Foi há dez anos. Um militante de extrema-direita colocou uma bomba que matou oito pessoas em Oslo e daí partiu para uma ilha próxima, onde jovens do Partido Trabalhista realizavam um encontro. Liquidou então a tiro, um a um, 69 dentre eles.
Não se confirmou que o assassino estivesse ligado a alguma rede, ao contrário do que ele próprio afirmava. Aparentemente, o ato teve com objetivo manifestar a sua oposição ao que entendia ser a “islamização” crescente da Europa e a cumplicidade dos “marxistas” nessa deriva. Nada muito diferente do que alguma gente pensa por aí, ligada a agendas de ódio, embora sem se dispor a chegar a “vias de facto”.
Vivi três anos na Noruega, a partir de 1979. Vinha de um Portugal ainda em convulsão, depois do período revolucionário. Encontrei uma sociedade que me surpreendeu pela serenidade e civilidade do debate político. Os trabalhistas, partido histórico do poder, estavam já então sob algum desgaste político. Em eleições que ocorreram quando por lá vivia, a direita chegou ao poder.
Na noite do sufrágio, depois de apurados os resultados que levaram os conservadores ao governo, um jornalista português destacado por “O Jornal” para cobrir o evento, Fernando Dacosta, pediu-me que o levasse a ver as manifestações nas ruas, pela mudança ocorrida, que alteravam fortemente o “statu quo”. Quando chegámos ao centro da cidade, sem vivalma, cerca da meia-noite, ambos constatámos que ali se vivia numa “galáxia” política diferente da nossa. Por essa altura, cansado de alguma balbúrdia lusa, cheguei a perguntar-me se aquele civilizado modelo político (tirando o rei do tabuleiro institucional), idêntico ao praticado noutras sociedades nórdicas, não seria, afinal, a democracia ideal.
É sempre muito redutor e caricatural afirmar, sobre um determinado país que apenas conhecemos conjunturalmente, que as coisas são “assim” ou “assado”. A sociedade calma e tolerante, criada pela social-democracia norueguesa, que a direita ascendente alterou apenas em alguns aspetos menores, era incompatível com o nacionalismo irracional que emergiu no dia 22 de julho de 2011? Não sei responder. À época, parecia ser. A tolerância, a moderação e um sólido património de consenso face a certos valores e alguns adquiridos, parecia fazer parte de um contrato social com larga base de apoio. A riqueza recente do país, contrastante com a memória de tempos de pobreza e de guerra, dava a ideia de colocar a Noruega ao abrigo de derivas totalitárias.
A Noruega, nesse tempo em que por lá andei, era um país acolhedor para refugiados políticos de várias origens e financiava agendas de grande generosidade no mundo em desenvolvimento. Mas, em abono da verdade, também por ali observei alguns sinais de xenofobia e mesmo de racismo. Nunca esqueci o olhos molhados de um caboverdeano, que tinha adquirido nacionalidade norueguesa, a contar-me que um dia, num serviço público, alguém lhe disse, de forma arrogante: “Você mudou de passaporte, mas não mudou de pele”. E era um pouco irritante ouvir, sempre que havia um roubo, ou um distúrbio à ordem social, o comentário rotineiro: “Deve ter sido um estrangeiro”. Nesse tempo, não havia redes sociais ou caixas de comentários onde detetar o outro país.
Nenhuma sociedade está imune a evoluir negativamente face à diferença, como nós próprios bem sabemos. Nada disso, porém, apontava no sentido de vir ali a ser gerado um monstro como aquele que, naquele mesmo dia de há dez anos, fez 77 vítimas totalmente inocentes, num ato de terrorismo indiscriminado. A História mostra-nos que nunca devemos subestimar a capacidade de uma sociedade gerar, no seu seio, os piores monstros. E que, no dia a dia, devemos manter-nos alerta e pensar que tudo é possível em toda a parte.
