sexta-feira, 30 de julho de 2021

Olavo

   


Desde há dois dias, a RTP 2 está a transmitir uma série que aborda a saga da família real norueguesa durante a segunda Guerra Mundial. As figuras centrais são o então príncipe herdeiro Olavo e sua mulher Marta Sofia, com esta a ter um destaque a História não lhe tinha dedicado. 

Olavo chegaria ao trono, como Olavo V, em 1957, por morte do seu pai, Haakon VII. Olavo V morreu em 1991, sendo sucedido pelo atual rei, o seu filho Harald, que surge já representado na série. 

A imagem que ilustra este texto mostra Haakon VII e o então príncipe Olavo, refugiados na zona de Tromsø, bem a norte do círculo polar ártico, antes da ida dos dois para Londres.

Quando fui viver para a Noruega, em 1979, o culto do rei era particularmente acentuado nas gerações mais idosas, pela memória dos tempos da guerra e da ocupação alemã. A polémica decisão do Haakon VII de se exilar em Londres, com o príncipe, acabou por se revelar acertada, tendo salvaguardado a soberania norueguesa e, de caminho, a própria coroa.

Ainda nos anos 70, Olavo V foi visto a viajar de elétrico na cidade de Oslo. Perguntado sobre os riscos em que incorria, o rei disse que tinha “quatro milhões de guarda-costas”, o total da população norueguesa. As preocupações com a sua segurança acabariam por se impor, mas Olavo V continuou a insistir em conduzir o seu automóvel, embora sempre com um polícia à paisana, ao seu lado.

Fui testemunha, um dia, de uma curiosa cena. 

Ia a pé numa rua de Oslo quando vi o imenso carro do rei (creio que era um Packard), com ele próprio ao volante. Recordo a curiosidade do rei ir de chapéu preto dentro do carro. Atrás, com uma antena reveladora, seguia uma viatura normal, com segurança. O carro do rei parou numa passadeira, para deixar uma senhora muito idosa, que caminhava lentamente e com dificuldade, atravessar a rua. A certo momento, ela olhou para o carro e, de repente, abriu-se num imenso sorriso, ao descortinar o seu rei como condutor. Este retribuiu com outro sorriso, tirou o chapéu, fazendo uma saudação à senhora. Foi então curioso vê-la a caminhar o resto da passadeira, sempre olhando o rei, em contínuas vénias, até chegar ao passeio. Deve ter ganhado o dia!

A Noruega permanece, nos dias de hoje, um país solidamente monárquico. Todos os anos, um partido suscita, no parlamento, um voto sobre a continuidade da monarquia. E perde, por expressiva margem, embora os analistas digam que um referendo, não pondo nunca em causa a continuidade do regime, teria uma expressão menos pronunciada.

Mas que ninguém se iluda: a regra é que países que tenham deixado de ser monarquias não voltam a ter um rei. A singular exceção foi a Espanha. Até ver.

11 comentários:

Luís Lavoura disse...

países que tenham deixado de ser monarquias não voltam a ter um rei

A monarquia é o regime mais estúpido e mais perigoso para um país que se possa conceber.

Estou agora a ler uma História de Portugal e fico arrepiado com as diversas vezes em que Portugal foi colocado em grave risco devido às desventuras ou asneiras acontecidas ou cometidas pelo rei.

aguerreiro disse...

Faz-me lembrar aquilo que aconteceu entre nós em Novembro de 1807, com a impropriamente chamada "fuga" para o Brasil da corte de D. Maria I., nisso fomos precursores!

Dulce Oliveira disse...

No episódio de ontem, uma cena emocionante. Quando a princesa e os filhos iam apanhar o barco que os levaria à América, foram reconhecidos por uns pescadores que os homenagearam cantando o hino nacional e em agradecimento a princesa ergue nos braços o príncipe herdeiro que lhes acena

Flor disse...

Vou estar atenta e informar-me do horário. Aprecio a história da monarquia. Reparo que os países que teem Familia Real, o povo tem grande admiração pelo seu Rei/Rainha.

maitemachado59 disse...

e Cromwell e a Restoration?

maitemachado59

maitemachado59 disse...

Luis lavoura

qualquer regime pode ser estupido e perigoso.

Tem havido republicas de uma vileza absolutamente fenomenal. Nao sao os regimes, e quem os rege

maitemachado59

Flor disse...

Certo Maite!

Jaime Santos disse...

Luís Lavoura, eu sou republicano mas alguns dos Países mais democráticos e avançados do mundo são monarquias, a Suécia, a Dinamarca e a Noruega. Poderia acrescentar a Bélgica e os Países Baixos, muito embora um e outro tenham problemas que as 'socialistas' monarquias nórdicas não têm.

Não acrescentaria o Reino Unido, que têm um dos regimes mais regressivos dos Países Desenvolvidos, com o escritor Roberto Saviano a classificá-lo como o País mais corrupto do mundo por causa do seu sistema financeiro (muito 'liberal'). Sistema financeiro que não é reformado graças ao sistema eleitoral maioritário que permite que um Partido monopolize o poder (sendo que esse Partido é normalmente o Conservador).

https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/roberto-saviano-britain-corrupt-mafia-hay-festival-a7054851.html

E claro, temos Repúblicas como a Finlândia que ombream com estas monarquias. Evidentemente, nem a França nem muito menos os EUA são exemplo para ninguém...

Contrariamente à Maité, eu acho que são mesmo os regimes, não quem os rege. Um bom regime constitucional protege, mesmo se de forma imperfeita, o povo contra executivos com tendências autocráticas. Mas nunca o fará se não existirem funcionários públicos ou políticos eleitos dedicados, com maior lealdade à causa pública do que ao Governo de turno...

Como o recente exemplo americano mostra, apesar de tudo. Mas não deixa de ser sintomático que os Republicanos se têm dedicado a perseguir aqueles seus correligionários que não alinharam na tentativa de fraude eleitoral de Trump...

maitemachado59 disse...

caro Jaime Santos, na minha opniao, os conservadores estao no poder aqui porque o partido tabalhista esta "nas lonas". eu sou mebro (ou membre?) do partido trabalhista e ha anos que estou desesperada com a linha do partido quando Corbin estava a frente. Embora um pouco desconfiada de Starmer vou-lhe dando "the benefit of the doubt" ate ver.

maitemachado59

Jaime Santos disse...

Maite, Starmer parece-me uma pessoa bem intencionada e trabalhadora, mas não é par para o juggernaut Johnson (um aldrabão e mentiroso contumaz, note-se).

Corbyn, que eu acabei a detestar, era simplesmente burro. Não percebeu que a sua posição ambígua em relação ao Brexit era receita para o desastre. O Brexit dividiu o Partido Conservador, mas não dividiu o seu eleitorado.

Já com o Labour passou-se o contrário. Fora Corbyn e alguma da sua entourage, o Labour é solidamente Remainer, mas 1/3 dos seus eleitores votaram Leave (e esses eleitores estavam nas marginals do Norte de Inglaterra que foram depois conquistadas pelo 'Get Brexit done' de Johnson).

Se Corbyn se tivesse realmente batido pela permanência (a posição oficial do Partido, decidida democraticamente) teria, mesmo que o Brexit prevalecesse, a moral para unir o Labour. Assim, as revoltas sucederam-se...

Para uma certa Esquerda, a democracia só é boa quando o resultado é aquele que espera...

Obviamente, a ambiguidade do Labour que foi possível manter em 2017 não se poderia manter em 2019, especialmente depois da fuga de votos para os Liberal-Democratas nas eleições europeias.

O Labour teve que escolher entre Cila e Caríbdis, ou seja, entre ser pró-referendo ou pró-Brexit (o Brexit-unicorn de Corbyn era ainda mais ridículo que o dos Tories) e optou pelo mal menor.

A Esquerda Lexit que defende a culpa de Starmer na estratégia eleitoral de 2019 esquece este pormenor algo embaraçoso, ou seja, que acabaram a dar o poder de mão beijada à Direita mais reacionária desde Thatcher...

Como acontece sempre, aliás... É como com os idiotas que dizem que não há diferença entre Macron e Le Pen. Se é assim, deixem que ela seja eleita e vão ver a diferença que faz...

O Brexit vai continuar a envenenar o Labour por longos e bons anos, parece-me...

A Esquerda só regressará ao Poder no RU em coligação com os Liberais, o SNP e os Verdes e para isso terá que se comprometer com a PR, cuja ausência realmente impede que o RU seja reformado (o Labour de Blair, que me recorde, deixou simplesmente que a City prosperasse e não me acredito que Johnson altere este estado de coisas, for all the talk about levelling up)...

E com um novo referendo à independência da Escócia.

E depois têm que acabar com as peerages e neighhoods no registo atual, que são sinecuras e prebendas para quem as pode pagar, tipicamente os doadores dos Tories, onde se encontram alguns oligarcas russos pouco recomendáveis. O RU faz lembrar as monarquias continentais patrimonialistas pré-Revolução francesa...

P.S. Senhor Embaixador, permita-me que discorde parcialmente de si. A França teve duas Repúblicas e só à Terceira é que o modelo republicano (com uns laivos de cesarismo na V República, note-se) prevaleceu (e tudo graças à burrice do Conde de Paris e o seu apego à bandeira com a flor de lis). A Espanha teve também duas Repúblicas (será que à terceira é de vez?). E os Países Baixos foram fundados como República, que só foi liquidada por Napoleão, sendo que a Monarquia foi mantida pelas potências aliadas contra a França após 1815. Não me parece que a Monarquia seja hoje minimamente popular nos Países que são Repúblicas, mas nunca se sabe quando mudam as modas...

Jaime Santos disse...

É knighthoods, obviamente... E nem tenho a desculpa da hora para o disparate :) ...