foi um verdadeiro objetivo central de muitos poderes ocidentais

Não sei a quais se refere (Israel não é um "poder ocidental", pelo contrário, é um país bem oriental), mas eu o que tenho visto reiterado, pela França (de forma muito explícita e muito recente), pelo Reino Unido (basta ler o Economist para saber por onde anda a política externa desse país), até (de forma muito mais discreta) pelos EUA, é que só aceitam um arranjo final em que Assad tenha sido derrubado.

Fico portanto muito espantado com esta afirmação do Francisco.

Luís Lavoura disse...

os mesmos que o apoiam como antes apoiavam Milosevic

Creio que nunca ninguém apoiou Assad nem Milosević. Ninguém. O que pessoas como eu fazem é criticar quem pretende derrubar esses ditadores através de intervenções externas, especialmente intervenções violentas. Criticar quem pretende derrubar ditadores através de intervenções externas não é o mesmo que apoiar esses ditadores.

Luís Lavoura disse...

o seu ódio à América (onde, aliás, adoram passar férias)

Eu trabalhei (não passei férias!) na Pensilvânia durante três anos, há quase 25 anos. De então para cá nunca voltei a pôr os pés nos EUA. Não sei a quem se refere com o gosto de passar férias nos EUA, mas certamente não é a mim.

Luís Lavoura disse...

com um ”penchant” nostálgico para ditadores ou para autoritarismos

O Francisco deve estar a gozar. Quem tem "penchant" por autoritarismos são os EUA e os seus aliados. Em especial, mas não só, no Médio Oriente. A Jordânia, o Egito, a Arábia Saudita, os Emirads Árabes Unidos, todos esses países nessa zona de quem o Ocidente é tão amigo, são todos regimes autoritários. Alguns nem disfarçam, são mesmo monarquias absolutas.

Anónimo disse...

Não se importa de nomear um dos tais "anti-americanos" que apoia o Assad?

arg disse...

Es un hijo de puta, pero es nuestro hijo de puta

Joaquim de Freitas disse...

Curioso, este post do Senhor Embaixador.

Não creio que Assad possa agradar a um verdadeiro democrata, definido segundo os valores que o Ocidente apregoa e pelos quais faz guerras sem fim, desde 1945.

Mas este Ocidente e aqueles que se definissem como democratas e são aliados às mais abjectas monarquias da região, que degolam todas as semanas em praça publica, bombardeiam os vizinhos com as armas que as “democracias” lhes fornecem, roubam o território dum povo Palestiniano metro a metro, assassinando crianças, mulheres e homens que reclamam a sua terra, arrasaram, provocando milhões de mortos, países inteiros, do Vietname ao Afeganistão, ao Iraque, Síria, Líbia e tantos outros por meio de golpes de Estado ou pressão económica, ( recordo Jacobo Arbenz, no Guatemala, derrubado por uma multinacional, a United Fruit, e substituído por Castillo Armas, trazido nas bagagens da CIA, ou Pinochet, e tantos outros, Cuba ou Venezuela, à escolha, como compreender que um democrata não prefira Assad, e Arbenz, Castro em vez de Batista, Allende em vez de Pinochet, sabendo que Assad eliminado ,o substituto pode ser a facção terrorista mais cruel, como os Taliban no Afganistao, ou aquela que derrubou Gaddafi e que vende hoje escravos negros a três horas de voo de Bruxelas…

Autoritário Assad ? Quando se representa uma das minorias que compõem o país mais diverso do M.O, frente ao Sunismo e ao Chiismo, acomodando Druzos e Cristãos, Maronitas e Gregos, num território cobiçado pelos vizinhos, altamente estratégico, e não somente pelo seu petróleo “independente”, aliado do Russo, o único que veio ao seu socorro, ignorado que foi pelo Ocidente, enfeudado a Israel e aos EUA, como proteger os seus Alauitas senão pela firmeza.

O que é lamentável é que os arautos do Socialismo, se tenham prestado a esta decadência dos valores do Ocidente, escorregando lentamente mas seguramente para uma social democracia pronta para todas as traições, como Hollande e Fabius, pressionando Obama para bombardear Damasco, para o “regime change” tão reclamado por Trump hoje. Que Sarkozy e Macron o façam, compreende-se. Mas os socialistas!!! Mesmo o insignificante Hamon, seguiu o cortejo revisionista no seu programa…E para não falar de Blair e a sua terceira via, para o inferno do Iraque.

Então, Senhor Embaixador, quando vejo a acção de Putin , prefiro de longe o Russo ao Americano.

E se a Europa não for capaz de retirar as lições que recebeu de Trump nestes últimos meses, é que ainda não compreendeu que só existe uma “chance” para o futuro. Aquela que Putin exprimiu no Bundestag , em Alemão, em 2001 : “ Sem retirar à EU o direito de partenariado com os EUA, não vejo razão para que não exista uma cooperação profunda entre a Rússia e a EU, pondo em comum os nossos recursos, culturais, científicos, económicos e naturais.”

Mesmo se no Ocidente se prossegue a campanha contra Putin, como vimos hoje, segundo a qual um proeminente jornalista russo que criticou o Kremlin foi abatido em Kiev-(CNBC) e que houve centenas de tais títulos desde ontem, todos acusando directa ou indirectamente a Rússia, o Kremlin ou Putin, e que apesar da falta de provas do envolvimento da Rússia, um sindicato alemão de jornalistas, até pediu à UE que boicotasse o Campeonato Mundial de futebol na Rússia, sabemos bem que aqueles que inventaram as Armas de Destruição Maciça, são capazes de tudo e algo mais…mesmo se deva custar milhões de mortos.

Joaquim de Freitas disse...

« (onde, aliás, adoram passar férias)” :

Senhor Embaixador: O Senhor também andou por lá, se recordo bem… Eu andei por lá durante dezenas de anos, para o meu trabalho, mas também em férias … Mas sei que se Ulysses S. Grant en 1872, teve uma iniciativa de génio quando criou o parque nacional de Yellowstone, que gostei de visitar, mesmo duas vezes, também apreciei o militar que bateu os racistas do Sul… Assim, podemos criticar certos aspectos dum país, sem repudiar tudo. A América desse tempo ainda não era o “Gendarme do Mundo”, e estava ocupada a destruir a população autóctone que pretendia substituir pelos Europeus.
A sua face negra virá mais tarde, e de que maneira…

Ainda no seu post; quando escreve: “com um ”penchant” nostálgico para ditadores ou para autoritarismos, desde que anti-ocidentais, são uma raça velha em extinção.”

Esta frase faz-me pensar naquela de Bush, quando se admirava que os Americanos sejam tão mal recebidos nos países que invadia…Claro, tinham-lhe “vendido” a ideia que os Gi’s seriam recebidos com flores no Iraque….
Mas para Bush, o ditador era Saddam…que mantinha Chitas, Sunitas e Cristãos em paz. E se não existisse petróleo no Iraque talvez ainda hoje estivessem em paz…

Alias, para o Ocidente anti comunista, Tito também era um ditador, porque mantinha Croatas, Sérvios, Bósnios, Montenegrinos, Kosovares e Eslovenos em paz… Depois da ditadura de Tito, foi o que se viu...Como na Libia...Como no Afganistao...Como no Iraque... E como alguns queriam que fosse na Siria... Mas Assad é diferente !