sexta-feira, 11 de maio de 2018

Por onde anda a Europa?


 

Há dias, durante a 3ª Conferência de Lisboa, George Friedman traçou um retrato pouco lisonjeiro da Europa dos nossos dias. 

Naquele jeito simplificador, às vezes cruel, que os americanos têm para olhar a realidade, Friedman fez notar que o grande período de desenvolvimento e bem-estar europeus acabou por ter lugar num continente que, na era contemporânea recente, nunca controlou o seu destino. 

Com efeito, palco principal da Guerra Fria, a Europa viveu tutelada por uma União Soviética que impunha a sua ordem ao centro e leste do continente e, a ocidente, pelos Estados Unidos, que garantiam a sua segurança, face à ameaça totalitária. O Reino Unido era o seu parceiro preferencial, os arroubos soberanistas da França eram pouco mais do que isso, a Alemanha tinha um muro a dividi-la e a limitá-la. A América era o principal poder europeu.

Entretanto, a URSS perdeu a Guerra Fria, implodiu e partiu-se em 15 países, parte dos quais passaram a hostilizar a Rússia, sua principal herdeira. Com a unificação, a Alemanha tornou-se mais assertiva e menos refém dos seus fantasmas e, com a França e outros Estados “like-minded”, criou o sonho de dar vida política, sólida e integrada, à pujança económica que o projeto integrador lhe tinha criado. 

Friedman é de opinião de que o aprofundamento (aumento do corpo de políticas) e o alargamento da União Europeia, em lugar de a reforçarem, suscitou receios e tropismos nacionalistas que, nos dias de hoje, impedem o pleno sucesso do projeto e estão na origem das dificuldades que ele atravessa. Para o académico americano, ao crescer, a Europa enfraqueceu-se, perdendo em identidade.

Será assim? Com realismo, acho que Friedman não tem completa razão: as notícias sobre a morte da Europa unida parecem prematuras. A União, com todas as suas fragilidades, ainda é um espaço institucional com peso, nomeadamente nas dimensões económicas à escala global, muito embora, no plano de influência política nos grandes cenários estratégicos, apenas vá merecendo o Óscar para o melhor ator secundário.

É um facto, não passível de contestação, que a diversidade induzida na União Europeia, pelo cruzamento de culturas distintas, que configuram vontades diferentes e por vezes até conflituantes, é um fator de bloqueio à plena expressão operativa do um poder político à altura do peso económico dos seus componentes e à sua capacidade de ação conjugada – nomeadamente nos grandes dossiês comerciais, ambientais e em matéria de desenvolvimento.

A muitos custará admitir isto, mas a visibilidade europeia é sempre tanto maior quanto melhor conseguir trabalhar com o seu mais velho amigo político, ao lado de quem esteve em dois conflitos mundiais. E quando os Estados Unidos, cuja auto-determinação estratégica é feita com a liberdade que só as grandes potências têm, não vêm razões para “dar confiança” ao lado de cá do Atlântico, a Europa entra numa orfandade para a qual não consegue descobrir um lenitivo eficaz.

Trump é talvez um tempo extremo nesta deriva, mas, com alguma memória, valerá a pena lembrarmo-nos de que Obama não privilegiou a Europa e terminou o seu mandato cada vez mais voltado para a Ásia. 

Verdade seja que não há muito que a Europa possa fazer neste domínio, senão tentar tornar-se relevante para Washington. Mas isso acarreta sempre o risco de seguidismo e de diluição de uma estratégia própria consequente.

A França e o Reino Unido, ao acompanharem os EUA nas simbólicas flagelações na Síria, não representaram a União Europeia, tanto mais que Londres dela está de saída. Ambos os países representaram-se apenas a si próprios e à sua vontade de reafirmar a responsabilidade estratégica que compete a aliados e membros Conselho de Segurança da ONU.

Londres e Paris, desta vez com Bruxelas à mistura, viriam aliás a aprender, dias depois, o que realmente valem (ou não) para Washington, ao serem postos perante o facto consumado do afastamento americano do acordo nuclear sobre o Irão, em que União Europeia tanto se empenhou.

Deixemo-nos de ilusões: para aquilo que os EUA de hoje definem como seu interesse prioritário, a União Europeia é praticamente irrelevante. E isso enfraquece fortemente a Europa.

4 comentários:

Anónimo disse...

"mas a visibilidade europeia é sempre tanto maior quanto melhor conseguir trabalhar com o seu mais velho amigo político, ao lado de quem esteve em dois conflitos mundiais"

Não sei se esta frase tem muito sentido, dado que dela se infere que a Europa só esteve do lado dos vencedores na duas últimas guerras. Também não me parece que seja verdade se quer que a ideia de Europa era primordial para uma parte dos beligerantes da primeira guerra e não para outra. Se na segunda guerrq esteve é discutível, também é verdade que a ideia de Europa não estava presente nem nos argumentários dos EUA, da URSS, ou do eixo. Se a Europa serviu para alguma coisa foi para tirar a barriga dos EUA das misérias em que estes andavam antes de 39...

Joaquim de Freitas disse...

Quando penso naqueles americanofilos « enragés » , cegos e surdos, que pululavam por aqui, no seu blogue, Senhor Embaixador, e que me insultavam, quando me exprimia como sempre, sobre esta Nação “voyou” do planeta, fautor de guerras por toda a parte desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que insulta os seus aliados e amigos em permanência, espionando-os as conversações telefónicas dos seus dirigentes, que abraçavam e beijavam o seu presidente há dias, para chegarem agora à conclusão, alguns dias mais tarde, uma vez insultados pelo unilateralismo americano, que não só é preciso que a Europa acabe de se construir, politicamente e economicamente, mas também militarmente, abandonando esses grilhões da NATO, que a metem na dependência do seu maior concorrente, que só a utiliza para o seu próprio interesse quando se trata de submeter outros povos à sua vontade.

Para a Europa, é o momento para impor a sua soberania, agora que o jogo americano é mais claro que nunca, quando se vê a manobra que consiste a meter as grandes empresas europeias ao pé do muro, obrigando-as a fazer as malas dos mercados onde grandes negócios estavam em curso, aplicando essa lei iníqua da extraterritorialidade, que permite a essa Máfia americana de condenar as nossas empresas nos Estados Unidos se fizeram negócios no Irão ou na Rússia. Que estes sejam efectuados em dólares ou euros…

E toda esta manobra fraudulenta, para proteger o seu cão de guarda israelita na sua ambição colonialista no Médio Oriente, e as ditaduras whaabitas sunitas mais retrógradas da região.

Macron, recebeu do seu amigo yankee , a “gifle” que merecia , que merecia por não ter lido a História , senão saberia que não se faz uma viagem a Washington para impor ao “amigo e aliado” americano ideias de grandeza europeia , a alguém que não gosta dos europeus, que não quer que a Europa ultrapasse o nível de lacaio que tem sido o seu até agora, e não é Friedman que diz o contrário .

A Europa teve um dirigente um dia que disse todo o bem que pensava duma Europa de Brest a Vladivostock.

Pois bem, é o momento de dar vida a esta grande ideia, da Europa para os Europeus.

O que Trump faz ao Irão e à Europa poderia acabar com a Aliança Atlântica. Seria uma boa coisa. Porque é mais que tempo que o unilateralismo “ Choque e Pavor” do após guerra fria ceda o lugar a um mundo multipolar no qual indivíduos tão perigosos como Trump e Bolton não possam mais aceder ao poder.

Joaquim de Freitas disse...

SUITE



Permita, Senhor Embaixador, de acrescentar o seguinte:


Quanto ao Irão, Trump sabe bem que a Alemanha e a França estão entre os dez maiores parceiros comerciais do Irão (apesar das sanções). Eles querem aumentar o seu “business” com a 27ª economia mundial, bem como os seus investimentos. Com o seu imenso território, a sua população educada de 80 milhões de habitantes, os seus ricos recursos naturais e a sua abertura ao capital estrangeiro, o Irão aparece como uma excelente oportunidade de investimento.

E os capitalistas Americanos morrem de inveja….mesmo se forem eles que deram um tiro no pé, quando Clinton impôs o embargo ao Irao, privando os EUA deste mercado. Boeing vai pagar caro...

A Alemanha representa 60% do investimento da UE no Irão. Ela vende máquinas, metais, produtos químicos e veículos, bem como produtos agrícolas, e exibe um superávit comercial substancial com o país. Os seus investimentos aumentaram cerca de 25% por ano nos últimos anos. Os capitalistas alemães estavam ansiosos para este acordo. Em Janeiro, o fabricante de automóveis iraniano Khodro (para os amigos que me conhecem, este foi um dos meus melhores clientes no Irão!) assinou um contracto com a Daimler para começar a produzir carros Mercedes-Benz no Irão este ano.

Este é o tipo de cooperação que os Estados Unidos querem agora impedir, desencorajando o financiamento internacional e aplicando sanções àqueles que desafiam os seus objectivos geopolíticos.

Os americanos, que esperavam que os iraquianos lhes lançariam flores quando invadiram o Iraque, e viram o que viram, que esperem agora o ressentimento na Alemanha nos próximos meses. E na França igualmente, se a encomenda de 100 Airbus, os 3 500 milhões de euros de investimento de Renault e os mesmos de PSA não se concretizarem,

A fricção na política iraniana vem juntar-se às dificuldades que enfrenta a economia alemão por causa das sanções contra a Rússia. E em França, mesmo a pobre Bretanha viu os seus campeões da agro-alimentar ir para a falência, por ter perdido o mercado dos frangos russo...

Sanções exigidas por Washington em 2014, sob pretexto da agressão russa na Ucrânia. (de facto, um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos para provocar uma mudança de regime, a adesão à OTAN, e a expulsão da Rússia das suas bases navais históricas na Criméia) .

Acordo de Copenhague sobre o Clima, Tratados Comerciais, Nuclear Iraniano, o Mundo sabe agora o que vale a assinatura dum presidente americano...

Anónimo disse...

"Por onde anda a Europa?".Sim, falando de esta Europa.
Haverá uma ideia comum da Europa que existiu, a das Nações.
E mesmo da que vai existindo, a "made in sucessivos Tratados"....

Curioso será a que querem construir, via Erasmus, o projecto mais beneficiado com os já parcos (e voláteis) fundos da burocracia bruxelense.
Como será essa "Europa"?. Uma construção de, para e por (não directamente eleitas) pesentes "elites" e futuras (provavelmente auto-eleitas) elites?.

Os EUA -o que se pretende mimetizar- foram construídos, desbravados, mal ou bem, por uma plebe a fugir das elites (religiosas e políticas) europeias, lembremo-nos...JS