Há momentos, sob este fantástico dia de sol de Outono de Lisboa - conheço algumas cidades com dias assim, nenhuma com a suavidade única desta luz - lembrei-me, de repente, do silêncio que, noutros tempos, se usufruia ao atravessar alguns bairros populares da cidade, vai para meio século.
Era uma Lisboa muito triste, embrulhada numa pobreza de vida - um "mal-de-vivre", em homenagem ao José Fonseca e Costa - que parecia fazer parte do seu inexorável destino: muitas casas como esta, gente mal vestida e sem esperança, serviços públicos degradados, transportes incómodos, o tal "viver habitualmente" com que a ditadura suspendera o tempo dos portugueses, entre os medos (a política, a religião, a guerra, o desemprego/emigração) e a felicidade, então domingueira, do futebol, com as tascas à mistura.
Por esses tempos, se atravessássemos certas zonas da Ajuda ou de Marvila, se nos ocorresse andar pelo interior dos Anjos ou do Bairro Santos, recordo-me bem que se "ouvia" um silêncio único, sem aquele ruído de fundo de automóveis que hoje faz parte do cenário urbano. Quando muito, uma Zundap, uma Famel ou uma Pachancho - as Harley-Davidson do fascismo.
Nostalgia, isto? Não, apenas a constatação de que a vida era diferente. Ah! E nós também, claro! A única coisa comum é esta maravilhosa e única Lisboa.