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domingo, novembro 22, 2015

Bruxelas


Fico triste pelos dias difíceis que Bruxelas agora atravessa. É uma cidade por que tenho uma grande simpatia, onde vivem amigos (já por lá tive muitos mais) e à qual me ligam memórias, pessoais e profissionais, muito agradáveis. Bruxelas "é" a Europa e eu não gosto de ver a capital do projeto europeu refém do medo.

Desde o final dos anos 60, tive sempre a consciência da presença de uma forte comunidade islâmica na cidade. Nessa altura parecia-me concentrada apenas perto da Gare du Nord, mas podia já então estar equivocado. Não há muito tempo, num fim-de-semana por lá, dei por mim a notar que membros dessa comunidade estavam presentes em cada vez mais zonas da cidade. Sabia do bairro de Molenbeek mas, devo confessar, nunca associei essa realidade a um risco terrorista.

Nunca vivi em Bruxelas, embora por lá tenha passado, em dias somados, uns bons meses. Para mim, Bruxelas foi sempre um destino de passagem breve. De todas as vezes, e foram algumas, em que se proporcionou ser lá colocado profissionalmente por alguns anos, esquivei-me e fiz outras opções de vida, nalguns casos nem eu sei bem porquê. Passei muitas centenas de horas a trabalhar fechado em salas "europeias" bruxelenses, às vezes com esses dias intervalados apenas por algumas escassas horas de sono. É talvez o insuportável cansaço desses "anos da Europa" que contribui para que, ainda hoje, não valorize suficientemente uma cidade onde sei que muitos amigos meus foram felizes e a vida parece ser bastante cómoda. E Bruxelas é umas das boas cidades do mundo para se comer - tema que está longe de me ser indiferente.

Por conta dessas muitas visitas profissionais à capital belga, fui, durante muitos anos, um "frequent sleeper" em Bruxelas. Para além de casas de amigos, dormi por lá em 14 hotéis diferentes, segundo as minhas contas. E é a propósito de hotéis de Bruxelas que nasce esta historieta que hoje me apetece contar.

Nos anos 70, da primeira vez que fui em serviço a Bruxelas, levar a mala diplomática, fui recebido por essa figura típica para várias gerações diplomáticas portuguesas que era o motorista da nossa delegação junto da NATO, o sr. Rézo (escrever-se-á assim?). No caminho do aeroporto para a cidade, e para fazer conversa e "armar-me" um pouco, comentei a velocidade de 90 km permitida usando a palavra belga "nonante", em lugar de "quatre-vingt-dix", acrescentando, "como vocês dizem por aqui". O sr. Rézo olhou para mim, surpreendido e quase ofendido, e exclamou: "Mas eu não sou belga!". E logo adiantou um qualificativo muito pouco simpático para os locais. Explicou-me, então, que era francês, de Vallenciennes, e que fora forçado a ir viver para Bruxelas quando a NATO saiu de Paris. Pelos vistos, não apreciara nada a mudança.

O nosso homem tinha, manifestamente, um arranjo qualquer com o Hotel Albert I, na place Rogier (hoje transformado num luxuoso Hilton), onde colocava todos os "correios de gabinete" (nome técnico para os portadores da mala diplomática). Ao tempo, o hotel, que tinha ares de ter sido bom, estava num estado sinistro. No segundo dia, depois de ver uma barata trepar para a minha cama, perdi o amor à bolsa, atravessei a praça e fui instalar-me no Sheraton, em frente. O sr. Rézo não gostou.

Da vez seguinte que fui a Bruxelas, alertei o sr. Rézo, logo à saída do aeroporto, de que havia reservado um quarto em outro hotel, aliás numa esquina quase em frente ao Albert I. Vi que ficou furioso com a suspensão do arranjinho, talvez temendo que o meu exemplo frutificasse noutros colegas, afetando a sua comissão. Para distender a conversa, acabei por perguntar-lhe o que achava do hotel que eu escolhera. Foi seco e claro: "Pas mal pour un bordel...". Vá lá, não era.

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