Há poucas ambições de destino que possam rivalizar com a de
Marcelo Rebelo de Sousa. É lendário o seu afirmado objetivo, quase desde a
infância, de poder vir a ter um futuro institucional à escala nacional. Já nos
tempos em que Marcelo Caetano, na sua “travessia do deserto”, juntava na
“Choupana” os fiéis que iriam acompanhá-lo na substituição de Salazar, o
irrequieto filho de Baltazar Rebelo de Sousa era admitido nas conversas, imagina-se
que com a complacente tolerância dos circunstantes. Esta imersão total na política
doméstica, que passou pelo mundo universitário católico e pelos alvores da Sedes,
teria a sua glória na aventura irreverente do “Expresso” e na constituição do
PPD, acabando numa pouco notável experiência governativa e numa frágil
liderança do partido a que a sempre se mostrou ligado, onde o seu carisma afetivo
é retribuído com fervor quase clubista.
O país, contudo, fixou bastante mais o “outro” Marcelo: o
professor que “dava notas” aos políticos, na rádio e na televisão, figura que foi
evoluindo para um bizarro papel de “tudólogo”, alguém que fala e tem opinião
sobre tudo, sem deixar, contudo, de sugerir-se em permanência como alternativa
para mais altos voos. Um dia, em Paris, ouvi Eduardo Lourenço qualificá-lo de forma
magistral: “O Marcelo é como uma pessoa que está numa varanda a ver passar o
país, comentando todos e cada um. Às vezes, nesse “voyeurisme”, acontece-lhe
fazer apreciações sobre o próprio Marcelo que passa...”
Neste jogo de sombras em que está transformada a corrida
presidencial, Marcelo foi tendo a sorte dos teimosos. Guterres, a sua grande
sombra geracional, desistiu cedo. Santana deu a si próprio um golpe de
Misericórdia. Rui Rio, por uma tempestade perfeita de azares e alguma culpa
própria, saiu de cena. Mal-amado por uma direção do PSD que representa um
partido diferente daquele que ajudou a criar, com um brilho intelectual que
acaba por atenuar o défice de credibilidade que a sobre-exposição e a
prolixidade obsessiva lhe colou à pele, Marcelo (o facto de o país o tratar
pelo nome próprio reflete a intimidade que criou com os portugueses) tem hoje
perante si dois candidatos à esquerda que, podendo acabar por não ser fáceis,
não são obstáculos absolutamente intransponíveis às suas ambições.
Mas é face a uma direita em estado político de estupor,
conformada com o facto de ver-se obrigada a aceitá-lo como o seu candidato, que
Marcelo se dá hoje ao luxo de encetar uma operação tática de distanciação, em
especial deixando cair farpas regulares ao seu possível antecessor. Ao mesmo
tempo, vai seduzindo o centro e divertindo alguma esquerda, que não consegue
deixar de achar graça à sua inexorável heterodoxia. O que Marcelo deve sorrir!
Porém, resta saber se será o último a rir.
