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segunda-feira, julho 26, 2021

Viva o 25 de Abril! Sempre!




Um dia, em inícios de 1983, o João Sobral Costa, um amigo já desaparecido, um gigante de bondade que, como capitão da Força Aérea, havia feito parte do grupo ocupante do Rádio Clube Português, na noite de 25 de Abril, e que trabalhava então em Luanda, onde eu estava colocado na embaixada, telefonou-me: “Queres ir beber um copo com o Otelo, ao Hotel Panorama? Está cá de passagem, vindo de Maputo”. Claro que queria.

Eu tinha uma grande simpatia por Otelo Saraiva de Carvalho. Não faço ideia de quando o conheci, naqueles tempos convulsos do 25 de Abril. Sei que só me recordo de mim a tratá-lo sempre por tu, porque, seguramente, ele terá dado abertura para isso ao jovem miliciano que, em 1974 e 1975, andava por aqueles corredores da Junta de Salvação Nacional e do MFA. Era uma figura cativante, sempre com um sorriso e uma palavra acolhedora, quebrando distâncias.

Em 1976, nas primeiras eleições presidenciais, eu tinha votado naturalmente Otelo, como muito boa gente, como Jorge Sampaio e muitos dos meus amigos. Era óbvio que ele não ganharia. Mas Eanes (e alguns que então o apoiavam) não me agradava (hoje, admirador do retidão do general, dou a mão à palmatória pela avaliação negativa que fazia da sua personalidade) e nenhum outro candidato me dizia nada politicamente. Confesso que não me revia no projeto de “poder popular” de Otelo, mas aquela era a candidatura de que me sentia afetivamente mais próximo. E não só não me arrependo desse voto, como faço questão de o não esconder nunca. Nós somos também as nossas circunstâncias.

“Então estás cá na embaixada?! Não te sabia diplomata!”, disse-me Otelo, no abraço no bar do Panorama, sobre a baía de Luanda. No fim da conversa, ao perceber que, no dia seguinte, ele e a sua mulher tinham uma hora de refeição livre, perguntei-lhe se queriam ir almoçar a minha casa. Quando lhe disse que vivia num pequeno apartamento no “compound” da embaixada de Portugal, no mesmo edifício onde ficava a chancelaria e o consulado-geral, notei alguma reticência da sua parte. Mas com o João já a favor da ideia, lá aceitou. Sugeri então que se nos juntasse o Arlindo Ferreira, outro capitão de Abril, que estava em Luanda para outras "guerras" (e que também já faleceu). Por aquelas "makas" (uso aqui uma expressão angolana) em que a família de Abril é useira e vezeira, não se reuniu consenso para o Arlindo se nos juntar. O Otelo torceu o nariz à ideia. Politiquices, deduzi.

No dia do almoço, vim à porta da embaixada receber Otelo, que chegou acompanhado da mulher. O edificio da Embaixada era na então rua Karl Marx, que antes fora chamada de Vasco da Gama e que, hoje em dia, é avenida de Portugal (evolução toponímica que daria para um mestrado...).

A grande maioria dos funcionários da nossa missão diplomática em Luanda era constituída por antigos quadros da administração colonial, que tinham visto o percurso da sua vida perturbado pelo 25 de Abril e pela independência do país. Em geral, sofriam a Revolução bem mais do que a celebravam. Não era, assim, legítimo pedir-lhes que entoassem loas à chegada do estratega da Pontinha. 

Um deles, boquiaberto, reconhecendo Otelo de fotografia, perguntou-me: "É o...?", sem ousar dizer o nome. Era, confirmei-lhe com um sorriso, e, nesse segundo, devo ter caído uns furos na sua escala de consideração, bem como na de outros a quem ele terá corrido a contar a inconveniente frequentação social do jovem diplomata que eu então era. Esse era, contudo, como perceberão, o lado para onde eu dormia melhor.

O almoço com Otelo foi uma ocasião que recordo como bastante divertida. Ele e o João Sobral Costa (Alzira, lembras-te da conversa?) que haviam sido vedetas operacionais de um filme onde eu só tinha feito umas "pontas" como figurante, conflituaram versões sobre alguma autoria do "documento do COPCON" (demoraria muito explicar aqui o que isso foi) e outras cenas desses tempos movimentados. Eu, que nunca tinha andado próximo da linha de ambos, no verão quente de 1975, era apenas espetador da discussão sobre os conciliábulos havidos no Alto do Duque. 

Recordo-me de ter então lido a Otelo extratos de um livro que ele não conhecia, escrito por um certo militar, onde se criticava o "silêncio" de Otelo durante a célebre "assembleia selvagem" (como alguns gostam de chamar-lhe) do MFA, em 11 de março de 1975. Rimo-nos todos, porque, ali, eu e o João podíamos atestar, como testemunhas presenciais, que Otelo, de facto, não tinha então falado, porque... não havia estado presente nessa tão badalada reunião!

Perdi Otelo Saraiva de Carvalho de vista. Fui sabendo pelos jornais das aventuras político-partidárias radicais em que se envolvia, da sua prisão, das acusações que sobre ele impenderam, seguidas das batalhas judiciais. Nunca tive a mais leve opinião sobre o assunto, só podendo esperar que a justiça se fizesse, fosse para que lado fosse. E, depois de toda a água que correu sob as pontes, também não tenho opinião sobre se a justiça se fez ou não.

Otelo, de quando em vez, ia sendo estimulado a fazer algumas declarações públicas à imprensa que me entristeciam: parecia procurar frases com impacto, para provocar polémica. Nada que ajudasse a preservar a parte da sua biografia que nós admirávamos.

Bem mais de três décadas passaram. Uma noite, em Viana do Castelo, sendo eu, nesse ano, presidente da Comissão de Honra das Festas de Nossa Senhora da Agonia (É verdade! Também fui isso!), chegado à Festa do Traje, deparei com Otelo e a sua mulher sentados nas cadeiras da plateia. Fui dar-lhe um abraço e convidei-o a vir juntar-se-nos à frente. Modestamente recusou. Mais um ano decorreu e demos mais um abraço numa ante-estreia de um filme do António Pedro de Vasconcelos. A derradeira vez que nos vimos foi na Associação 25 de Abril, há cerca de dois anos, na apresentação do livro que reproduz o que se passou nessa célebre assembleia do MFA, de 11 de Março de 1975. No final, eu disse-lhe: “Finalmente, ficaram reproduzidas em livro as intervenções que não fizeste naquela noite!”. O Otelo deu uma gargalhada e deu-me um último abraço. O Otelo deu-me a minha liberdade, eu apenas lhe dei alguns abraços. Fico a dever-lhe muito.

Para quem, como eu, tem o culto do 25 de Abril, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho é um momento muito triste, é uma parte da minha memória afetiva que desaparece. E estimula-me a dizer, o que sempre digo e sempre direi com eterna convicção: Viva o 25 de Abril! Sempre!

Humor castanho