terça-feira, 22 de maio de 2018

Pomar


Morreu Júlio Pomar. Tinha 92 anos. Conheci-o tarde na vida, em S. Paulo, um pouco antes de ter trabalhado, com sucesso, para a recuperação de um seu painel de azulejos que está hoje numa parede da biblioteca de Brasília, graças ao entusiasmo de Silvestre Gorgulho, então secretário da Cultura.

Em Paris, numa noite do ano estranho que foi 2011, jantei com Pomar e a sua mulher, numa galeria onde era feita a apresentação, para venda a investidores, de várias obras de pintura portuguesa, do espólio de Jorge de Brito. 

A mim, o momento entristeceu-me bastante. Ver fantásticos óleos de vários e renomados autores portugueses prestes a serem passados a patacos, para as mãos de estrangeiros, colocou-me a interrogação sobre o que estava por ali a fazer o embaixador de Portugal. 

Disse-o a Júlio Pomar, que me respondeu, com aquele seu amplo sorriso: “Deixe lá! Faça como eu. Aquilo que está ali a ser vendido já não tem nada a ver comigo. É do mercado!”. Como o país.

Encontrei-o, uma última vez, a jantar com Carlos do Carmo, seu grande amigo. Despedimo-nos sem saber que era para sempre.

(*) Reproduzo um quadro de Pomar que estava à venda na galeria, que faz parte do meu “top” de pintura portuguesa. É o “Mai 68 (CRS-SS II)”. Nem arruinando-me alguma vez o conseguiria comprar...

4 comentários:

Reaça disse...

"Apanharam o Jorge de Brito a fugir por Badajoz, com os seus quadros na mala do carro".

Dizia um cartaz no Rossio no verão de 1974.

Anónimo disse...

Nunca percebi porque razão os quadros de um artista existente quando é venndido lá fora é uma grande tristeza.
Fará parte da colecção de um entendido pois até porque não há a mesma ideia de que é "chic" [como disse o outro] ter-se um quadro de...é sim sempre um investimento.
Saber que um artista vende lá fora é melhor do que aqueles que vendem ou venderam aqui e lá fora ninguém dá nada por eles.
Pertencem a um mero mercado local da ainda zona do Escudo.

Anónimo disse...

Era amigo do meu Pai. Em Paris, sugeri-lhe uma exposição na Av. d’Iena e naturalmente dei-lhe carta branca para utilizar o espaço como quisesse. Escolheu partilhá-lo com Joana Vasconcellos que, na altura, não tinha a projecção que tem hoje. Tratou-se, como em muitos outros casos, de uma aposta sua em artistas mais jovens. Foi uma revolução no edifício, que nunca havia visto tal coisa. Recordo o espanto de Jacques Delors, que lá foi proferir uma conferência, ao olhar para a instalação de JV. Também ali lançamos o “ catalogue raisonné “ da obra de Júlio Pomar. Devem-se-lhe estes e outros momentos altos da cultura portuguesa em Paris. Tenho saudades desses tempos por motivos como estes.

JPGarcia

Luís Lavoura disse...

Ver fantásticos óleos de autores portugueses prestes a serem passados a patacos, para as mãos de estrangeiros

Eu costumo frequentar a galeria de arte de uma francesa radicada em Portugal, na qual geralmente expõem outros franceses radicados em Portugal. Volta e meia compro lá um quadro. Dói-me ver esses fantásticos quadros que compro serem passados a patacos, ainda por cima para as mãos de estrangeiros como eu. É horrível que esses franceses passem a patacos os seus quadros para as mãos de portugueses como eu.