segunda-feira, 28 de maio de 2018

O congresso e a geringonça

O Partido Socialista realizou o seu Congresso num ambiente que se pré-anunciava algo turbulento. 

À súbita reemergência do caso Sócrates, estranhamente potenciado pelo caso Pinho, somaram-se as trapalhadas de incompatibilidades de dois governantes. Alguma direita cavalgou a onda. Melhor do que todos, António Costa manteve-se impassível, não deixando poluir o Congresso. Com maestria, concentrou a reunião no futuro e ganhou a parada. Verdade seja que algumas “bombas” não rebentaram na Batalha porque se aproxima o desenho das listas para 2019, europeias e não só...

O Congresso fez o elogio da Geringonça. Com razão. Contra o parecer de muitos, a opção de apoiar o governo à esquerda provou ser correta. Ela só foi possível porque BE e PCP, depois do trauma da governação da direita, teriam grande dificuldade em fazer perceber ao seu eleitorado se se recusassem a favorecer uma solução governativa que lhe permitiria partilhar os louros da recuperação de alguns rendimentos. Depois disso, com a economia a correr bem, ficou feita a quadratura do círculo: respeitaram-se os compromissos com a Europa e retificaram-se algumas injustiças. O país gostou, não achou nada demais e vive confortável com a solução.

Mas a Geringonça teve outro efeito - e este Congresso mostrou-o bem: sublinhou, no seio do PS, a expressão política de quantos entendem que o futuro da governação socialista deve projetar, precisamente, o modelo de ação política dessa mesma Geringonça. Na leitura de alguns, esse será o “segredo” para a maioria absoluta, isto é, colocar o PS declaradamente à esquerda, reforçando, dentro do partido, a ala que considera ser esse o seu destino natural, por forma a não perder votos para a “esquerda da esquerda”. 

Uma coisa é hoje muito clara: aqueles que, num passado não muito distante, viam a “ala esquerda” do PS como um bando de lunáticos irrealistas, tiveram de meter a viola no saco. Essa ala está hoje reforçada pelo teste da realidade. 

A continuidade da sua prevalência no eixo da decisão socialista tem, contudo, dois potenciais problemas. Desde logo, a hipótese de um afastamento de um ou dos dois “compagnons de route” que sustentam o modelo, por opção estratégica ou qualquer outro fator conjuntural. O segundo problema prende-se com a hipótese de uma desregulação económico-financeira externa poder vir a provocar uma tensão entre o cumprimento das regras europeias e algumas das atuais políticas públicas mais identitárias para essa linha. Nos dois casos, a “ala esquerda” socialista poderia vir a confrontar-se com a (re)emergência de uma linha mais centrista, dita “realista”, os profetas do “eu bem dizia”.

O PS vive hoje muito confortável com a Geringonça, a qual já não assusta ninguém, como aconteceu em 2015. Porém, há algo indesmentível: António Costa continua a personificar, aos olhos de muito eleitorado, o fiel da balança que permite aos socialistas um crédito público de confiança. Isto é, continua a ser indispensável.

7 comentários:

Anónimo disse...

Ora façamos lá um pequeno "suponhamos".
. E SE o PCP não tivesse feito aquele "big bang" que foi dizer a um António Costa muito atordoado com o resultado eleitoral (perdeu para Passos Coelho e não fez melhor do que o inseguro António José Seguro) que podia fazer governo porque o PCP viabilizá-lo-ia no Parlamente, o que, convenhamos, deu outra alma a Antónia Costa, ressuscitando-o politicamente...
. E SE Passos Coelho tivesse apresentado o seu governo depois de se perceber que o PS, derrotado nas eleições, não era capaz de apresentar uma alternativa (porque era ao Ps e não ao BE ou ao PCP que isso competiria...) e com Cavaco na presidência, que teria feito o PS na Assembleia? Votava contra a formação do governo de Passos Coelho (vencedor das eleições, relembremos ...) arriscando o azedume de Cavaco e provocando eleições onde, certamente, seria trucidado pelos cultores da "estabilidade" ...
. E SE isso tivesse acontecido não parece arriscado palpitar o cenário de uma derrota estrondosa do PS em eleições antecipadas (repetidas, melhor dizendo, com os tais a explicarem ao povo quem tinha a culpa disso e de se gastar tanto dinheiro e paciência dos portugueses...); e sabe-se lá se, depois do fracasso que tinha tido, António Costa ainda estaria à frente do Ps nessas eleições repetidas....
. E SE isso acontecesse, lá formaria Passos Coelho o seu governo, impante...
.E SE isso acontecesse, a direita vitoriosa não se cansaria de explicar que só ela era capaz de garantir a governação de Portugal...
. E Se isso fosse assim, não é difícil antever o que teria acontecido ao Ps e a António Costa cozidos em lume brando com o que se ia ( e tem...) sabido do caso Sócrates, sem que nem o Ps nem Costa tivessem condições para se distanciarem desse pântano...
. E Se isso fosse assim não é difícil imaginar o que teria sido o futuro político de António Costa...
E SE António Costa, sagaz como é, tivesse, naqueles dias de "derrotado", colocado estes "SES" ???????

Luís Lavoura disse...

O Francisco tece aqui muitos elogios a António Costa, mas repare que no congresso (segundo a reportagemn dele que foi feita pela Antena 1) uma personalidade especialmente aplaudida foi a Ana Catarina Mendes.

Anónimo disse...

No seu twitter o embaixador relaciona o futuro da gerigonça e a crise italiana. Poderia explicar porquê?

Anónimo disse...

Nunca votarei no PS para votar à esquerda. O PS com maioria absoluta vira à direita. O PS tem que conquistar o centro e roubar eleitorado ao PSD, e obrigar este a ter que lutar com o CDS pelo eleitorado de direita. O PS chegar à esquerda é dar espaço à direita e enfraquecer a médio prazo o PCP. O eleitorado do PC na sua generalidade não passara para o PS mas sim para o Bloco, o que o tornara bastante mais forte, pois o método de Hondt beneficia substancialmente quem tem mais votos. Atacar a esquerda é dar força ao PSD. ( a não ser que o objectivo seja esse, o de fazer durar Rio e ir secando os seguidores de Passos...)

Jaime Santos disse...

Saiu reforçada uma ala que na verdade prossegue, Sr. Embaixador, uma política que o Centro não enjeitaria de todo. Se alguém teve que meter a viola no saco foram os maximalistas do BE e do PCP-PEV. Mas aí há que tirar o chapéu ao pragmatismo e inteligência política das direções dos respetivos Partidos. Mais vale um pássaro na mão...

Anónimo disse...

UM TÉDIO…

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Comungo do elogio de Assis a Costa: "imagino o grande primeiro-ministro que poderás ser sem a limitação da geringonça"!Está tudo dito acerca de tal geringonça.