1. A França merece toda a nossa solidariedade. A França paga, nestes ataques, o facto de ser o país europeu mais determinado na luta contra o Estado islâmico e organizações similares a ele ligadas. O terrorismo nunca é totalmente evitável, mas os atentados de ontem revelam falhas flagrantes no sistema de "alerta precoce" de um país que sabia ser o principal alvo europeu dos terroristas islâmicos.
2. Estes ataques, pelo seu caráter coordenado e eficaz, demonstram uma sofisticação fora do vulgar. Significam que, no seio da União europeia, o Estado islâmico dispõe hoje de uma rede de notável capacidade, seguramente baseada em cidadãos nascidos no território europeu mas cuja "pátria" afetiva está algures. Lutar contra inimigo "da porta ao lado" será sempre uma tarefa muito complexa, se se pretende preservar a sociedade de uma onda de islamofobia e de ódio étnico-religioso.
3. O acordo de Schengen, que representou uma conquista da maior importância para a Europa, na criação de um grande espaço de liberdade de circulação, pode estar ferido de morte. Já antes destes atentados se ouviam as vozes contra Schengen. Agora, os adeptos das fronteiras vão emergir como cogumelos, muito embora, se se provar que, neste caso, a maioria dos terroristas são franceses, as fronteiras valham de pouco.
4. Não é despiciendo o efeito que estes atentados venham a ter na vida política francesa, com as forças extremistas a beneficiarem de uma onde de medo, que afeta a racionalidade e abre caminho à desconfiança e aos ódios fáceis. Quero crer que a França, onde o culto das liberdades é muito forte, saberá resistir às pulsões "maccartistas" e saberá preservá-las no essencial, na vaga securitária que vai seguir-se. O objetivo dos terroristas é perturbar o nosso sistema de vida, torná-lo tributário dos medos que nos infundem. Quando nossa liberdade vier a ser posta entre parêntesis por virtude de ataques como estes, os terroristas terão ganho uma importante batalha.