segunda-feira, 19 de julho de 2021

Javier Cercas



Há dias, numa determinada circunstância social, ouvi alguém dizer “e ali o Javier Cercas…” Voltei-me para o escritor e editor Francisco José Viegas, que estava ao meu lado e, em voz baixa, perguntei-lhe: “Qual é o Javier Cercas?” O Francisco, com o sorriso que é o dele, apontou, de forma discreta, para a pessoa que estava precisamente junto de mim…

Acabada a função a que assistíamos, dirigi-me a quem me tinha sido indicado como sendo Javier Cercas e disse-lhe que pretendia cumprimentá-lo e felicitá-lo por livros que dele tinha lido e que me haviam dado um imenso prazer. Fi-lo porque senti, naquele momento, um dever de gratidão pelo gosto que havia tido em ler o “Anatomia de um Instante”, um relato extraordinário e muito esclarecedor sobre a tentativa de golpe militar que ocorreu em Espanha em 23 de fevereiro de 1981, e pelo fascinante “O Impostor”, a descrição de uma personagem real, que ficcionou uma sua biografia heróica, na Espanha pós-Franco.

E estava eu, perante um Javier Cercas naturalmente sorridente e agradado com o que eu lhe dizia no meu “portuñol”, a prestar-lhe uma modesta homenagem, quando a minha mulher se aproximou e eu fiz as apresentações. “Javier Cercas? O autor dos “Os Soldados de Salamina”? Esse livro foi como que um ‘murro no estômago’, para mim”, foi a reação dela, lembrando um pequeno grande livro de Cercas que a tinha impressionado muito.

Javier Cercas agradeceu, com grande simplicidade e simpatia, aquilo que lhe tínhamos dito, talvez curioso por ter ali encontrado, por mero acaso, duas pessoas que, não apenas apreciavam o que escrevia, mas que, vencida a barreira da timidez (falo por mim), tinham-se tirado dos seus cuidados e haviam querido dizer-lhe o bem que pensavam da sua obra. Imagino que, para um escritor, esse reconhecimento seja sempre agradável.

Por mim, devo dizer, fiquei muito satisfeito pela oportunidade. Às vezes, dizemos coisas simpáticas de alguém, seja por dever de ofício, seja por obrigação de circunstância. Algumas dessas vezes, até exageramos no elogio. Desta vez, contudo, num impulso mil por cento genuíno (tão genuíno que até tinha tido eco num casal!), eu tinha tido o gosto de dizer a um escritor, cara a cara, o quanto apreciava o que ele escrevera. Nunca o tinha feito antes a ninguém, noto agora. Com toda a certeza, muita gente já devia ter dito coisas similares a Javier Cercas. Mas há algo que tenho por seguro: ninguém lho disse nunca de uma forma mais sincera.

1 comentário:

rui esteves disse...

Li O Soldado de Salamina. Muito bom. Javier Cercas mostra os dois lados da guerra civil espanhola. Ficou-me na memória aquela reflexão da personagem franquista - um ideólogo do movimento fascista - que nunca imaginou aonde chegaria a teoria do pequeno grupo de que ele fez parte. A carnificina que se seguiu à vitória do Francisco Franco era-lhe estranha e ele não concordava com ela, mas o poder dele estava em contagem decrescente. Quem mandava era Franco e os tubarões que se lhe juntaram para enriquecer e os teóricos já não contavam para nada.